Sem recreio: histórias pelo Brasil de crianças que trocaram a escola pelo trabalho

De Norte a Sul do Brasil: histórias de crianças que trocaram o ensino pelo trabalho durante a pandemia (Ilustração: Pablito Aguiar)

Do Amapá ao Rio Grande do Sul, repórteres recolheram relatos de dezenas de meninos e meninas afastados do ensino durante a pandemia

Por Lição de Casa | ODS 3ODS 4 • Publicada em 22 de março de 2021 - 14:14 • Atualizada em 24 de março de 2021 - 09:38

Compartilhe

De Norte a Sul do Brasil: histórias de crianças que trocaram o ensino pelo trabalho durante a pandemia (Ilustração: Pablito Aguiar)

Repórteres do Lição de Casa encontraram casos de mais de 70 crianças e adolescentes em 20 cidades de todas as regiões do Brasil, que deixaram o ensino para trabalhar, que estavam sendo explorados, que não tinham acesso às aulas remotas ou que não deram conta de conciliar estudo e serviço. Essas são algumas histórias recolhidas de Norte a Sul do país.

No Amapá, trabalho na casa do patrão da mãe

“Já era meio difícil levar os estudos na escola, faltava bastante por causa dos problemas aqui de casa, e aí com a pandemia deixei de ir de vez”, contou a pequena Rafaela*, de 10 anos, à repórter Luiza Nobre. Moradora do bairro Infraero II em Macapá, ela não conseguiu conciliar trabalho e ensino remoto. Para não ficar sozinha, começou a acompanhar a mãe, diarista, nas tarefas domésticas nas casas dos patrões, e em pouco tempo, já estava varrendo, limpando e lavando a louça. Conta que executava as tarefas para não reclamarem da presença dela no local.

Com um único celular em casa, por onde acessa a internet, acompanhar as aulas foi um desafio não superado e Rafaela interrompeu o 2° ano do Fundamental em março de 2020. No trabalho com a mãe, a menina às vezes lava até banheiro e pátio. “Não sei se o que eu faço é trabalho”, falou. Cabisbaixa, Rafaela afirma que ainda não sabe ler bem. “Demorei pra entrar na escola, mas sempre tive vontade de estudar”. A criança admite que sente falta da professora, dos amigos e da merenda, mas não sabe quando vai poder voltar para a escola.

Venda de doces e espetinhos em Macapá

Miudinha e de cabelinhos compridos com mechas enroladas, Catarina* tem só 11 anos. O tamanho e o jeitinho de criança não condizem com a quantidade de tarefas que já assumiu. Com a escola fechada durante a pandemia, ela faz doces para vender, ajuda a cuidar da irmã de 7 anos e, à noite, trabalha no espetinho com a mãe, na entrada de uma ponte nas áreas alagadas em Macapá.

Todas essas obrigações competem com as aulas virtuais na parte da manhã pela tela quebrada do smartphone. Na casa dela, na parede sem reboco está o quadro com a foto da menina na formatura do ABC. Gosta de estudar, mas está se sentindo muito atarefada na pandemia.

“Mamãe não podia trabalhar, aí eu resolvi começar a vender bolo e cupcake aqui na ponte”, contou Catarina, que conseguiu juntar R$ 150 em um mês para as compras de casa. O dinheiro foi boa parte do sustento da família quando a mãe pegou covid trabalhando de faxineira informal. Ainda tem a renda do espetinho. Com um álcool gel em uma mão e um caderninho de anotações na outra, ela limpa mesas e atende os clientes. É assim do fim da tarde até meia noite, diariamente. A postura envergada denuncia o cansaço da pré-adolescente.

No interior do Amazonas, crianças nos garimpos e plantações

A partir dos 11 anos, as crianças da Comunidade Escapole, em Humaitá, no interior do Amazonas, seguem um caminho que se tornou muito comum nesse período de escolas fechadas: auxiliar os pais no cultivo e até mesmo no garimpo. Esta última é uma atividade ilegal mesmo para adultos, porém predominante no Rio Madeira e afluentes que banham o município. “Na pandemia, a maioria dos adolescentes foi com os pais. (Sem aulas), a prioridade foi para o trabalho”, disse a professora Renata Leite ao repórter Bruno Tadeu

A Escola Municipal Helena Sofia Chaves Rica, onde Renata dá aulas, está funcionando apenas com envio de apostilas. A unidade demonstra o estilo de vida dos moradores de lá. Tem estrutura de madeira, suspensa por estacas que separam o piso do solo alagadiço em tempos de cheia. Um quarto hospeda os professores que, antes da pandemia, viajavam por três horas do centro de Humaitá até a região de Escapole, para lecionar em dias específicos.

Crescimento entre catar latinhas e trabalhar em lanchonete no Distrito Federal

Hoje com 13 anos, Renato* cresceu acompanhando a avó paterna pelas ruas da Vila Estrutural, no Distrito Federal, catando latinhas. Eles vivem em uma das regiões administrativas mais marcadas pela discrepância socioeconômica na capital do país. A avó aposentou por idade, mas vive muito doente. Na pandemia, o menino começou a trabalhar em uma lanchonete. Estudar de forma remota era impraticável, pois ele não tinha equipamentos para as aulas virtuais nem auxílio nas atividades.

Eu via todos os meus amigos fazendo frete, aí eu fiquei com vontade de fazer também

Felipe*, 11 anos
Empurrador de carrinho de compras em feira de São Bento do Una

O menino tem muita dificuldade na escola. “A avó é analfabeta e a família passa necessidade. Nós sempre doamos cestas básicas e outras coisas para eles”, contou Giulia Bonfim, psicóloga do Coletivo da Cidade, organização fundada por estudantes da Universidade de Brasília. A mãe de Renato esteve presa, suspeita de tráfico de drogas, e o pai não é presente na criação do filho.

“Neste momento, as crianças estão mais sujeitas ao trabalho infantil, pois não há nenhuma opção de lazer na (vila) Estrutural”, disse Giulia à repórter Thais Rodrigues. Antes do coronavírus, crianças atendidas pelo Coletivo da Cidade faziam atividades e refeições no contraturno das aulas. Mas o principal serviço oferecido era de convivência e fortalecimento de vínculos, que se tornaram mais complicados agora.

Mendicância em frente a shopping no Maranhão

Os três irmãos João*, Maria* e José*, com 12, 13 e 14 anos, moradores de palafitas do Rio Anil, em São Luís, começaram, durante a pandemia, a pedir dinheiro nas imediações de um grande shopping na capital maranhense. A repórter Djuena Rikuna conta que, mesmo quando o governo estadual estabeleceu o lockdown, o trio estava nas ruas tentando uns trocados para comprar comida, enquanto a mãe se ocupava dos outros três filhos, de 2 a 5 anos de idade, em casa.

O Conselho Tutelar do município localizou os irmãos e visitou a família. Descobriram que eles não estavam acompanhando as aulas remotas da escola. Neste ano, passaram a receber apoio do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e saíram das ruas.

Venda de feijão nas ruas de Natal

Os pais de Carlos*, de 8 anos, e Júlia*, de 6 anos, se dividem entre trabalho informal na agricultura e coleta de lenha que vendem para fábricas de carvão. Eles moram em São Tomé, município rural a 120 km de Natal, no Rio Grande do Norte. Todo fim de ano, durante o período chuvoso, vão para a capital vender feijão verde. Em 2020, sem escola, as crianças foram junto e ficaram nas ruas oferecendo o alimento junto com os pais.

Eu faço os trabalhos, as atividades, mas assistir à aula mesmo, eu não consigo

Daniel*, 16 anos
Aluno do ensino médio e agora trabalhador em tempo integral em Belo Jardim (PE)

A mãe, de 27 anos, conseguiu ser aprovada para receber o auxílio emergencial, mas teve o benefício cortado sem justificativa no segundo mês de pagamento. A avó, que ajudava cuidando das crianças, contraiu covid-19. As atividades escolares remotas logo foram abandonadas, e os filhos foram para as saídas dos supermercados da capital potiguar.

“Eu não gosto de ter que trazer eles. Mas não tem com quem deixar, o que vou fazer?”, comentou a mãe com a repórter Mariana Ceci. Com quatro pessoas, a família se espalha pelas ruas e consegue vender mais. Nos períodos sem cliente, pedem dinheiro no sinal de trânsito. O menino fala da saudade das brincadeiras no recreio escolar e sente falta da avó que ficou em São Tomé. “Estou acostumado a ficar mais com os velhos”, disse.

Trabalho na feira no agreste de Pernambuco

Não é raro ver crianças e adolescentes fazendo serviço de “frete” na feira livre de São Bento do Una, no agreste pernambucano. Em fila, entre as barracas, sentados em seus carrinhos de mão, eles aguardam que alguém solicite para carregar os alimentos. Cobram entre R$ 3 e R$ 10 a depender da distância percorrida até a residência do cliente. A repórter Victória Alvares, do Lição de Casa, conheceu Bruno*, Felipe*, Rafael* e Vicente*, de idades entre 10 e 13 anos, trabalhando em tempos de pandemia.

Bruno*, de 13 anos, era um dos mais calmos e centrados. Começou a fazer frete durante a pandemia. Nunca havia trabalhado. Não acompanha as aulas e não tem contato com nenhum professor. Felipe*, de 11 anos, era o menor e mais magrinho do grupo. Não tem celular nem internet na casa dele. Usa o dinheiro que ganha na feira para jogar em uma lan house. “Eu via todos os meus amigos fazendo frete, aí eu fiquei com vontade de fazer também”. Ganhou a carroça da tia para trabalhar.

Rafael*, de 12 anos, o mais agitado, variava entre a carência e a raiva. Carregava sacola na feira desde os 10 anos. Diz que aos 6 já queria começar a trabalhar, mas a mãe não deixou por ele ser muito “fraco” ainda. Havia conseguido juntar R$ 15 naquele dia. “Toda vez, deixo R$ 10 guardado. O resto, dou R$ 20 a minha mãe e fico com R$ 5”, calculou, se confundindo todo.

Vicente*, de 10 anos, o mais novinho, estava ali, mas não tinha noção de dinheiro nem de tempo. Não sabia dizer desde quando trabalhava, nem mesmo há quantas horas estava na feira naquele dia. Ele estava satisfeito com o que tinha apurado até o momento: R$ 7, fora os R$ 8 que gastou mais cedo com um pastel, um enroladinho e um refrigerante.

Do ensino para o trabalho integral em Belo Jardim (PE)

Morador de Belo Jardim, no agreste pernambucano, Daniel*, de 16 anos, mergulhou de cabeça no mundo do trabalho desde o início da pandemia. Aluno do 1° ano do Ensino Médio, no curso Técnico em Agropecuária, passou a trabalhar de diversas formas quando as aulas foram suspensas. Já descarregou caminhão de fruta, fez limpeza de uma loja, atuou com entrega de moto, em frete de mudança e em construção civil.

No dia em que conversou com a reportagem, havia saído de casa às 7h e retornado às 19h. As rotinas foram ficando mais pesadas. “Quando sobrava coragem, eu ia trabalhar de noite”, contou a Victoria Alvares, do Lição de Casa. A família não o encoraja, mas também não o dissuade. “Pelo menos minhas coisas posso comprar, é uma despesa a menos”.

Meu pai me deu essa égua e eu ganho de R$400 a R$800 por semana

Kauã*, 11 anos
Carroceiro em aterro sanitário de Belo Horizonte

O adolescente sonha em poder ter sua própria criação de suínos. Antes da pandemia, ele acordava às 5h para colocar ração para os animais e limpar o local antes de ir para a escola, onde ficava até às 17h, pois era aluno do ensino integral. “Era uma rotina bem saudável”, lembra Daniel.

Apesar do retorno das aulas no modelo remoto, ele não estava estudando. “Eu faço os trabalhos, as atividades, mas assistir à aula mesmo, eu não consigo”. Além da dificuldade em se concentrar, Daniel não tem internet nem computador em casa. Conseguiu comprar um celular melhor com o dinheiro do trabalho e, quando precisa de wifi, pede ao vizinho. Como ele, mais da metade da turma está trabalhando e só pretende voltar de fato quando a escola for reaberta.

Delivery de sanduíches noite adentro no Recife

A mãe e a avó de Maia*, de 13 anos, pegaram coronavírus e ficaram sem trabalho. A avó morreu em maio com a doença. A aposentadoria dela era grande parte da renda da família. O pai ficou desempregado e voltou de Manaus, onde morava. Com a situação apertada para todos os lados, Maia viu a necessidade de fazer hambúrguer para vender e conseguir dinheiro. O movimento era maior na parte da noite, com isso, às 8h da manhã, não havia disposição para assistir às aulas por tela.

“Eu me esforçava ao máximo nos lanches e no outro dia ficava com muito sono”, disse a garota à repórter Joana Suarez. Chegava a vender até 15 hambúrgueres por noite, os quais ela mesmo entregava. Fazia também cachorro-quente, mas o que mais saía era o X-Tudo para adultos, a R$ 8, e os sanduíches simples para crianças, a R$ 3,50. Maia não faz ideia do dinheiro que entrava por mês, mas recebia R$ 50 da mãe para compras pessoais.

Tia, isso é doença de rico. Pobre não pega

Jonas*, 13 anos, sobre a covid-19
Vendedor de doces no Centro do Rio

Foi um ano difícil para a menina, que perdeu a avó com quem ela era muito apegada, mas não pôde viver o luto nem a própria adolescência – tampouco ser só estudante. Se sentiu responsável em ajudar a família em meio à crise, mas confessa que queria ter acompanhado as atividades escolares para entender mais dos assuntos. Percebeu a diferença de estar numa sala de aula interagindo e encontrando as respostas para as perguntas dos professores junto com os colegas. “Sozinha em casa é muito ruim”.

Maia passou para o 8º ano com apoio das amigas na execução das tarefas, mas não assistiu a nenhuma aula remota direito. “Pretendo voltar a estudar agora que minha mãe conseguiu emprego”, disse a menina no início de 2021.

Carroças no aterro sanitário em Belo Horizonte

Foi a partir de uma denúncia feita ao Disque Direitos Humanos que cinco conselheiros tutelares de Belo Horizonte chegaram até um aterro sanitário onde havia dois adolescentes e uma criança trabalhando como carroceiros, em 2020. “Meu pai me deu essa égua e eu ganho de R$400 a R$800 por semana”, contou Kauã*, de 11 anos, à repórter Luiza Muzzi.

Os conselheiros constataram que os adolescentes trabalham muitas horas por dia puxando carroças extremamente pesadas de entulhos. Além das abordagens de conscientização, a equipe tenta identificar o explorador daquela mão de obra, mas as limitações de locomoção durante a pandemia têm dificultado o trabalho. Quando estavam saindo da visita ao aterro, chegou um pai com um menino de 4 anos na carroça.

Trabalho de desinfecção em escola pública de Brasília: sem acesso ao ensino remoto, crianças de todo o país são empurrados para o trabalho (Foto: Evaristo Sá/AFP)

Com 13 anos, acidente de trabalho no Vale do Jequitinhonha

Com a escola fechada e a família precisando de renda, Antônio*, de 13 anos, arrumou “emprego” em um engenho de cana-de-açúcar nas proximidades de Teófilo Otoni, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Como se não bastassem as rotinas exaustivas e as condições inadequadas de trabalho, o adolescente ainda sofreu um grave acidente, em dezembro, enquanto operava uma máquina. O resultado: teve uma das mãos amputadas.

Após a tragédia, a mãe do garoto denunciou o caso e o Ministério Público do Trabalho (MPT) conseguiu intervir. Uma operação foi realizada pela Fiscalização do Trabalho, em conjunto com o MPT, já que havia a suspeita de outras crianças no local, bem como mais trabalhadores sendo submetidos a ilegalidades.

Na operação, os fiscais constataram que o estabelecimento era informal e funcionários atuavam sem carteira de trabalho assinada, operando maquinários sem os devidos equipamentos de proteção individual (EPIs).

“Essas proteções, ainda que existam, não vão servir para os corpos de crianças e adolescentes”, frisa a procuradora Luciana Coutinho, do MPT-MG, em entrevista a Luiza Muzzi. Ela explica que o estabelecimento se valeu de forma ilegal da mão de obra desse adolescente. “Ele não poderia trabalhar ali de forma alguma”. O órgão atua em busca das devidas indenizações e responsabilização da conduta da empresa.

Olheiro do tráfico na capital mineira

Bom aluno, Júlio*, de 12 anos, cursava o 6º ano do Ensino Fundamental até a pandemia começar. Ele perdeu o vínculo escolar por dificuldade de acesso ao ensino remoto e passou a estar mais tempo nas ruas da favela da Serra, em Belo Horizonte. A mãe, auxiliar de serviços gerais, e o pai, pedreiro, não conseguiram trabalhar em um período crítico da quarentena, se sustentaram com o auxílio emergencial. O tráfico de drogas na comunidade acabou recrutando Júlio para olheiro em junho do ano passado.

“Ele era induzido a querer conquistar pequenas coisas que não estavam mais ao alcance dele. São muitos meses de falta de escola, de trabalho, de acesso…”, narrou a conselheira tutelar Juliana Celestino à repórter Joana Suarez, que ficou sabendo do caso por ser moradora e ex-educadora social do Aglomerado da Serra.

Juliana se sente impotente em relação ao tráfico, sem conseguir intervir por esses adolescentes, pois não teria como comprar briga com “gente grande”. A ausência de políticas públicas efetivas nesses espaços faz com que ela acredite mais em Deus e na sociedade para mudar as histórias infanto-juvenis. “É de cortar o coração”.

Caixas de doces no Centro do Rio

Quem passa pela esquina da avenida Rio Branco com a avenida Nilo Peçanha, no Centro do Rio de Janeiro, provavelmente vai encontrar os amigos Caio*, de 16 anos, e Jonas*, de 13. Eles vendem doces por lá há três anos. Mas o bico, que acontecia depois do horário das aulas, passou a ser feito em tempo integral com o fechamento dos colégios. Caio, que já repetiu de ano três vezes, parou no 5º ano do Ensino Fundamental. Jonas estava no 6º.

Os meninos negros saem da favela Parque das Missões, na Baixada Fluminense, e percorrem cerca de 20 quilômetros de ônibus para trabalhar na área central. Jonas conta que vende até R$ 100 por semana em caixas de chocolates, enquanto Caio afirma que consegue R$ 300. Mas os clientes reduziram na pandemia (em 2017, censo da prefeitura do Rio apontava mais de 500 crianças vendendo ou pedindo esmolas nos bares.)

Para ambos, o dinheiro complementa a renda em casa. Jonas é o mais novo de quatro irmãos, um deles preso. A mãe abandonou a família e o pai, auxiliar de serviços gerais, não se opõe ao menino trabalhar. Já Caio tem uma irmã mais velha e a mãe trabalha o dia todo em uma creche. Para almoçar, eles também contam com a ajuda das pessoas que passam nas ruas. Nenhum dos dois usava máscara, nem se preocupava com o coronavírus. “Tia, isso é doença de rico. Pobre não pega”, disse Jonas à repórter Bibiana Maia.

Enquanto a reportagem os entrevistava, quatro policiais se aproximaram para questionar o que estava se passando, pois buscavam uma dupla que havia praticado um furto. “Isso é normal. Eles levam a gente para a delegacia. Eu já fui parar em um abrigo três vezes”, esclareceu Caio após a saída dos militares.

Uniformizada na oficina em São Paulo

Vestida com o uniforme da oficina mecânica do pai, Tatiana*, de 15 anos, passava o dia suja de graxa, limpando o chão e as ferramentas. Com as aulas suspensas pela pandemia, a adolescente passou a acompanhar o pai ao trabalho na zona norte de São Paulo. Tatiana também atendia o telefone e organizava a agenda. Ao fim do horário comercial, retornava para a casa da avó, com quem mora. Quinzenalmente, a garota recebia R$ 400 pelo serviço prestado ao pai.

Após uma denúncia anônima recebida pela Ouvidoria do Tribunal Superior do Trabalho em setembro de 2020, um conselheiro tutelar visitou a oficina e, em seu relatório, concluiu que a situação não oferecia riscos à menor. O Ministério Público do Trabalho (MPT) rejeitou a conclusão devido à insalubridade do ambiente, onde há maquinário e ferramentas expostas, reafirmando que a prática configura trabalho precoce.

Ela faz atividades que são inerentes ao negócio, “e o fato de o pai dizer que ela fica lá apenas por não poder ir à escola não elimina a caracterização de trabalho infantil”, explicou Rafael Marques, procurador que conduziu o inquérito, à repórter Laís Martins. Segundo ele, outros dados que reforçam a prática são a remuneração e a habitualidade – já que a menina vai à oficina todos os dias.

Primeiramente, o MPT tenta com que o pai se comprometa a não levar mais a filha para a oficina assinando um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). “Não podemos abordar com um viés somente repressivo, porque isso não vai resolver a situação”, esclarece Marques.

Mais horas na lavoura gaúcha

Já faz tempo que André*, de 14 anos, ajuda o pai na lavoura em Barra do Ribeiro, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Com as aulas presenciais interrompidas pela pandemia, no entanto, a carga de trabalho do menino aumentou. Trabalha na roça com o pai e ainda começou a pegar serviço com os vizinhos. As mãos machucadas dos afazeres do campo revelam a dedicação intensa na lida. Mas o que não dá para perceber é para onde está indo o dinheiro de tanto trabalho. André anda maltrapilho e frequentemente pede ajuda para uma família de professores.

Além de roupas e calçados, os educadores também o auxiliam nas questões da escola. Foram eles que narraram a situação de André à repórter Emilene Lopes. O cotidiano atarefado do garoto no campo não permitiu que ele acompanhasse as aulas online, mas tentou realizar algumas atividades para não passar o ano letivo em branco.

O esforço de André em não abandonar totalmente a escola também pode ter relação com a vontade de se afastar de um lar tumultuado, onde atualmente vive com o pai e a madrasta, mas que já foi palco de muitas brigas. Na época, até o Conselho Tutelar foi chamado para fiscalizar a situação e proteger o garoto.

Pastelzinho na praça de São Borja (RS)

Quem passava pelo centro de São Borja, no Rio Grande do Sul, no final de 2020, poderia ser abordado por dois meninos com caixas térmicas cheias de salgado: “Vai um pastelzinho?”. Com a escola fechada, os irmãos Vinícius* e Ricardo*, ambos de 10 anos (nasceram no mesmo ano), vendiam os pastéis feitos pela mãe na frente de supermercados e para quem atravessasse a praça XV de Novembro. Algumas vezes, mais um membro da família se juntava: Luís, de 5 anos, ainda chupando bico.

A pandemia afetou a renda da família. O pai, que trabalhava em obras, viu o serviço diminuir, e a mãe teve que aumentar o ritmo de produção dos lanches para conseguir o básico à família. O casal tem oito filhos, cinco meninos e três meninas. Aqueles que não estão vendendo os salgados auxiliam o pai na construção de um anexo ao lado da casa. O sonho da família é ter uma lancheria.

Sem o auxílio emergencial, o dinheiro não seria suficiente para se sustentarem e manterem a construção. Por isso, Vinícius e Ricardo passavam as tardes vendendo pastéis. Depois de um tempo, cada um ganhou uma carteira para guardar uma porção do dinheiro que recebia. Vinícius não se separava da sua e acumulava para gastar no bolicho (pequeno comércio) perto do assentamento onde moram. Quando tinham tempo, respondiam as folhinhas escolares que pegavam com os professores.

A repórter Larissa Bouchard relata que denúncias chegaram ao Programa de Erradicação de Trabalho Infantil (Peti) e a família recebeu visitas de assistentes sociais. Primeiro, foi orientada para que pelo menos um dos pais acompanhasse as vendas até que eles conseguissem se organizar e tirar os meninos da rua. Depois, um funcionário do Ministério Público do Trabalho os advertiu sobre a atividade. Desde então, os meninos ficam em casa e a família segue em dificuldade.

*Nomes fictícios para proteger as crianças

**Esta série de reportagens foi financiada pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social.  

Lição de Casa

Lição de Casa é um projeto de investigação jornalística [colaborativo e nacional] para acompanhar os impactos da pandemia do Coronavírus na educação brasileira. São 15 jornalistas em 10 Estados brasileiros. O site http://licaodecasa.org/ foi lançado dia 15 de setembro, após seis meses de isolamento social.

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Um comentário em “Sem recreio: histórias pelo Brasil de crianças que trocaram a escola pelo trabalho

  1. Cauã Alves disse:

    É simplesmente horrível, é difícil até imaginar as estatísticas reais. Acredito que as crianças devam ter anos escolares despreocupados, passear, se divertir depois da escola com os amigos, fazer os deveres de casa, sua infância e adolescência devem passar sem dificuldades nas questões econômicas da família e sem procurar trabalho na 6ª-7ª série. Quanto à questão de adolescência, então no meu perfil colocarei um link útil onde você pode aprender muitos materiais de informação sobre este tópico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sair da versão mobile