São Borja (RS) – Morando no campo desde que nasceu e há 14 anos como alfabetizadora, o maior medo de Simone Stefanello, 44, não é a pandemia, mas o fechamento das escolas rurais. A professora compõe o quadro docente de uma das mais de 500 escolas rurais do Rio Grande do Sul, que enfrentam problemas como a falta de sinal de internet, a ameaça de fechamento e o difÃcil acesso à s comunidades.
Simone dá aulas na Escola Estadual Piratini, na área rural de Bossoroca (municÃpio no oeste gaúcho, a quase 400 km de Porto Alegre, para alunos do 1º e 2º anos do Ensino Fundamental. A turma multisseriada tem seis integrantes. A quantidade pequena de estudantes nas escolas rurais é algo comum, já que cada vez há menos famÃlias e jovens no campo. E é justamente por causa desses números que a gestão das escolas sofre pressão e luta para manter as portas abertas.
No perÃodo de 2015 a 2019, 68 escolas estaduais rurais foram fechadas no Rio Grande do Sul, segundo o Censo de Educação Básica de 2019. São 68 comunidades que perderam qualidade de vida e a oportunidade de ter acesso a um ensino pautado no território para crianças e adolescentes não urbanos brasileiros.
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Veja o que já enviamosPara a professora Simone, o fechamento de uma escola na comunidade representa a perda de um local de encontro entre vizinhos que moram distantes e jovens que só têm aquele momento para encontrar os amigos. à um espaço de aprendizado e também de socialização. âEstamos sempre com o coração angustiado porque a pergunta que a gente mais faz entre as trocas de governos é: será que vão querer fechar a escola?â. E a covid-19 piorou esse sentimento.
Olho na tela
Simone se lembra da primeira formação de professores para o ensino remoto, depois da suspensão das aulas por causa da pandemia do coronavÃrus. Acordou à s 4h da manhã, juntou o notebook, os cadernos e seguiu de carro pela estrada de chão da Esquina do IvaÃ, localidade rural do municÃpio de Bossoroca. Subiu o trajeto até encontrar o ponto mais alto que pudesse ter sinal de internet no celular.
Ali, no meio de uma lavoura de soja, ela permaneceu por mais de duas horas para conseguir fazer o curso fornecido pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc/RS). Não são só os alunos que precisam buscar sinal de conexão para manter algum contato com a escola, mas também os professores do campo brasileiro. Depois desse dia, ela decidiu investir em melhorar a internet onde mora, mesmo sabendo que seria mais caro por estar no interior.
A dinâmica encontrada pelos educadores da zona rural para conseguir manter a educação dos estudantes foi a de muitas escolas isoladas pelo paÃs: levar o material impresso para as famÃlias. No próprio carro ou no transporte escolar do municÃpio, os profissionais marcam um ponto para o recolhimento das atividades realizadas e a entrega de novas.
Na turma de seis alunos, Simone tem que passar atividades que contemplem os dois anos para os quais leciona. âQuando eu digo que tenho seis alunos, a primeira coisa que passa na cabeça das pessoas é âBah é uma profe privilegiadaââ, comenta. Mas dar aula para alunos em anos diferentes em uma mesma turma é mais difÃcil. Em um mesmo perÃodo de tempo, ela precisa contemplar uma quantidade igual de aulas para os dois grupos.
Agora, sem o acompanhamento olho no olho, a professora se vê sobrecarregada. Planejar as atividades, preencher a planilha das turmas, comprovar o que está fazendo, conversar com as famÃlias e tirar dúvidas. Mas o esforço vai além de cumprir o papel de educadora. Para ela, a escola no campo é vida.
Mais do que uma escola
Cada uma em sua casa, Nadine Floriano, 11 anos, e Sara Helen Fagundes, de 13, só veem os pais e os irmãos. O vizinho mais próximo de Sara fica a 1 km de distância. Desde que a pandemia teve inÃcio, não viu mais os colegas e a rotina se tornou ajudar a mãe, Adriana Lencina, 38, com os cuidados da casa e dos animais. Nadine também acabou por passar mais tempo com as ovelhas do que estudando.
Os sÃtios das duas famÃlias ficam em Banhado Grande, na zona rural de São Borja, municÃpio que faz divisa com a Argentina. Quem é do interior sabe que o acesso à s propriedades rurais é difÃcil. Separadas por lavouras, mato e pastagem, à s vezes é preciso pedalar quilômetros para encontrar alguma casa ou galpão.
Para ir à Escola Municipal de Ensino Fundamental IvaÃ, Sara, estudante do 8º ano, e Nadine, do 5º, precisavam pegar o ônibus na estrada principal da região. Se chovia, o transporte escolar atolava ou nem conseguia chegar. Por isso, muitas vezes, nem iam à aula.
A escola, para além de local de ensino, era um dos poucos lugares onde poderiam se encontrar. Também era lá o ponto de encontro das famÃlias, de festas e reuniões. Com a pandemia, toda a comunidade de Banhado Grande só se vê entre cruzadas, quando um ou outro vai para a cidade e acabam se esbarrando pelo caminho.
Fora as aulas online, as famÃlias de Banhado Grande recebem os materiais impressos que vêm no transporte escolar ou no carro da prefeitura de São Borja, uma vez por semana. Quando a bandeira da região está vermelha â de acordo com o Mapa de Distanciamento Controlado para Prevenção da Covid-19 no Rio Grande do Sul â, a entrega das tarefas chega a demorar mais de 15 dias.
Em casa, Sara cuida das ovelhas, dá comida para as galinhas e tira leite das vacas. Apesar de não ter problemas para fazer as lições, ela sente saudade dos colegas, de jogar futebol e de ver os professores. âA gente sempre se ajudava muito e estudava tudo juntoâ, lembra.
Atividades em branco
Ao contrário de Sara Helen, Nadine sente dificuldades na hora de realizar as atividades, principalmente as de Matemática. A mãe, Camila dos Santos, 29, tenta ajudar perguntando para os professores no WhatsApp ou pesquisando no Google. Quando não consegue, espera pelo dia da chegada dos materiais para conversar com a professora pessoalmente, ou entrega as atividades em branco.
A preocupação maior de Camila é a dificuldade da filha em seguir nos estudos e conseguir aprender as matérias. A mãe conta que Nadine tem conteúdos novos que nunca viu em sala de aula e que, pelo ensino remoto, se tornam mais difÃceis. âEu era a favor de anular tudo e começar um ano novo. Ela passou para o 6º ano, mas vai com dificuldades, e assim vai indoâ, admite a mãe Camila, que tem outros dois filhos, Jorge, de 6 anos, e Maria, de 4.
A caçula tem SÃndrome de Down e exige mais atenção. Jorge recebe do Albergue Criança Feliz (creche de São Borja) folhinhas com atividades em números, letras e desenhos. Enquanto o marido trabalha, Camila criou horários para os filhos fazerem as atividades e brincarem e, dessa forma, ela dar conta da rotina. Nadine é quem ajuda a mãe com os cuidados do irmão e dos animais.
Diferente do pequeno Jorge, que está agitado pela falta das aulas, a mais novinha, Maria, é calma. Ela está matriculada na Escola Municipal Quero-Quero, em São Borja, e a mãe consegue conversar com os professores e outros pais em um grupo do Whatsapp. Mais uma mãe no paÃs em pandemia que há meses precisa se dividir entre casa, filhos, telas, professores, atividades e grupos virtuais. E, no fim, nada substitui o tempo que tinham na escola.
Ler, escrever e ter acesso à cultura são instrumentos fundamentais para uma vida em sociedade, mas que não são garantidos para as populações do campo, como explica Guilherme Gonzaga, professor do curso de Educação do Campo, na Universidade Federal do Pampa (Unipampa). âPara mim não é uma questão de número. Independentemente de onde um estudante mora, ele tem direito à escolaâ, defende Guilherme.
Escolas distantes das comunidades, falta de transporte, de sinal, problemas na infraestrutura e carência de polÃticas públicas voltadas para as famÃlias do campo não atingem apenas as crianças e os adolescentes, mas os adultos também. De acordo com Guilherme, muitos adultos do campo têm pouca formação e precisam das escolas.
Agora, nesse novo normal da Covid-19, muitos pais sentem dificuldade na hora de ajudar, sozinhos, os filhos nas atividades. O momento que recebem apoio é com a chegada dos professores para entrega de material ou quando um dos familiares vai para a cidade e consegue sinal de internet.
Mas isso pode ocorrer uma vez por semana ou por mês. Sem a escola, a Educação não é um direito pleno no campo
