Leia mais reportagens da série #100diasdebalbúrdiafederal
Desde 1975 atuando na área de pesquisa, ele confirma que esse é o momento mais difÃcil que já viveu em sua atividade. “Passamos por ditadura, mas, embora fizessem outras coisas terrÃveis, como torturas, os governos militares apostaram na ciência e tecnologia”, avalia. Ele encara o mandato à frente da ABC como um ato de “responsabilidade social”, mas lamenta que os encargos reduzam o tempo para trabalhar em laboratório. “A pesquisa é minha paixão”, declara.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosLEIA MAIS: Presidente da SBPC: ‘Voltamos ao nÃvel de investimento de 15 anos atrás: isso é catastrófico’
LEIA MAIS: Reitora da UFRJ paga pesquisa do próprio bolso
[g1_quote author_name=”Luiz Davidovich” author_description=”Presidente da Academia Brasileira de Ciência” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O êxodo de cientistas está ficando muito concreto. A gente antes percebia esse movimento, mas agora está avassalador. No próprio Instituto de FÃsica da UFRJ eu vejo isso. O instituto perdeu no último ano quatro jovens pesquisadores que fizeram concursos, estavam iniciando linhas de pesquisa interessantes e foram embora do paÃs. Essa crise está nos fazendo perder a juventude e isso afeta diretamente o futuro da ciência no Brasil,
[/g1_quote]à em nome desse amor à ciência que ele tem levado ao Congresso Nacional informações que ajudem a convencer os polÃticos a reverter o caos instalado na área. Teve encontros com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e com parlamentares de todos os partidos. Uma petição online, que já tem mais de 100 mil assinaturas, é uma das ferramentas para salvar da falta de verba o CNPQ, que foi obrigado a suspender 4500 novas bolsas. Outro objetivo é que o Congresso reserve os recursos adequados para a pesquisa no orçamento de 2020:
#Colabora – Qual a maior urgência nesse momento de penúria que atravessa a ciência brasileira?
Luiz Davidovich – Tivemos a notÃcia de que os recursos para o CNPQ, para pagamento de bolsas em particular, não serão restabelecidos. Novas bolsas não serão concedidas, o que interrompe o fluxo de jovens para o sistema. Isso mata o futuro da ciência no Brasil. Acrescente-se o fato de que os recursos para fomento no CNPQ são praticamente inexistentes. A gente se preocupa muito com as bolsas, porque elas ajudam a trazer os estudantes desde a iniciação cientÃfica e a formá-los, mas os recursos de fomento também são muito importantes. Por exemplo, o edital universal do CNPQ dá oportunidade a jovens pesquisadores de ter seus próprios recursos para pesquisa e não ficar dependentes apenas dos grupos mais estabelecidos, permite que estabeleçam suas linha de pesquisa, que renovem a ciência brasileira. A situação fica mais grave ainda quando se considera a situação da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), que apoia novos projetos e também está com grande escassez de recursos. à uma situação de terra arrasada.
Essas dificuldades são verificadas em todo o paÃs?
Davidovich – O único estado que está sobrevivendo é São Paulo, pois tem uma fundação de amparo à pesquisa que é um grande exemplo para o Brasil. Ela mostra como o apoio continuado traz resultados para sociedade. O retorno que o apoio da Fapesp tem trazido é fantástico. São inovações na área de saúde, alta tecnologia, que beneficiam diretamente o paÃs. à uma instituição que tem tido orçamento para isso durante anos, tem atravessado governos com polÃticas diferentes, mas é respeitada. No resto do paÃs, onde as fundações de amparo à pesquisa estão com problemas também, o que se vê é dramático. A consequência é que laboratórios que antes publicavam artigos nas melhores revistas internacionais, como Nature e Science, estão deixando de publicar lá, porque os equipamentos estão obsoletos.
Fala-se muito na saÃda de novos cientistas do paÃs. Isso se intensificou?
Davidovich – O êxodo de cientistas está ficando muito concreto. A gente antes percebia esse movimento, mas agora está avassalador. No próprio Instituto de FÃsica da UFRJ eu vejo isso. O instituto perdeu no último ano quatro jovens pesquisadores que fizeram concursos, estavam iniciando linhas de pesquisa interessantes e foram embora do paÃs. Essa crise está nos fazendo perder a juventude e isso afeta diretamente o futuro da ciência no Brasil, o que reduz as perspectivas de desenvolvimento nacional. Ficamos mais uma vez limitados a exportar commodities cujos preços e são estabelecidos nas bolsas de Chicago e Londres. à um situação muito ruim para o futuro.
[g1_quote author_name=”Luiz Davidovich” author_description=”Presidente da Academia Brasileira de Ciência” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Esse ano o governo vai deixar de ganhar por conta de subvenções a empresas entre R$ 300 bilhões a R$ 400 bilhões. à renúncia fiscal para a indústria automobilÃstica ou agroindústria, por exemplo. Será que estão atingindo os objetivos de reduzir o desemprego e fomentar a inovação? Se conseguirmos reduzir essas subvenções em R$ 2 bilhões (muito pouco diante do total), já permitiria ao Ministério da Ciência e Tecnologia recompor a sua função.
[/g1_quote]O que fazer para rever essa situação?
Davidovich – Temos uma petição na internet dirigida ao Congresso Nacional, que já passou de 100 mil assinaturas. Apelamos para que o Congresso salve a ciência brasileira. Essa petição tem o CNPq como objeto central e pedimos que seja restabelecido o orçamento. à basicamente isso. O mÃnimo dos mÃnimos para funcionar pelo menos em termos de bolsas seria da ordem de R$ 340 milhões. As pessoas dizem: mas o governo está com dificuldades financeiras. à preciso dizer que esse ano, o governo vai deixar de ganhar por conta de subvenções a empresas entre R$ 300 bilhões a R$ 400 bilhões. à renúncia fiscal para a indústria automobilÃstica ou agroindústria, por exemplo. Não digo que todas essas subvenções sejam ruins para o paÃs, mas é bom fazer um filtro. Será que estão atingindo os objetivos de reduzir o desemprego e fomentar a inovação? Me parece que esse seja o caso de uma maneira geral. Se conseguirmos reduzir essas subvenções em R$ 2 bilhões (muito pouco diante do total), já permitiria ao Ministério da Ciência e Tecnologia recompor a sua função.
[g1_quote author_name=”Luiz Davidovich” author_description=”Presidente da Academia Brasileira de Ciência” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]
Nossa ideia é resistir a essa polÃtica de desmonte da ciência nacional. Com o orçamento aprovado, poderemos saber se o Congresso realmente vai se preocupar com a questão do futuro do paÃs ou vai se deter em questões menores
[/g1_quote]Considera que deputados e senadores têm sido sensÃveis a esses apelos?
Davidovich – Vamos ter uma ideia quando o orçamento da União for debatido no Congresso. Estaremos nesse debate, nossa ideia é resistir a essa polÃtica de desmonte da ciência nacional. Com o orçamento aprovado poderemos saber se o Congresso realmente vai se preocupar com a questão do futuro do paÃs ou vai se deter em questões menores.
Como avalia a postura do ministro da Educação, Abraham Weintraub, que tem um conceito muito ruim da pesquisa cientÃfica no Brasil?
Davidovich – Ele precisa de um choque de realidade. Deveria visitar essas instituições. Ele ficaria perplexo, impressionado com o que vai encontrar. São laboratórios que ainda existem, fantásticos, que têm prestado grande serviço à sociedade brasileira. Quando a gente fala, por exemplo, do pré-sal, que atualmente é mais de 50% do petróleo produzido pelo paÃs, isso acontece graças à s universidades públicas brasileiras. Foi feita uma colaboração interdisciplinar, teve geólogos, geofÃsicos, matemáticos, engenheiros, fÃsicos, quÃmicos participando desse processo. Há poucos anos, as pessoas diziam que o pré-sal seria uma aventura, que não ia dar certo, que seria muito caro. Atualmente, o petróleo do pré-sal é mais barato que o extraÃdo de poços profundos, que é de má qualidade. à uma grande vitória da ciência brasileira. Quando a gente fala da produção de alimentos no Brasil, a ciência do paÃs teve papel fundamental nisso, aumentando a produtividade da soja e outras gramÃneas, com a Embrapa. Quando falamos dos aviões brasileiros, também está a ciência nacional. Tem muito mais coisas. Como companhias de cosméticos de projeção internacional que desenvolve seus produtos em colaboração com as universidades brasileiras. Tem uma empresas de compressores, a Embraco, em Santa Catarina, que é a maior do mundo. Foi fundada pelo pessoal da Engenharia Mecânica da UFSC, que continua a fornecer profissionais para essa empresa. O combate ao zika também foi feito pelas universidades públicas, basicamente. O ministro devia sair do seu gabinete e visitar essas instituições. Ver o que está acontecendo lá, ver o tanque oceânico da Coppe, na UFRJ, que deixou maravilhada uma delegação de chineses. à muita coisa que está sendo feita nas universidades, que conseguem resistir à crise. à fantástica a contribuição para o paÃs. Em vez de ficar elucubrando em seu gabinete, ele devia sair por aà e visitar as universidades.
O ministro parece ter um projeto de paÃs que é diferente deste.
Davidovich – Até pode ser, mas ele tem que explicitar qual é esse projeto. Faz parte da democracia discutir projetos para o paÃs. Mas só podemos discutir se eles forem explicitamente apresentados. Conheço o projeto que está sendo desenvolvido há mais de um século e que visa dar ao paÃs condições de se desenvolver industrialmente, aplicando ciência e tecnologia em várias áreas. Se há outra proposta, tem que ser colocado na mesa para que possamos debater.
O senhor acredita que a sociedade brasileira tem noção adequada da importância da ciência para vida do paÃs?
Davidovich – Pesquisas de opinião mostram que população brasileira considera que ciência é importante. Teve até uma pergunta que era a seguinte: você apoiaria o aumento do investimento em ciência, ainda que para isso fossem retirados recursos de outras áreas. A resposta é “sim”.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]96/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil
[/g1_quote]