Na análise do agente, os jovens de sexo masculino que trajassem âcalças blue-jeans de brim grosso, surrado, ou submetido a processo quÃmico, para assim parecerâ, e usassem barbas e cabeleiras, eram comunistas e subversivos. Portanto, mereciam ser monitorados.
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Veja o que já enviamosPelo menos foi isso que fez o agente Zonildo Castello Branco (matrÃcula ilegÃvel), no plantão do dia 1° de julho de 1971.  Documentos localizados pela Comissão da Verdade Rio (CEV-Rio) no Arquivo Público do Estado (Aperj), revelam que o ocupado agente produziu o âinformeâ nº 035, de classificação C.2 (ou seja, baixa confidencialidade). Assunto: âPropaganda Psicológicaâ. O documento, sem anexos, para efeito de arquivamento no DOPS, teve como referência o nome âMistificação de Massasâ.
O tal informe, na verdade, tratava-se de uma âanáliseâ (recheada de erros gramaticais) dos trajes usados pelos jovens de esquerda da época que, segundo Zonildo, não passavam de âhippiesâ de origem âalienÃgenaâ. O objetivo do trabalho não fica muito claro, mas tudo indica que seria uma tentativa de facilitar a identificação visual desses jovens.
Na análise do agente, os jovens de sexo masculino que trajassem âcalças blue-jeans de brim grosso, surrado, ou submetido a processo quÃmico, para assim parecerâ, e usassem barbas e cabeleiras, eram comunistas e subversivos. Portanto, mereciam ser monitorados. Já as moças com blue-jeans surradas, bolsas a tiracolo e sandálias confeccionadas com pedaços de pneu, estariam optando por roupas com forte âsignificação de protesto, rejeitando os costumeiros trajes usuais, protocolares, da vida cotidiana, atuando sobre os sentidos, que causam emoções, impressionando as massas â jovens -, despertando-lhes agressividadeâ.
Prosseguindo com a sua observação âantropológicaâ, o agente avaliou também que âsÃmbolos gráficos, plásticos e sonorosâ, serviriam como âexcitantes condicional (sic?), nas aclamações da multidão â vide os festivais universitários de música, o som livre-exportação, etc â onde seu comportamento positivo, desce ao delÃrio, tanto estático, como furiosoâ.
Não se pode dizer, no entanto, que o agente Zonildo, ao produzir o seu informe, não tenha âpesquisadoâ o tema. Vê-se que foi aplicado. Tanto assim que arriscou antecipar as novas influências que arrebatariam a juventude brasileira, no âquesito indumentáriaâ. E previu: âatualmente esse tipo de moda sofrerá alteração para uma fase mais agressiva, ou seja, o WAR-LOOK que é uma moda-soldado, vinda do Vietnam (sic), introduzida pela juventude norte-americana. Consta de: camisetas de malha com inscrições U.S.Army, túnicas de campanha em brim ou gabardina verde-exércitoâ…
Ele observou também que âas bolsas a tiracolo foram substituÃdas por mochilas de lona. A bijuteria foi transformada em correntes prateadas, pesadas, sustentando placas de identificação e amuletos, pulseiras de identificação iguais à s usadas pelos soldados durante a guerra. O tecido é em vários tons de verde, como para os homens, o casaco verde garrafa é o â guerrilheiro cubano -, é a saharienne, o blue-jeansâ.
E, para não deixar nenhuma dúvida sobre o quanto se aprofundou no assunto, Zonildo fez questão de situar as influências para o setor.
âA origem dessa moda, dessa propaganda, provém de Paris, capital da França, numa tentativa vã de desabrochar a juventude brasileira, criando-lhe um mito de desagregação, inculcando-lhe ideias, através de uma corrente poderosa â propaganda, falsas em contradição flagrante com tudo o que é causa do nosso progresso, com a Ciência, a Técnica, no atual momento.â
E, por fim, conclui o seu âestudoâ: âOs veÃculos de propaganda, são disseminados pelos âcostureiroâ, (sua dedicação à gramática não condiz com seu interesse por moda) butiques, os elementos do meio artÃstico-cultural-social através de seus trajes avançadosâ.
Para a jornalista e editora de moda, Iesa Rodrigues, âfaltava descobrir este tipo de documentoâ.
Em sua opinião, âquem viveu esta época deve lembrar a reação deste tipo de âprofissionalâ em relação aos que passavam usando um figurino considerado âsubversivoâ.
Iesa destaca alguns pontos visados pelos agentes responsáveis por detectar os de tendência esquerdista. âVestir calças meio rasgadinhas, camiseta surrada e tênis Bamba ou sandália franciscana definia pessoas com ideias liberais, fora da corrente oficial despertava suspeitas.â E pondera que âbem, podia ser verdade, pois por um ponto de vista â esta onda meio hippie contrariava as modas elegantes da época, os anos 1960. Em lugar dos redingotes chiques das mães, os jovens preferiam roupas um tanto desmazeladas, as meninas deixavam cabelões naturalmente crespos, os caras deixavam as barbas crescerem.â Este culto ao modelo fora do padrão tinha lá os seus motivos, aponta ela. âOs sapatos confortáveis, baratinhos, serviam para correr nas passeatas. Afinal, a moda tem seu lado de expressão sócio-polÃtico e contestador…â, conclui Iesa.
Todo o esforço de Zonildo teve um destino em 12 de junho de 1971. A peça âantropológicaâ feita por ele chegou ao Centro de Informações do Exército (CIE), sob a referência nº 1159/71M.E n- CIE, acompanhada de documento que dá conta de que o âexpedienteâ fora encaminhado ao setor de Buscas Especiais e recebido no dia 09/07/71 –  através do protocolo da D.O. nº 2846 e do S.E. nº 2376 -, depois de assinado pelo responsável da seção de âOrganizações subversivo-terroristasâ.
Isto feito, o chefe da Seção de Buscas Especiais recebeu, âEm aditamento ao despacho exarado no expediente supraâ, a informação de que o detalhado documento passou a dormitar no arquivo do CIE, ao lado das publicações das organizações subversivo-terroristas, âClasse Operáriaâ e âO Proletariadoâ, ambos editados pelo PC do B, bem como o jornal clandestino âUnião da Juventude Patrióticaâ, segundo apuraram aqueles dedicados senhores da arapongagem. Desta vez, assina âcienteâ o chefe do (Setor de Buscas Especiais) S.B.E, Deuteronomio Rocha dos Santos, matrÃcula: 141.502. Isto, depois de receber mais três carimbos. Era assim, nos tempos da ditadura. Nada escapava ao controle.

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Muito legal Denise, parabéns pela pesquisa e pela matéria..abs
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Embora eu não seja de esquerda, se eu tivesse vivido naquele tempo( teria que nascer em 1943 e não em 1973) eu estaria frito com a barba que eu uso.