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Um bom exemplo da dificuldade de explicar essa diferença entre formação e pesquisa pode ser dado com o caso de um médico que, tendo completado sua graduação em Medicina, decide continuar na universidade como pesquisador. Na faculdade â o que inclui a residência médica, os estágios etc â , o médico deve aprender a atender pacientes na sua especialidade, fazer diagnósticos, pedir e analisar exames e tudo mais que envolve o bom exercÃcio da medicina. Quando decide fazer doutorado, o mesmo médico se dedicará a pesquisar um determinado problema cientÃfico â por exemplo, a cura do câncer â e, para esse processo, fará uma pesquisa de mestrado e doutorado, podendo, se a pesquisa assim exigir, passar um perÃodo numa instituição internacional onde haja pesquisadores com quem vá trocar informações e resultados. Também como resultado desse trabalho de pesquisa, pode haver um perÃodo de estágio pós-doutoral, um instrumento útil de intercâmbio de pesquisadores entre instituições nacionais ou internacionais, mas que chamo de estágio apenas para pontuar que pós-doutorado não é titulação, é mera continuação formal da pesquisa.
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Veja o que já enviamosNa nossa tradição bacharelesca, já houve um tempo em que qualquer homem branco de terno e gravata devia ser chamado de âdoutorâ, máximo da reverência a uma âautoridadeâ. Hoje, é possÃvel que um jovem negro, depois de ter feito pré-vestibular comunitário na favela da Maré, ter concluÃdo uma graduação e um mestrado, esteja realizando uma pesquisa para ser doutor na sua área de atuação
[/g1_quote]Ao final do doutorado, o médico defende uma tese, significa dizer que apresenta por escrito os resultados de seu trabalho e se habilita, agora sim, a ser chamado de doutor. Se, no senso comum, o médico já é chamado respeitosamente de âdoutorâ, porque haveria de cursar mestrado e doutorado para ser âdoutorâ? Porque é pela pesquisa que os tratamentos se modificam, que novas descobertas são feitas, novos medicamentos, outras abordagens para doenças e assim por diante. O que parece fácil de entender no exemplo da medicina é que nem sempre esse médico PhD irá optar por ser professor, embora isso possa ocorrer, mas é evidente para a maioria das pessoas que há mercado de trabalho para que ele exerça a medicina em hospitais e consultórios.
O mesmo não acontece em muitas outras carreiras nas quais o profissional que conclui uma pesquisa de doutorado seguirá trabalhando como pesquisador e como professor. Importante dizer que é assim não apenas nas ciências humanas, mas também nas exatas: um fÃsico, um quÃmico ou um biólogo são profissionais que podem ter doutorado em suas áreas e se manter na universidade. Para isso, serão necessariamente pesquisadores e professores. Salvo raras exceções â como em alguns centros de pesquisa na Unicamp â, para ser pesquisador é preciso ser professor, embora o contrário não seja verdadeiro, já que é possÃvel apenas lecionar sem fazer pesquisa, dependendo da área de atuação e da universidade.
Apesar de todas as dificuldades, o Brasil tem um excelente acervo de teses e dissertações disponÃveis on-line, em parte consequência do fato de que, já que essas são realizadas com recursos públicos, seus resultados devem estar disponÃveis e acessÃveis ao conjunto da sociedade. Além das iniciativas das próprias universidades de oferecer seus bancos de teses, uma plataforma da Capes permite a consulta de grande parte da produção nacional realizada em programas de pós-graduação no paÃs. Convido leitores e leitoras a consultar ali qualquer tese de doutorado e se dedicar a ler a página de agradecimentos.
Além dos reconhecimentos protocolares, como agências de fomento, professores e instituições, o que aparece em qualquer página de agradecimento de uma tese de doutorado, não importa de que área for, é o quanto aquele trabalho foi realizado a partir da formação de uma rede que inclui professores, dentro e fora do Brasil, outros colegas de pesquisa, amigos, parceiros afetivos, sem os quais a pesquisa não teria sido realizada. Há quem agradeça ao psicanalista â tempos difÃceis â, ao fisioterapeuta â horas e horas sentada no computador lendo e escrevendo â e até ao cardiologista, como foi o meu caso. Para além do objeto da pesquisa, o que um recém-doutor construiu foram laços para além dos seus vÃnculos originários, não a fim de destruÃ-los ou ignorá-los, mas para ampliar sua inserção social e cultural além dos limites dados no seu percurso familiar.
Se pudermos compreender um doutorado nesse sentido mais amplo â uma pesquisa temática que forma um pesquisador, cujo mercado de trabalho muitas vezes é exclusivamente a docência e que alarga os horizontes de compreensão do mundo ou de pelo menos parte dele â, o Brasil ainda tem doutor de menos. Na nossa tradição bacharelesca, já houve um tempo em que qualquer homem branco de terno e gravata devia ser chamado de âdoutorâ, máximo da reverência a uma âautoridadeâ. Hoje, é possÃvel que um jovem negro, depois de ter feito pré-vestibular comunitário na favela da Maré, ter concluÃdo uma graduação e um mestrado, esteja realizando uma pesquisa para ser doutor na sua área de atuação. Significa dizer que, com seu diploma de doutorado, entre tantas coisas que se abrem no futuro, abre também a possibilidade de mudar o passado colonial de dominação dos bacharéis.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]7/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil.
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