Os Bolsonaros da África

Fiéis oram sem usar máscaras e sem respeitar o distanciamento social durante uma missa do Domingo de Ramos na Igreja do Evangelho Completo, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Foto Ericky Boniphace/AFP

Líderes do continente africano apostam em chás milagrosos, conhaque e muita fé para combater os efeitos do coronavírus

Por Alexandre dos Santos | ODS 10ODS 3 • Publicada em 13 de maio de 2020 - 07:38 • Atualizada em 19 de setembro de 2020 - 12:10

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Fiéis oram sem usar máscaras e sem respeitar o distanciamento social durante uma missa do Domingo de Ramos na Igreja do Evangelho Completo, em Dar es Salaam, na Tanzânia. Foto Ericky Boniphace/AFP

“Este chá de ervas dá resultado em sete dias!”, anunciou Andry Rajoelina, presidente de Madagascar, fazendo lembrar o presidente Jair Bolsonaro e a sua insistência em tratar a cloroquina como salvação para a covid-19. Em uma coletiva de imprensa no Instituto Malgaxe de Pesquisa Aplicada, em fins de abril de 2020, Rajoelina apresentou ao mundo, com orgulho, a cura para a pandemia do coronavirus usando um produto que é fruto da “sabedoria milenar da medicina tradicional africana”. O tônico, batizado como “Covid-Orgânico” (ou CVO), foi largamente distribuído para estudantes do ensino médio, integrantes do governo e militares. Desde então, sempre que possível, o presidente Rajoelina se faz fotografar segurando uma garrafa ou bebendo o CVO pelo gargalo. Os números oficiais ajudam na propaganda. Até o dia 8 de maio o país tinha registrado apenas 193 casos e nenhuma morte.

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Mesmo que as terapias sejam derivadas da prática tradicional e natural, estabelecer sua eficácia e segurança através de rigorosos ensaios clínicos é fundamental. Os africanos merecem utilizar medicamentos testados de acordo com as normas aplicáveis aos medicamentos fabricados para pessoas no resto do mundo

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Apesar de não haver qualquer estudo em larga escala que comprove os efeitos do tônico milagroso, – o governo malgaxe confirma testes em menos de 20 pessoas, feitos três semanas antes do lançamento – o anúncio de uma cura que resgata e valoriza os saberes ancestrais dos povos africanos se tornou rapidamente um alavancador de popularidade para governos em apuros e líderes com popularidade em cheque. O próprio Rajoelina, eleito há menos de dois anos usando todo um aparato muito conhecido pelos brasileiros (distribuição de fakenews e antipropagandas por grupos de whatsapp e campanhas de linchamento moral de adversários usando robôs nas mídias sociais) vinha perdendo popularidade a passos largos. A pandemia se tornou uma ótima oportunidade para posar de Salvador da pátria e da humanidade, usando a mídia oficial e o gabinete militar para constranger os acadêmicos e cientistas malgaxes que criticam o “elixir milagroso”.

O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, bebe uma amostra do remédio “Covid Orgânico” ou CVO em uma cerimônia de lançamento na cidade de Antananarivo, capital do país. Foto Ruasolo/AFP

Denis Sassou Nguesso, presidente e ditador da República do Congo, país vizinho da República Democrática do Congo, no poder desde 1997 (mas tendo sido presidente entre 1972 e 1992), encomendou e recebeu carregamentos da bebida, que foram “doados” pelo governo de Madagascar. O Congo registrava na mesma data 274 casos e dez mortos.

Encomendas também foram feitas pelo ditador da Guiné-Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, no poder desde 1979, que tinha 439 casos e dez mortos. Nguema saldou o produto com ufanismo comovente para um país que está na 144ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano (de um total de 189 países) e entre os 15 piores países no ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras: “É com profundo orgulho que anuncio termos uma cura ‘made-in-África’ para um mal trazido de fora”.

O presidente da Tanzânia, John Magufuli, com seus 480 casos e 16 mortos, que vem alternando o respeito à democracia com arroubos autoritários, determinou que uma das diretrizes de combate à pandemia do novo coronavirus é a manutenção dos cultos religiosos. O país de maioria cristã (53%), mas com uma considerável população islâmica (31%), vem tentando se aproximar dos líderes religiosos para tentar reverter a queda na popularidade e no apoio ao Partido da Revolução, que vem perdendo capital político desde as eleições de 2005 (quando teve 58% dos votos) até a reeleição de Magufuli em 2015 (quando obteve “meros” 58% dos votos). O presidente tanzaniano vende a ideia de que “um país abençoado por Deus está protegido.” Mas, para garantir manchetes e manter a prática populista, encomendou uma grande quantidade do Covid-Orgânico, cujas garrafas devem ser distribuídas com a ajuda dos líderes religiosos do país.

Na mesma linha da salvação religiosa, o presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, defende um slogan que é quase uma cópia do mantra brasileiro: “Burundi é nosso orgulho e Deus é o líder acima de todos”. Lá foram registrados 15 casos e uma morte. Para Nkurunziza, o país de maioria cristã “não precisa de confinamento porque pôs Deus em primeiro lugar”.

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Já na Guiné-Bissau, com 564 casos e duas mortes, o presidente Umaro Sissoco Embaló, que acaba de ser reconhecido pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental depois de meses de contestações a respeito dos resultados das eleições de dezembro de 2019, encomendou um carregamento de Covid-Orgânico visando melhorar a imagem como líder. Afinal, o país se dividiu nas últimas eleições, dando a ele 53,55% dos votos. Embaló terá uma dura batalha de popularidade pela frente, já que o primeiro-ministro, Nuno Nabiam, que se recuperou da covid-19, alega que uma receita local de chá de alho, gengibre e limão, tomado até cinco vezes ao dia, o curou.

O presidente em exercício do Burundi, Pierre Nkurunziza (C), fala durante a abertura da campanha presidencial. Apesar da covid-19, as eleições seguem marcadas para o dia 20 de maio. Foto Tchandrou Nitanga/AFP

Na vizinha Guiné, o presidente Alpha Condé também anunciou uma receita local para o combate ao coronavirus: beber água quente e inalar mentol várias vezes por dia. O país tinha registrado até 8 de maio 1.927 casos e 11 mortes.

Com a profusão de soluções locais e milagrosas sendo apresentadas em vários países africanos, o governador de Nairóbi, a capital do Quênia, ganhou as manchetes das agências de notícias ao apresentar, com toda a pompa e solenidade, a sua solução para o combate à pandemia. Doses diárias e generosas de conhaque Hennessy, que ele mesmo chamou de “desinfetante da garganta”. Durante a coletiva, o governador distribuiu dezenas de garrafinhas para os jornalistas e convidados. A empresa produtora do conhaque, surpreendida com a repercussão, foi obrigada a vir a pública para negar as características antivirais da bebida. O Quênia tinha 621 casos e 29 mortos.

A rápida notoriedade que o presidente de Madagascar, Andry Rajoalina, e o Covid-Orgânico ganharam nas últimas semanas, acendeu o alerta da Organização Mundial da Saúde. O escritório regional da OMS para a África divulgou uma nota na qual condena o uso e a propaganda de soluções que não tenham passado por testes de eficácia rigorosos: “Mesmo que as terapias sejam derivadas da prática tradicional e natural, estabelecer sua eficácia e segurança através de rigorosos ensaios clínicos é fundamental”. A nota continua: “Os africanos merecem utilizar medicamentos testados de acordo com as normas aplicáveis aos medicamentos fabricados para pessoas no resto do mundo”.

A União Africana também se apressou em pedir cautela e responsabilidade aos líderes dos países africanos. “Qualquer remédio ou medicamento reclamado por alguém tem de passar por um ensaio clínico ou avaliação independente e essa avaliação tem de mostrar que é seguro, eficaz e conduzido de forma ética”, disse John Nkengasong, diretor do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da União Africana. A União Africana também pediu que o governo malgaxe compartilhe os dados sobre os testes realizados com o Covid-Orgânico, bem como a relação dos componentes do produto. O que se sabe até agora é que uma das ervas usadas para a produção do chá é a artemísia, planta com eficácia comprovada contra a malária.

Alexandre dos Santos

Jornalista formado pela Uerj em 1996 e mestre em Relações Internacionais pela PUC-Rio. Trabalhou como repórter em jornal impresso e em TV. É professor de História da África no curso de Relações Internacionais da PUC-Rio. Carioca de muitas ascendências: camaronesa, angolana, portuguesa e espanhola. E-mail: alexandredossantos@me.com. Instagram: @alsantos72

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