O contato anterior da população da Amazônia com algum dos subtipos de coronavÃrus que circulam na região pode ser uma das hipóteses pelas quais, após atingir 25% de prevalência de infecção pelo SARS-CoV-2, algumas cidades da Região Norte do paÃs começaram a registrar queda no número de mortes por covid-19. A avaliação é do epidemiologista Cesar Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do Rio Grande do Sul, e um dos coordenadores da pesquisa EPICOVID-19-BR, que participou de debate online sobre o Brasil pós-pandemia da COVID-19, durante a Mini Reunião Anual Virtual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), marcada após encontro presencial ser cancelado.
âOs últimos estudos têm mostrado que já ter tido algum contato com algum coronavÃrus confere proteção ao SARS-CoV-2, que é uma mutação extremamente letal em comparação com outros coronavÃrus mais comunsâ, disse Victora. “Talvez isso explique por que a prevalência da infecção pelo novo coronavÃrus começou a cair depois de atingir 25% da população de cidades da regiãoâ, acrescentou.
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Veja o que já enviamosCoordenado pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel, o EPICOVID-19-BR é um dos maiores estudos epidemiológicos do mundo sobre a prevalência de infecção pelo novo coronavÃrus. De acordo com Victora, já na primeira fase da pesquisa, realizada entre os dias 14 e 21 de maio, seis cidades amazônicas â Manaus e Tefé, no Amazonas, Macapá, no Amapá, e Breves, Castanhal e Tefé, no Pará â despontavam como as de mais alta prevalência do SARS-CoV-2 no paÃs.
A segunda fase do estudo, que ocorreu entre os dias 4 e 7 de junho, apontou que, entre as 15 cidades com mais de 10% de prevalência, 12 estavam situadas ao longo do rio Amazonas. âFoi surpreendente que a epidemia de covid-19 no Brasil explodisse na Região Amazônica. Esperávamos que isso tivesse acontecido em São Paulo ou no Rio de Janeiroâ, disse.
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Uma das hipóteses, segundo Victora, é que o SARS-CoV-2 chegou à s cidades amazônicas pela rota asiática, vindo diretamente da China, enquanto nas cidades do Sudeste do paÃs o vÃrus chegou via Europa. No Estado do Amazonas há uma forte presença de indústrias chinesas na Zona Franca de Manaus. O trânsito de pessoas vindas do paÃs asiático â que foi o primeiro epicentro da doença â fez com que Manaus fosse a primeira cidade a registrar uma explosão de casos do novo coronavÃrus âIsso fez com que Manaus fosse mais fortemente impactada pela epidemia. São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Recife, onde o vÃrus chegou vindo de paÃses da Europa, como a Itália e Espanha, foram os segundos epicentros da doença e para onde turistas brasileiros viajaramâ, explicou Victora.
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O transporte fluvial na Amazônia, em barcos lotados, pode ter levado o vÃrus para cidades pequenas ao longo do rio, como Castanhal, no Pará, e Tefé, no Amazonas. âA possibilidade de que a transmissão tivesse ocorrido ao longo do rio Amazonas, tendo iniciado em Manaus, é a mais provávelâ, avaliou o pesquisador.
Interrupção do estudo
Os resultados do estudo também indicaram que a prevalência de anticorpos em indÃgenas é cinco vezes maior do que em brancos. Entre pardos, negros e mais pobres a prevalência é equivalente ao dobro da dos brancos. No caso dos indÃgenas, de acordo com o pesquisador, uma das razões para essa disparidade na comparação com os brancos são as condições de pobreza e moradia. Projeções indicaram que, mesmo se tivessem idênticas condições de moradia, renda e educação dos brancos, os indÃgenas ainda teriam duas vezes mais prevalência de anticorpos em comparação com esse grupo. “Isso sugere que pode haver algum outro fator responsável, como um componente genéticoâ, ponderou Victora.
Os pesquisadores da UFPel estão em busca de outras fontes de financiamento da pesquisa, feita com 90 mil pessoas, de 133 cidades de todas as regiões do paÃs, e interrompida pelo Ministério da Saúde, segundo Victora, por discordância em relação a alguns resultados. “A continuidade do estudo é vital para a compreensão da real magnitude da pandemia no Brasil e para responder uma série de perguntas, como por que a epidemia no paÃs começou em uma região quente e não fria e por que a prevalência não passa de 30%, entre outras questões”, apontou o pesquisador. âAinda há uma série de dúvidas para serem esclarecidas. Por isso é necessário investir mais e mais em ciênciaâ, avaliou.
A ideia dos pesquisadores é, quando tiver disponÃvel a vacina para o SARS-CoV-2, realizar um estudo, com o mesmo delineamento da EPICOVID-19, para monitorar a imunidade da população brasileira. âManter esse tipo de investigação trará grandes benefÃcios para a população brasileiraâ, afirmou Victora.
*Agência Fapesp
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