Debate americano é melhor?

O primeiro enfrentamento entre Hillary e Trump, em 26 de setembro, foi assistido por cerca de 84 milhões de pessoas. Foto Paul J. Richard/AFP

Do palco ao bar, um breve guia sobre os confrontos entre candidatos na terra do Tio Sam

Por Bárbara Marcolini | ODS 4 • Publicada em 28 de outubro de 2016 - 08:30 • Atualizada em 28 de outubro de 2016 - 11:25

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O primeiro enfrentamento entre Hillary e Trump, em 26 de setembro, foi assistido por cerca de 84 milhões de pessoas. Foto Paul J. Richard/AFP
O primeiro enfrentamento entre Hillary e Trump, em 26 de setembro, foi assistido por cerca de 84 milhões de pessoas. Foto Paul J. Richard/AFP

Nova York – Foram horas de martírio para os eleitores americanos. Os quatro debates – três entre candidatos a presidente, um a vice-presidente – mostraram o pior dessas eleições. Se as trocas de ofensas e misoginia no palco fizeram de cada evento um sofrimento, ao menos os debates ajudam a entender um pouco sobre a política na terra do Tio Sam.

Ao privilegiar a grande mídia, alguns temas ficam de fora. Nos quatro debates realizados nessas eleições, não foi feita uma pergunta sequer sobre aquecimento global, como lembrou um artigo de opinião publicado no New York Times.

Os debates presidenciais aqui são regulados por uma comissão independente. É a Commission on Presidential Debates (CPD) que escolhe os locais, os mediadores e as regras do jogo. Não existe, como no Brasil, uma lei que determine como devem ser os eventos. A CPD foi criada em 1987 pelos presidentes dos partidos Democrata e Republicano, mas desde então é formada por pessoas sem filiações partidárias. Isso não impede que a comissão seja acusada, como diz Donald Trump, de fraude.

Uma série de petições e campanhas foram realizadas para tirar poder da comissão, sob a acusação de que seus membros trabalham para manter a hegemonia de Democratas e Republicanos. Com as regras estabelecidas pela CPD, só participam dos debates candidatos que tenham no mínimo 15% das intenções de voto. Isso exclui os partidos menores, que têm uma desvantagem colossal no embate contra os dois principais partidos.

De acordo com as pesquisas usadas pela CPD, Gary Johnson, candidato à presidência pelo partido Libertário, tem em média 8,4% das intenções de voto, e Jill Stein, do partido Verde, 3.2%. Se a mesma regra fosse aplicada no primeiro turno do Rio, por exemplo, Crivella debateria consigo mesmo. Em São Paulo, apenas Doria, Russomano e Marta seriam convidados.

Se as regras americanas fossem aplicadas no primeiro turno do Rio, Crivella debateria consigo mesmo. Foto Yosuyoshi Chiba

A organização também é criticada por determinar que só podem ser mediadores jornalistas com extensa experiência em transmissões televisivas ao vivo. Ao privilegiar a grande mídia, alguns temas ficam de fora. Nos quatro debates realizados nessas eleições, não foi feita uma pergunta sequer sobre aquecimento global, como lembrou um artigo de opinião publicado no New York Times.

Mas a organização também tem seus pontos positivos. Ao contrário do Brasil, onde cada debate é transmitido por uma rede de TV diferente, aqui todos os canais credenciados pela Casa Branca têm o direito de transmissão. O primeiro enfrentamento entre Hillary e Trump, em 26 de setembro, foi assistido por cerca de 84 milhões de pessoas. Foi a maior audiência na história dos debates americanos, de acordo com a Nielsen.

Os debates geralmente são sediados por universidades, que enviam suas propostas para a CPD com quase dois anos de antecedência. Segundo a comissão, isso estimula a participação de estudantes, que normalmente trabalham na organização dos eventos. As datas e os locais são divulgados um ano antes das eleições.

Finalmente, quando as luzes acendem e a discussão começa, pouco muda entre brasileiros e americanos. Quem está perdendo ataca, quem está na frente defende, e cabe ao moderador cronometrar as falas e acalmar os ânimos. A vida pessoal dos candidatos costuma entrar mais em discussão do que no Brasil, onde religião e relações familiares costumavam ficar de fora – algo que vem mudando, como mostra a eleição carioca.

Se os bastidores são polêmicos e as discussões um martírio, pelo menos os americanos encontram um jeito de se divertir. Há quem saia mais cedo do trabalho para acompanhar os preparativos, os bares organizam festas e rodadas especiais, e amigos aproveitam o pretexto para jogar os famosos “drinking games”. A brincadeira é simples: cada participante escolhe uma lista de palavras ou expressões. A cada vez que uma delas for dita durante o debate, toma-se uma dose. Pode ser uma boa ideia para o embate de hoje à noite entre os Marcelos.

Bárbara Marcolini

Jornalista, mora em Nova York, trabalha com mídias sociais e faz mestrado em Jornalismo Empreendedor na CUNY. Cobre Economia, Direitos Humanos e América Latina para veículos internacionais. Trabalhou no jornal O Globo.

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