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Todos os anos centenas de casos da doença são notificados concentrados principalmente na região Norte. Desde 2008, o Pará é o estado que mais possui casos agudos da doença de Chagas em todo o Brasil. Foram 333 em 2016, e outros 297 em 2017, segundo dados do Ministério da Saúde. A doença de Chagas provoca febre prolongada, dor de cabeça, inchaço e problemas cardÃacos. Ainda não há tratamento.
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A alta incidência da doença e a transmissão por meio do açaÃ, item que garante o sustento de muitas famÃlias no Norte do paÃs, levaram as Universidades Federais do Paraná e do Pará a pesquisarem métodos eficientes de eliminação do Trypanosoma cruzi para garantir o consumo seguro do alimento. O projeto foi financiado pela Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), agência de fomento à pesquisa do estado do Pará.
[g1_quote author_name=”Ana Caroline de Oliveira” author_description=”Pesquisadora da Universidade Federal do Pará” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Chegamos à conclusão de que o protozoário causador da doença da região Amazônica é mais resistente tanto à temperatura quanto a concentrações de sanitizantes. Descobrimos que ele sobrevive 24 horas na bebida e, no fruto, encontramos a presença por até 32 horas. Tempo suficiente para permitir a contaminação por ingestão
[/g1_quote]A equipe, sob coordenação da professora Vanete Thomaz Soccol, da UFPR, trabalhou em testes durante quatro anos para garantir, com segurança, a eliminação do protozoário do açaÃ. âUtilizamos métodos sanitizantes, com hipoclorito de sódio e calor visando a eliminação do parasito. Chegamos ao tratamento técnico aplicado aos frutos, chamado de branqueamento, realizado a 80 graus celsius por dez segundos. O Trypanosoma não resiste à imersão do fruto nessa temperatura. No caso da bebida, o processo de pasteurização é eficiente para eliminar o protozoário. Até então não tÃnhamos essas respostasâ, conta Ana Caroline de Oliveira, que defendeu a tese de doutorado pela UFPA no ano passado e realizou a parte experimental da pesquisa na UFPR sob orientação de Vanete Soccol.
A resistência do Trypanosoma chamou atenção. âChegamos à conclusão de que o protozoário causador da doença da região Amazônica é mais resistente tanto à temperatura quanto a concentrações de sanitizantes. Descobrimos que ele sobrevive 24 horas na bebida e, no fruto, encontramos a presença por até 32 horas. Tempo suficiente para permitir a contaminação por ingestãoâ, afirma Ana Caroline.
Material genético
Por meio do projeto, os pesquisadores também desenvolveram o método PCR real time (PCR â Reação de cadeia em polimerase em tempo real) para detectar se o protozoário está presente no açaÃ. âAntes identificávamos apenas a presença do parasito, mas poderia estar morto e precisamos saber quando ele está vivo no hospedeiro, no açaÃ, ou em outros alimentos. Foi aà que desenvolvemos a técnica PCR em tempo real, através da transcrição reversaâ, diz a professora Vanete.
A técnica amplia o DNA em escala exponencial, clona esse material e aumenta a quantidade do DNA para ser detectado a presença do protozoário. O processo do PCR em tempo real dura cerca de duas horas, enquanto o convencional pode levar dias para apresentar os resultados. Anteriormente estes testes eram feitos em animais de laboratório, o que consumia mais tempo, era mais oneroso, e ainda criava um âproblema ético.â
A pesquisadora da UFPR Vanete Soccol lembra que sorvetes e polpas de açaà são produtos de exportação. âJá provamos que o protozoário sobrevive na pasta do açaÃ. Se houver contaminação, o produto poderá ser rejeitado. Queremos que essa cadeia alimentar não tenha riscoâ.
[g1_quote author_name=”Vanete Soccol” author_description=”Pesquisadora da Universidade Federal do Paraná” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A aplicação em ciência retornará em desenvolvimento para o paÃs. Ou aplicamos em ciência ou vamos regredir em termos de nação
[/g1_quote]O método desenvolvido abrange pesquisa de Trypanosoma cruzi em matriz alimentar, podendo ser realizado em outros produtos. âNós, como universidade, temos o objetivo de repassar a pesquisa para os órgãos competentes. Estamos dispostos a transferir para quem precisar, quanto mais gente tiver acesso à metodologia, melhores exames e resultados mais rápidos serão feitos. Não é uma metodologia para ficar na prateleira, é para ser transferida para a populaçãoâ, ressalta a professora Vanete.
Higienização
Não existe relação direta entre o açaà e a doença de Chagas. A contaminação está mais relacionada à falta de higienização de onde os frutos são retirados. A professora Vanete reforça que o Trypanosoma cruzi chega a sobreviver 32 horas na polpa do açaÃ. âO barbeiro [mosquito] que é o vetor se adapta à palmeira e quando se colhe os cachos do açaÃ, ele vem junto. Por isso, precisa ser muito bem higienizado. Esse hábito nas cidades é mais fácil, mas na zona rural não. Então haverá continuidade dessas contaminações esporádicas. Só através da educação dá para melhorarâ, afirma Vanete.
Ela reforça que é preciso ensinar os processos. âSe algum fruto fica de fora, sem ter contato com a temperatura determinada pelo método, o protozoário permanecerá vivo. O trabalho educativo é muito importante, caso contrário vamos continuar tendo casos de doença de Chagasâ, explica a pesquisadora da UFPR.
Para Vanete, o governo precisa repensar a ciência brasileira e definir metas. âNós não temos um projeto para a ciência brasileira. Os paÃses dos Brics [Rússia, Ãndia, China e Ãfrica do Sul] investiram na ciência estão em outro patamar em termos de desenvolvimento. Queremos simplesmente vender produtos de baixo valor agregado? A aplicação em ciência retornará em desenvolvimento para o paÃs. Ou aplicamos em ciência ou vamos regredir em termos de nação.â
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]76/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil
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Amo açaÃ, mas tenho pânico de degustá-lo.
Só apreciei poucas vezes e parei.