Felipe Azevedo*
A notÃcia de que a escola estaria fechada por tempo indefinido por causa do coronavÃrus veio junto com um diagnóstico de câncer de mama. Em março, Henrique Leonardo, de 4 anos, não iria mais frequentar as aulas, e a mãe, Maria Elizângela de Lima Sousa, de 35 anos, faria uma cirurgia à s pressas. âContei com a ajuda da famÃlia e de muitos vizinhos, porque o tratamento é muito invasivo e cansativoâ, desabafa Rosa, apelido de Maria Elizângela.
âVocê deu sorteâ, brincou Rosa, referindo-se à presença do repórter do Lição de Casa ali. âGeralmente não estou disposta pela manhã e prefiro não conversarâ, disse, se ajeitando na cadeira para iniciar a entrevista. Os efeitos colaterais dos remédios que está tomando a deixam com o humor inconstante. Dona de casa, Rosa sente saudades da rotina que incluÃa andar 1,5 km quase todos os dias logo cedo no trajeto de volta da escola do filho, varrer, passar pano e preparar o almoço. Enquanto isso, o marido ia para a lavoura trabalhar.
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Veja o que já enviamosâCom Henrique em casa, a rotina toda mudaâ, disse. O filho está no 4º ano da Educação Infantil na escola Professora Rosa Ferreira de Macêdo, localizada na zona rural de Crato, no sertão do Ceará. Ela se orgulha de como o garoto ia bem na escola: âele aprende muito rápido, é espertoâ.
Além de Henrique, Rosa tem ainda uma menina de 18 anos e outra de 9. A cobrança em cima dos filhos para frequentar a escola, tirar boas notas e evoluir bem é grande, já que os pais não puderam estudar. Nem Rosa nem Leomar de Sousa Santos, 42 anos, concluÃram o Ensino Fundamental. âAinda quero, tenho vontade de estudar. Já ele, não troca a roça por nadaâ, emenda a dona de casa.
[g1_quote author_name=”Maria Elizângela (Rosa) de Lima Souza” author_description=”Dona de casa” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Não aguento mais ver notÃcias, mal vejo jornal. O que eu sei é o que me contam, prefiro acreditar nas pessoas e me cuidar
[/g1_quote]A famÃlia mora em uma casa feita de taipa â terra batida que substitui o cimento na construção. Junto à outras oitos casas, elas formam uma espécie de vila comunitária, onde a maioria é parente. Isso é uma benção na quarentena, já que as crianças, primos e irmãos, brincam entre si.
Mas não há terreiro e espaço para diversão que supere o celular. Enquanto conversávamos, Rosa pediu que Henrique abaixasse o som do aparelho três vezes. Da varanda, era possÃvel escutar as músicas que o menino ouvia na sala, pelo YouTube, no smartphone da mãe.
Henrique teve que se adaptar a estudar com a mãe ou a irmã mais velha, e a não conviver mais com os colegas de turma. Logo Rosa percebeu que o filho ficou ansioso e pouco concentrado. As professoras enviam a atividade pelo WhatsApp. Os pais ou responsáveis pelos alunos imprimem e enviam de volta fotos dos exercÃcios respondidos. à na casa de Rosa que fica a impressora que está ajudando todos os vizinhos nessa tarefa escolar no distrito Baixio das Palmeiras, distante 35 km do Centro de Crato e a 570 km de Fortaleza.
Enquanto a capital cearense publicava o primeiro decreto fechando o comércio, em março, proibindo eventos e obrigando o uso de máscaras, no Sertão do Cariri os dias seguiam mais tranquilos, sem mortes. Seis meses depois, o cenário epidemiológico da cidade já era bem diferente. A Secretaria Municipal de Saúde já havia registrado mais de 20 mil casos confirmados e 94 pessoas tinham morrido em decorrência da Covid-19.
Na maioria das cidades do interior do Ceará, a volta à s aulas presenciais só deve ocorrer em 2021. Professora de Henrique, Edna Carvalho dizia ainda não estar preparada para voltar. O filho dela estuda na mesma sala de aula. âEu sei que para eles é muito difÃcil, sentem falta e eu também sinto. Amo vê-los aprendendoâ, afirma Edna, complementando em seguida que não dá para ter noção de como seria, neste momento, a presença das crianças na escola.
As colegas professoras, segundo Edna, sentem a mesma dificuldade. Para elas, não há perspectivas até o fim de 2020. âPrecisamos ter paciência com os pais, porque além da falta de experiência pedagógica, muitos não têm internet em casa, à s vezes nem aparelho celular com tecnologia razoávelâ, ressalta.
Rosa ainda tem medo da doença, está sem visitar a mãe desde março. Só conversa por vÃdeo chamada, quando a internet via rádio que tem em casa funciona bem. No celular, também chegam mensagens sobre coronavÃrus, mas ela faz questão de não ver. âNão aguento mais ver notÃcias, mal vejo jornal. O que eu sei é o que me contam, prefiro acreditar nas pessoas e me cuidarâ, diz, ressaltando que segue rigorosamente as medidas de prevenção.
Todas as dificuldades que surgiram nestes últimos meses naquele lar são superadas, nas palavras de Rosa, pelo alÃvio de ter a famÃlia bem e reunida â âpelo menos Henrique está em casaâ. A mãe ainda se recupera do câncer em tratamento, com remédios e quimioterapia, em meio a uma pandemia, que não sabemos quanto tempo persistirá.
