Em um auditório de uma Escola de Negócios da cidade de Vienne (França), trinta fÃsicos acompanhavam, na quarta-feira 13, o argelino Adlène Hicheur relatar seu trabalho sobre as propriedades da partÃcula subatômica Bc meson. O que era para ser um evento cientÃfico se transformou em uma despedida. O cientista, que foi âdeportadoâ do Brasil em julho, voltou para a Argélia no domingo após cinco meses de prisão domiciliar na França. Ele desembarcou em Sétif, no Nordeste da Argélia, onde nasceu há 40 anos e onde vivem seus familiares.
[g1_quote author_name=”Adlène Hicheur ” author_description=”FÃsico argelino” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Levaram algumas horas para destruir minha vida. Mas demora uma eternidade para eu conseguir recuperar meus direitos.
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Veja o que já enviamosA maior parte da audiência era de pesquisadores do LHC (Grande Colisor de Hádrons, o maior acelerador de partÃculas do mundo) do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), localizado entre a SuÃça e a França. Outros 15 cientistas acompanhavam o Worshop âFÃsica do Bc e decaimentos semileptônicos do B na era do LHCâ por vÃdeo, do Rio de Janeiro (em uma sala do Centro Brasileiro de Pesquisas FÃsicas), dos Estados Unidos e da China.
Durante a prisão domiciliar, Adlène Hicheur não conseguia sair de Vienne para participar de nenhum evento internacional de FÃsica. Por isso, o worshop foi até ele em uma ação que mesclou ciência e solidariedade. âOrganizamos este workshop para dar apoio a Adlèneâ, explicou o italiano Vincenzo Vagnoni, coordenador de FÃsica do experimento LHCb e pesquisador do Instituto Nacional de FÃsica Nuclear (Bolonha), como reportou o jornalista Declan Butler, da Nature, a revista cientÃfica mais prestigiada do mundo.
De tarde, naquela quarta-feira, os fÃsicos fizeram um intervalo forçado: Hicheur foi à polÃcia para assinar um livro de presença. Durante cinco meses Hicheur percorreu 12 km de bicicleta diariamente, de sua casa até a delegacia de Vienne, três vezes por dia. Um castigo ao qual muitos outros muçulmanos estão submetidos como consequência do Estado de Emergência no paÃs. Naquela quarta, todos os cientistas o acompanharam, para surpresa dos policiais. O pesquisador argelino foi condenado na França, em 2012, por associação com terrorismo com base em chats na internet. O julgamento foi polêmico, criticado por cientistas que apontaram evidências fracas para a condenação. Ele foi imediatamente libertado, sem dever mais nada à Justiça.
[g1_quote author_name=”John Ellis” author_description=”Cientista britânico” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O novo governo do Brasil, que sabemos passar por muita turbulência polÃtica, o expulsou de forma totalmente ilegal. O Brasil o forçou a voltar à França embora ele desejasse ir para a Argélia.
[/g1_quote]Hicheur vivia no Brasil desde 2013: trabalhou como pesquisador no Centro Brasileiro de Pesquisas FÃsicas (CBPF) e como professor do Instituto de FÃsica da UFRJ. No dia 15 de julho deste ano foi obrigado pelo governo brasileiro a voltar para a França. A âdeportaçãoâ, à s vésperas das OlimpÃadas, partiu de uma ordem do ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, sem que Hicheur tivesse cometido nenhum ato irregular e sem direito à defesa. Ele não teve o direito, sequer, de escolher seu destino, como acontece nas deportações: sua intenção era ir para a Argélia, mas foi ignorado.
Ronald Shellard, diretor do CBPF, foi um dos brasileiros que participou por vÃdeo do workshop de Vienne: âEspero que o Brasil, como um paÃs democrático, reverta essa decisão e possibilite a sua volta para que Hicheur possa trabalhar aqui novamenteâ. Shellard disse que conversou com o ministro da Ciência, Gilberto Kassab. âO ministro manifestou interesse no casoâ, contou.
Em outubro, ele pediu para perder a nacionalidade francesa, adquirida aos 23 anos de idade (seus pais o trouxeram para a França quando ele tinha 1 ano de idade). A aceitação foi comunicada a ele no dia 30 de novembro e a partir daà ele passou a arrumar suas coisas para deixar a França e voltar para a Argélia. Foi a única solução que ele encontrou para o problema da prisão domiciliar, que se baseou na âdeportaçãoâ brasileira e se transformou em uma espiral kafkiana.
âA França usou a deportação para me prejudicar e para me manter em prisão domiciliar sem nenhuma razãoâ, protestou o cientista. Essa atitude do ministro da Justiça do Brasil teve consequências gravÃssimasâ, protestou. âUma coisa é não ser bem-vindo, outra é destruir a vida de uma pessoa. Não houve nenhuma consideração pelo meu trabalho árduo no paÃsâ, lamentou. Na época da âdeportaçãoâ o ministro admitiu à imprensa que o cientista não havia cometido nenhum crime.
Em meados de outubro o fÃsico enviou à embaixada brasileira em Paris uma carta solicitando ao governo brasileiro que reconhecesse oficialmente que ele não cometera nenhum erro no paÃs. âA embaixada me informou que a carta foi enviada para BrasÃliaâ, disse ele. A reportagem do #Colabora telefonou e enviou um email para a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, mas não obteve resposta.
âO novo governo do Brasil, que sabemos passar por muita turbulência polÃtica, o expulsou de forma totalmente ilegal. O Brasil o forçou a voltar à França embora ele desejasse ir para a Argéliaâ, criticou o britânico John Ellis, um dos maiores fÃsicos teóricos do mundo, do Kingâs College London. âEspero que o governo ou a Justiça brasileira reconheça o erro cometido no caso de Adlène e o deixe entrar de novo no paÃs. Mas sabemos que no Brasil temos um novo governo de direita que quer mostrar sua postura dura contra o terrorismo e toda essa besteira usualâ, opinou Ellis.
A perda da nacionalidade francesa e a mudança para a Argélia lhe custará um preço alto porque lá será difÃcil para ele trabalhar em um grupo de FÃsica de Altas Energias como poderia fazer na Europa ou na América Latina. Hicheur havia sido convidado para o Simpósio Latino-americano de FÃsica de Altas Energias, na Guatemala, em novembro, mas como estava em prisão domiciliar na França não pode comparecer. Os organizadores não se conformaram e conseguiram que ele desse a sua palestra por vÃdeo-conferência, no dia 17 de novembro, antecedida por uma declaração pública de apoio de John Ellis.
Em uma entrevista por skype antes da exposição de Hicheur, John Ellis explicou seu empenho em favor do argelino: âA Ciência é internacional. A PolÃtica não deve interferir. Estou extremamente triste pelo fato de que a polÃtica impediu Adlène de participar da conferênciaâ. A prisão domiciliar na França durante estes últimos cinco meses foi polÃtica, na opinião do fÃsico britânico.
âAdlène foi particularmente atingido porque trabalha com fÃsica de partÃculas e algumas pessoas pensam que é como fÃsica nuclear, acham perigoso. Isso é uma besteira. FÃsica de particulas procura entender a natureza fundamental do universo, não está interessada em aplicações militares. Este não é o caso do Adlène. Ele não é perigoso.  A França errou, o manteve preso e depois realizou um julgamento sem sentido. Adlène já pagou o preço que o governo francês queria que ele pagasse. E o puniram novamente colocando-o em prisão domiciliar por um crime não cometidoâ, disse Ellis.
Segundo o advogado de Hicheur no Brasil, Gustavo Berner, a âdeportaçãoâ não respeitou os procedimentos administrativos ou judiciais previstos em lei. Em novembro foi protocolado processo administrativo no Ministério da Justiça para obter a documentação sobre o caso. Até agora, a defesa de Hicheur não obteve resposta. Será proposta ação judicial para anular os atos administrativos que impulsionaram a retirada forçada do professor do Brasil. O objetivo é garantir o seu direito de retornar, caso queira, para dar continuidade ao seu trabalho.
O advogado explicou que foram expedidas certidões de ânada constaâ a respeito de Hicheur: não há em trâmite na Justiça brasileira qualquer ação de natureza cÃvel ou criminal.  âLevaram algumas horas para destruir minha vida. Mas demora uma eternidade para eu conseguir recuperar meus direitosâ, lamentou o fÃsico argelino.
