Já era de se imaginar que a aplicação do ENEM, durante uma pandemia que já dura quase um ano, fosse questionada e vista por muitos estudantes como um risco à saúde. De fato, todo o processo de realização da prova aconteceu sob disputa judicial em alguns estados da federação e o número de abstenções ultrapassou a margem de 50% de participantes inscritos. Apesar das altas taxas de transmissão de coronavÃrus, as provas foram mantidas pelo MEC em todo o paÃs, exceto no estado do Amazonas, cuja capital chegou a registrar 198 sepultamentos na quarta-feira passada.
Não muito diferente do que apontam as notÃcias, a minha realidade ao realizar a prova foi muito similar a de outros estudantes: houve apreensão no momento da prova, falta de ar provocada pelo uso da máscara ao longo de cinco horas ininterruptas de duração e um número expressivo de pessoas que, por variadas razões, desistiram ou foram impossibilitadas de adentrar os locais de prova.
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Veja o que já enviamosPor outro lado muito positivo, assim que cheguei à Escola Estadual Professor Soares Ferreira, em Mariana (MG), onde realizei o exame, não observei aglomerações no interior da instituição. Diferente de outras cidades no Brasil onde focos de aglomerações foram registrados e divulgados em redes sociais durante o dia. Na minha sala, por exemplo, havia 20 carteiras dispostas em quatro filas, mas apenas 13 pessoas marcaram presença. Acredito que esse número possa diminuir ainda mais no próximo domingo, quando serão realizadas as provas de ciências exatas e naturais. Ao longo dos corredores, o distanciamento de um metro estava sendo respeitado e havia faixas no chão indicando a distância correta a ser seguida. Nos banheiros, apenas era permitida a entrada reduzida de pessoas e havia água e sabão lÃquido disponibilizados sobre a pia. Talvez, no mesmo ambiente, fosse necessária a disposição de álcool em gel para um cuidado mais efetivo contra o coronavÃrus. No entanto, em vários outros pontos do colégio, inclusive na entrada das salas de aula, era possÃvel encontrar gel antisséptico para uso.
[g1_quote author_name=”Carlos Augusto Júnior” author_description=”Estudante de Jornalismo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Mas, de fato, essa edição nos deixou uma grande certeza: está sendo o exame mais desigual de toda a história. Quem teve saúde, mÃnimas condições psicológicas, acesso à educação de qualidade e preparo durante todo o ano assolado pela pandemia, conseguiu realizá-lo. Porém, quem não teve nada disso, permaneceu em casa, com a esperança de um dia chegar à universidade com vida.
[/g1_quote]Todo o procedimento de entrada nas salas de aula ocorreu seguindo alguns protocolos. Primeiramente, era necessário se identificar, a uma distância de um metro, retirando a máscara, por alguns segundos, para que a identidade do participante fosse checada. Em seguida, era solicitado o recolhimento de pertences como carteiras, celulares, óculos e chaves. Após isso tudo, o participante era orientado a entrar na sala, com o celular desligado, e escolher sua carteira, dispondo sobre ela alimentos, documento de identificação, álcool em gel, máscaras e o seu caderno de questões – considerada por mim uma das maiores dificuldades para quem prefere manter sobre a mesa apenas a prova, caneta e uma garrafa de água.
Outro incômodo durante o exame foi o desconforto provocado pelo uso contÃnuo da máscara. à fato que seu uso no local é obrigatório, mas, ao mesmo tempo, era de se compreender que esse não se tratava do melhor momento para realização das provas, sobretudo pela desigualdade digital presente no paÃs, pela falta de aulas a distância em escolas públicas, pelo medo que a pandemia nos impõe de compartilhar ambientes com pessoas aglomeradas e, sobretudo, pelo estado psicológico em que todos se encontram. Inclusive, contraditoriamente ao que postula o governo federal e ao ver suas prioridades na destinação de recursos para o setor de saúde gratuita e de qualidade, o Enem trouxe como tema âO estigma associado à s doenças mentais na sociedade brasileiraâ – um dos assuntos mais necessários e urgentes para que a sociedade evolua pautada no respeito, cidadania e inclusão.
[g1_quote author_name=”Carlos Augusto Júnior” author_description=”Estudante de Jornalismo” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Nada garante, por exemplo, que, antes de chegar em casa, esses alunos não tiveram contato com outras pessoas infectadas, em ônibus, metrôs, ruas do paÃs, dentre tantos outros lugares possÃveis.
[/g1_quote]Por fim, ao observar pela minha experiência durante este domingo, o ENEM conseguiu cumprir, pelo menos no meu local de realização da prova, com as recomendações dos órgãos de saúde: distanciamento social, uso de máscaras, álcool em gel e higienização. Porém, as medidas não foram suficientes para a inclusão efetiva de todos os participantes, já que o cuidado contra uma possÃvel contaminação está no percurso realizado pelos alunos da sua casa até a escola. Nada garante, por exemplo, que, antes de chegar em casa, esses alunos não tiveram contato com outras pessoas infectadas, em ônibus, metrôs, ruas do paÃs, dentre tantos outros lugares possÃveis. Mas, de fato, essa edição nos deixou uma grande certeza: está sendo o exame mais desigual de toda a história. Quem teve saúde, mÃnimas condições psicológicas, acesso à educação de qualidade e preparo durante todo o ano assolado pela pandemia, conseguiu realizá-lo. Porém, quem não teve nada disso, permaneceu em casa, com a esperança de um dia chegar à universidade com vida.
