Peru e o Brasil estão passando por um momento crÃtico. Os dois paÃses (assim como o Equador) estão entre as nações mais atingidas pela pandemia do novo coronavÃrus na América do Sul. Ambos estão batendo recordes de casos e mortes e sobem a curva como se estivessem em uma pré-cordilheira, ainda distantes do pico e longe da fase de descida. Os dois paÃses estão tendo dificuldade para vencer um minúsculo vÃrus, de 1 bilionésimo de milÃmetro, que ocupa territórios e avança sobre as populações com grande velocidade.
Mas o Peru – que é o paÃs das lindas linhas de Nazca, do complexo arquitetônico de Ollantaytambo e da maravilhosa cidade de Machu Picchu – está lutando para não perder esta batalha contra o coronavÃrus. Para entender o que se passa em nosso vizinho do outro lado da cordilheira dos Andes e banhado pelo oceano PacÃfico, vamos iniciar este diário com uma breve caracterização sociodemográfica e econômica, analisar os dados da covid-19 na América do Sul e apresentar  uma entrevista com a demógrafa peruana RofÃlia RamÃrez – doutora pela Universidad Peruana Cayetano Heredia (UPCH) y pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG) â funcionária pública com experiência no Seguro Social de Salud (ESSALUD) e no Instituto Nacional de EstadÃstica e Informática (INEI). Além de filiada à Associação Latino Americana de População (ALAP), ela também é professora universitária e pesquisadora em temas econômicos e sociais.
Breve panorama demográfico e socioeconômico do Peru
O Peru é o quarto maior paÃs da América do Sul. Segundo a Divisão de População da ONU, o paÃs tinha uma população de 7,8 milhões de habitantes em 1950, chegou a 33 milhões em 2020 e deve atingir, na projeção média, 39 milhões de pessoas em 2100. As mulheres peruanas tinham em média 7 filhos até o inÃcio da década de 1970, quando a taxa de fecundidade total (TFT) começou a cair e atingiu 3 filhos no quinquênio 1995-2000. Na primeira década do século XXI a TFT ficou estagnada em 2,7 filhos por mulher e chegou a 2,3 filhos no quinquênio 2015-20. Em consequência o Peru mantém uma pirâmide etária relativamente jovem e com um crescimento da natalidade no último quinquênio. Todavia, mesmo com uma baixa proporção de idosos e uma população jovem, o Peru não está sendo poupado pela covid-19.
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Veja o que já enviamosA tabela abaixo apresenta alguns indicadores demográficos para o Peru, Brasil, América do Sul, ALC e o mundo. O Peru tinha uma das mais altas taxas de mortalidade infantil (MI) e uma das mais baixas esperança de vida ao nascer (Eo) em meados do século passado. Mas no quinquênio 2015-20 já apresentava indicadores equivalentes à média da América Latina e Caribe (ALC) e melhores do que a média mundial. O Ãndice de Envelhecimento (IE) era de 14 idosos (60 anos e mais) para cada 100 jovens de 0 a 14 anos e passou para 51 idosos por cada 100 jovens. Portanto, o Peru tem uma estrutura etária pouco envelhecida.
Em 1980 o Peru tinha uma renda per capita a preços correntes, em poder de paridade de compra (ppp) de US$ 3,2 mil, acima da renda média mundial, mas abaixo da renda per capita do Brasil e da América Latina, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). As décadas de 1980 e 1990 foram terrÃveis para o Peru que se distanciou da média mundial e da média da ALC. Contudo, a partir de 2004, o paÃs andino começou a crescer mais rápido e reduziu a diferença e não sofreu tanto assim com a crise financeira internacional de 2008/09.
Em 2019, o Peru estava com uma renda de US$ 15 mil, pouco abaixo da renda per capita do Brasil e da ALC (em torno de US$ 16,7 mil), mas bem abaixo da renda média mundial de US$ 18,4 mil. Ou seja, o Peru vinha apresentando desempenho econômico acima da média do continente antes de ser atingido pela pandemia do coronavÃrus.
Para 2020, o estudo da Cepal, âDimensionar los efectos del COVID-19 para pensar en la reactivaciónâ (21/04/2020), mostra que a pandemia da covid-19 pegou a ALC em um momento de debilidade macroeconômica, pois, no decênio posterior à crise financeira de 2008/09, o continente apresentou, em média, o menor crescimento desde a década de 1950.
A Cepal projeta um aumento do desemprego e da pobreza e uma redução da renda per capita de todos os paÃses da região. A Cepal estima uma queda do PIB, em 2020, de -5,3% na ALC, de 5,2% no Brasil, de 5,2% na América do Sul e de â 4% no Peru. Se estes números se confirmarem o Peru poderá ser um pouco menos afetado pelo pandemônio econômico atual que a média da região. Evidentemente, quanto maior for o impacto da pandemia maior será o pandemônio econômico e maior será o sofrimento das populações afetadas.
Assim, é fundamental vencer a batalha contra o coronavÃrus. Quanto mais rápido a epidemia for eliminada, mais velozmente o paÃs poderá voltar à ativa e reduzir os efeitos negativos do aumento do desemprego, da pobreza e da queda da renda média. Neste aspecto, o Peru terá que fazer um esforço muito grande para alcançar a renda média mundial.
Dados sobre a Covid-19 no mundo, na América do Sul, no Brasil e no Peru
A América do Sul tem se tornado um enorme foco de propagação da pandemia do novo coronavÃrus. Considerando os 10 maiores paÃses da região, a América do Sul com 5,5% da população mundial respondia no dia 20 de maio de 2020 por 10,2% do número de pessoas infectadas e por 8,1% das mortes globais. Mas o paÃs com maior peso proporcional é o Brasil que tem 2,7% da população mundial, mas responde por 5,7% dos casos e das mortes da covid-19.
O Peru, com 0,4% da população mundial respondia em 20/05, por 2% dos casos e 0,9% das mortes e ultrapassou a marca de 100 mil casos. A tabela abaixo mostra que o Peru tem o maior coeficiente de incidência (3.024 casos por milhão) e o segundo maior coeficiente de mortalidade (92 mortes por milhão).
O Brasil tem, destacadamente, os maiores números de casos e de mortes, mas o maior coeficiente de mortalidade está no Equador, com 164 mortes por milhão de habitantes. A Venezuela tem os menores coeficientes, mas existem muitos questionamentos sobre a confiabilidade e comparabilidade dos dados. Dos dez paÃses do continente sul americano o Paraguai parece que é a nação com maiores êxitos até aqui.
O jornal Financial Times apresenta uma série de gráficos com dados para o número de casos e de mortes para todos os paÃses do mundo, a partir da média móvel de sete dias (uma semana) do novos casos e novas mortes, por número de dias desde que foram alcançadas, em média, três mortes pela primeira vez. Nos gráficos abaixo estão destacados os casos do Peru, do Brasil e dos Estados Unidos (primeiro lugar no ranking nos números acumulados). Os 3 paÃses estão com coeficientes muito altos.
No gráfico abaixo, com o número de novas pessoas infectadas nas últimas 24 horas, o Peru ultrapassou primeiro o Brasil e depois os EUA, tornando-se um paÃs com altÃssimo coeficiente de incidência. Os EUA que tinham um coeficiente de incidência muito alto já apresentam uma consistente tendência de queda, se bem que em alto patamar. O Brasil segue a mesma tendência do Peru, deve ultrapassar os EUA em breve. Mas cabe destacar que o Peru realizou 20,6 mil testes por milhão de habitantes, enquanto o Brasil realizou somente 3,5 mil testes por milhão (segundo o site Worldometers). De qualquer forma, o Peru só está atrás do coeficiente de incidência de paÃses demograficamente pequenos como o Qatar, Bahrain e Kuwait.
O gráfico abaixo (também do jornal Financial Times) apresenta o número de mortes diárias por milhão de habitantes. Da mesma forma, o Peru e o Brasil se destacam, pois estão se aproximando dos EUA e apresentam uma inclinação ascendente da curva, ao contrário dos EUA e de paÃses europeus, como Itália, Espanha e Reino Unido, que possuem coeficientes de mortalidade maiores, mas em declÃnio.
Estes gráficos são úteis para mostrar que o Peru e o Brasil estão no epicentro da epidemia, pois apresentam tendência de expansão, enquanto a média mundial apresenta tendência de retração. Ou seja, o Peru e o Brasil estão indo para o topo do ranking dos paÃses mais atingidos pelo coronavÃrus quando se controla a etapa epidemiológica da pandemia e o peso demográfico dos paÃses.
Entrevista com a demógrafa RofÃlia RamÃrez sobre a pandemia no Peru
Para entender melhor o que acontece no Peru, apresentamos uma entrevista com uma testemunha ocular das ações realizadas pela população do paÃs para tentar controlar o perigo da covid-19 e garantir a proteção social necessária para este perÃodo de dificuldades.
Quando o Peru percebeu a gravidade da pandemia?
RofÃlia RamÃrez – Em 6 de março de 2020 foi confirmado o primeiro caso (importado) de coronavÃrus no Peru. Diante disso, o governo e a mÃdia mantêm a população informada sobre o progresso da epidemia. Dada a importância de controlar o surto, em 12 de março o Peru formou o Grupo de Trabalho “Comissão Multissetorial de Alto NÃvel para conduzir os trabalhos de coordenação e articulação visando a prevenção, proteção e controle do coronavÃrus (covid-19)â, composto por representantes de instituições de saúde pública e privadas, pesquisadores sociais e epidemiologistas.
Diante do avanço da pandemia, em 11 de março, o Governo declarou oficialmente uma Emergência em Saúde em nÃvel nacional. Nesse mesmo dia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou covid-19 como uma pandemia.
Que medidas sanitárias foram tomadas pelo governo e pela sociedade civil?
RofÃlia RamÃrez – Na declaração de emergência sanitária (Decreto Supremo nº 008-2020-SA), o Ministério da Saúde aprovou um Plano de Ação e uma relação de bens e serviços que seriam necessários contratar para enfrentar a emergência sanitária, inclui as instituições de saúde pública, Seguridade Social da Saúde (sistema de saúde contributivo), Saúde das Forças Armadas e PolÃcia Nacional do Peru. Os centros assistenciais priorizam o atendimento de pacientes com COVID-19, bem como estabelecem medidas de prevenção e controle para impedir a disseminação da covid-19.
Entre estas medidas estão: as pessoas que entram no território nacional por portos, aeroportos e postos de entrada terrestre devem apresentar a Declaração Juramentada de Saúde do Viajante, para evitar a covid-19, e aqueles provenientes de paÃses com histórico epidemiológico, devem se sujeitar ao isolamento domiciliar por 14 dias; foi determinado uso obrigatório de máscaras; foram suspensas as atividades educacionais em todos os nÃveis; suspensos os eventos envolvendo a concentração de pessoas em espaços fechados ou abertos; implementação de medidas sanitárias em estabelecimentos comerciais e mercados; e foi implementado o trabalho remoto, conforme orientação das empresas.
Como a quarentena (isolamento social) tem funcionado no Peru?
RofÃlia RamÃrez – A quarentena/imobilização social obrigatória foi acatada pela maioria da população; no entanto, não faltaram casos de pessoas que não cumpriram e as forças armadas e a polÃcia tiveram que intervir. As estatÃsticas indicam que nas regiões onde houve menos cumprimento da quarentena apresentam atualmente o maior número de infecções e mortes. Durante os 75 dias de quarentena e devido ao aumento do número de infecções e mortes, medidas mais duras foram implementadas, prolongando as horas de imobilização compulsória. Houve reforço das forças armadas e da polÃcia cuidando das ruas e fronteiras, multas variando de 86 soles a 430 soles (algo entre 145 reais e 720 reais), para as pessoas que circulam na rua sem passe de trabalho e que não trabalham em atividades econômicas consideradas essenciais (saúde, comércio, etc.). Também é proibido andar sem máscara, dirigir com veÃculo particular sem autorização do Ministério da Defesa, ou realizar atividades sociais, recreativas, culturais e religiosas com uma aglomeração massiva de pessoas.
Existem medidas econômicas tomadas pelo governo para garantir que as pessoas mantenham sua sobrevivência?
RofÃlia RamÃrez – As medidas econômicas são destinadas tanto à s populações vulneráveis como à s empresas. Para famÃlias em situação de vulnerabilidade, o governo concedeu dois tÃtulos monetários de 380 soles cada (cerca de 650 reais), para famÃlias em situação de pobreza e extrema pobreza registradas no cadastro de beneficiários do programa JUNTOS. Da mesma forma foram transferidos recursos financeiros para os Governos municipais entregarem cestas de produtos alimentÃcios a famÃlias pobres em sua jurisdição. Também se previa o fornecimento de recursos para as famÃlias rurais, assim como transferência para ajudar idosos em alto risco e pessoas com deficiências graves. Para trabalhadores formais a possibilidade de retirar até 2.400 soles (4 mil reais) do Fundo de Compensação por Tempo de Serviço (CTS) e da retirada do Fundo de Pensão Privada (AFP) de 2 mil soles (3.400 reais) e, posteriormente, 25%.
Para trabalhadores independentes foi entregue um bônus monetário de 380 soles (650 reais). Para as empresas o Estado subsidiará as folhas de pagamento de empresas que tenham trabalhadores com salários de até 1.500 soles (2.500 reais). Além disso, foi estabelecido um alÃvio tributário para empresas que faturam menos de 21 milhões de soles (35 milhões de reais) e foi criado o fundo âReactiva Peruâ para conceder créditos e subsÃdios para as empresas com risco de romper as cadeias de pagamento de seus funcionários.
Quando e como o governo planeja encerrar a quarentena?
RofÃlia RamÃrez – Até agora, o presidente em suas mensagens à nação, não fez uma declaração sobre colocar um fim da quarentena. A quarentena foi de fato estendida, de acordo com o Presidente, considerando as recomendações do Ministério da Saúde, Faculdade de Medicina e especialistas em epidemiologia, sobre o progresso da disseminação do covid-19.
Existem lições que você acha que o Peru pode ensinar ao Brasil neste momento diante da pandemia?
RofÃlia RamÃrez – à um evento incomum, por esse motivo, os paÃses estão implementando ações de acordo com o avanço e focalização do contágio. O destaque foi a criação de um Sistema Integrado de Informações sobre a covid-19 em nÃvel nacional, onde as unidades de saúde estaduais (subsidiadas), o sistema contributivo, o das forças armadas e as clÃnicas (privadas) relatam diariamente a existência de infraestrutura ( quartos, camas disponÃveis, ocupadas etc.) e equipamentos (ventiladores mecânicos e assistidos etc.). Essas informações foram usadas como sistema de referência para a internação dos infectados pela covid-19 (de acordo com a presidente da Comissão Covid-19, o sistema de saúde é fragmentado). Também é informado regularmente o número de testes aplicados, o número de infectados, recuperados e falecidos. No Peru, por meio de um mapa de calor, identificou-se que os mercados de suprimentos, principalmente os maiores, eram os principais focos de infecção. Esses foram fechados para tratamento de desinfecção e aberto novamente com apenas os funcionários não infectados.
Como você e sua famÃlia estão lidando com esses 2 meses de quarentena?
RofÃlia RamÃrez – Não é fácil. Na minha casa, eu tenho meus pais, eles são idosos (acima de 88 anos), portanto, o cuidado deve ser extremo, raramente saio de casa para compras e não recebemos visitas de pessoas que moram em outros lugares, nem mesmo meus irmãos. Para os meus pais, sendo uma população extremamente vulnerável, o isolamento é total. Em relação à s minhas atividades de trabalho, tenho feito em modalidade mista, ou seja, presencial no escritório e trabalho remoto em casa. Com essa modalidade, há certamente mais horas dedicadas ao trabalho diariamente.
âCom o progresso, acreditamos que a natureza estava dominadaâ
Mario Vargas Llosa
Escritor peruano e Prêmio Nobel de Literatura
