Pesquisadores de instituições sediadas no estado do Rio de Janeiro criaram, com tecnologia brasileira, um soro que pode ser uma arma valiosa no tratamento da covid-19, doença causada pelo novo coronavÃrus (SARS-CoV-2). Desenvolvido por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto Vital Brazil (IVB) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o soro, obtido a partir do sangue de cavalos, possui anticorpos neutralizantes â de 20 a 50 vezes mais potentes do que aqueles naturalmente encontrados no plasma sanguÃneo de pacientes que já foram infectados pelo vÃrus e estão se recuperando. Os pesquisadores aguardam a aprovação, ainda com prazo indeterminado, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão Nacional de Ãtica em Pesquisa (Conep), para a realização de testes clÃnicos (em humanos). Caso essa etapa seja aprovada, o soro pode ser aplicado para reforçar o sistema imunológico de pacientes com casos mais graves de Covid-19, como são usados os soros contra o tétano ou veneno de cobras.
Coordenada pelo professor Jerson Lima Silva, do Instituto de BioquÃmica Médica da UFRJ, que também é presidente da Faperj, a pesquisa em rede teve inÃcio em maio âEssa pesquisa reafirma a importância das instituições unirem suas diferentes expertises. Somos uma equipe de mais de 20 pesquisadores, na UFRJ, no IVB e na Fiocruz. Sabemos que há mais de 170 formulações de possÃveis vacinas contra o novo coronavÃrus, em diferentes fases de desenvolvimento, ao redor do mundo, e estamos desenvolvendo outra alternativa, pelo caminho da imunização passiva, com o soro. O Brasil já tem forte tradição cientÃfica, que não pode ser menosprezada, na produção de soros. Há 103 anos, Vital Brazil escreveu uma carta ofertando a patente do soro antiofÃdico para ser produzido no Instituto Butantã e nesta quarta, 12 de agosto, demos entrada na patente para a produção do soro anti-Covid-19â, destacou Lima, durante simpósio virtual realizado na noite desta quinta-feira, 13 de agosto, organizado pela Academia Nacional de Medicina (ANM). Na transmissão ao vivo, ele também anunciou a submissão de publicação sobre a pesquisa no MedRxiv, que é um repositório de resultados preprint, ou seja, pré-publicados.
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Um elemento essencial do projeto é uma proteÃna do novo coronavÃrus, que tem se mostrado estratégica para diferentes usos e pesquisas: a chamada proteÃna S (responsável pela ligação e entrada do vÃrus na célula humana). Localizada na espÃcula do vÃrus, região que lembra uma coroa, com pequenas antenas, ela é considerada pelos cientistas um alvo preferencial do sistema imunológico quando este reage à infecção causada pelo novo coronavÃrus. Em outras palavras, o organismo produz grande quantidade de anticorpos contra esta proteÃna, quando é infectado pelo vÃrus. A letra S é derivada da palavra spike, em inglês, ou espÃcula, em português. No Laboratório de Engenharia de Cultivos Celulares (LECC) do Instituto de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ), a equipe coordenada pela professora Leda Castilho vem produzindo desde fevereiro de 2020 a proteÃna S recombinante, ou seja, uma cópia fiel da proteÃna S da superfÃcie do novo coronavÃrus. Foi esta proteÃna S produzida no laboratório da Coppe/UFRJ que foi inoculada em cavalos do Instituto Vital Brazil.
Segundo Leda Castilho, a proteÃna S apresenta estrutura equivalente à proteÃna presente na superfÃcie do coronavÃrus, sendo, portanto, capaz de estimular a produção de anticorpos que reconhecem e neutralizam o vÃrus. “A proteÃna que produzimos na Coppe/UFRJ se mostrou muito efetiva para estimular a produção de anticorpos em cavalos, tendo-se obtido uma quantidade muito maior do que a de anticorpos encontrados em humanos que já contraÃram covid-19. Diante da inexistência de terapias especÃficas para a doença, os anticorpos de cavalos produzidos pelo IVB são uma grande esperança de tratamento possÃvel e especÃfico para a covid-19â, afirma a cientista.
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Além de ser usada em pesquisas diversas, a proteÃna S vem sendo utilizada também em testes para diagnóstico sorológico da covid-19 e em vacinas que ainda estão em desenvolvimento. âNosso papel no LECC é a produção de uma glicoproteÃna recombinante da espÃcula do vÃrus SARS-CoV-2, ou seja, de uma cópia da proteÃna S, presente em grande quantidade na superfÃcie externa do novo coronavÃrus e que foi usada na pesquisa para imunizar os cavalos do IVB. Graças à inoculação dessa proteÃna, em maio deste ano, os equinos tiveram uma produção expressiva de anticorpos contra o novo coronavÃrusâ, explicou Leda.
O presidente do Instituto Vital Brazil, Adilson Stolet, um dos integrantes da pesquisa, ressaltou que o Brasil tem vasta tradição cientÃfica brasileira na produção de soros. âO IVB, que completou cem anos em 2019, é uma fábrica de imunoglobulinas para soros, incluindo os antirrábicos, para o tratamento da raiva, e os antiofÃdicos, para o veneno da serpente brasileira. Os soros produzidos pelo IVB têm excelente resultado de uso clÃnico, sem histórico de hipersensibilidade ou eventuais reações adversasâ, disse. Os testes foram realizados com cinco cavalos na Fazenda Vital Brazil, localizada no municÃpio fluminense de Cachoeiras de Macacu, onde são criados os equinos utilizados no processo de obtenção de plasma para produção dos soros hiperimunes do IVB. âDepois da imunização dos cavalos, trouxemos o plasma deles, em amostras colhidas na Fazenda, para a nossa Fábrica de imunoglobulinas, em Niterói. Lá, realizamos o processo de produção do soro, separando o anticorpo especifico contra o vÃrus, a imunoglobulina anti-Covid 19â, resumiu.
A pandemia causada pela Covid-19 resultou, até agosto de 2020, em mais de 700 mil mortes e mais de 19 milhões de casos confirmados em todo o mundo. No Brasil, a triste marca de 100 mil óbitos e três milhões de infectados foi atingida esta semana. Enquanto não há vacinas aprovadas e, mesmo posteriormente, pela dificuldade de suprir a grande demanda internacional de vacinação, o uso potencial da imunização passiva por terapia com soro deve ser considerado com uma opção. âO objetivo é que esse tratamento soroterápico seja usado como uma polÃtica pública de saúde complementar à aplicação da futura vacina contra a Covid-19, para os casos mais graves de pacientes com Covid e os que requerem internação hospitalar. Como o soro é intravenoso, o efeito já começa em minutos após a aplicação. Sem o soro, um paciente leva cerca de 15 dias para produzir naturalmente anticorpos, o que pode representar a diferença entre a vida e a morte em casos mais gravesâ, ponderou Stolet.
Participam da pesquisa um grupo grande de cientistas, incluindo Leda Castilho e Renata Alvim (Coppe/UFRJ); LuÃs Eduardo Ribeiro da Cunha, Adilson Stolet e Marcelo Strauch (IVB); Amilcar Tanuri, Andrea Cheble Oliveira, Andre Gomes, Victor Pereira e Carlos Dumard (UFRJ); Thiago Moreno Lopes (Fiocruz) e Herbert Guedes (UFRJ/Fiocruz). O pedido de patente se refere ao processo de produção do soro anti-SARS-CoV-2, a partir da glicoproteÃna da espÃcula (spike), com todos os domÃnios, preparação do antÃgeno, hiperimunização dos equinos, produção do plasma hiperimune, produção do concentrado de anticorpos especÃficos e do produto finalizado, após a sua purificação por filtração esterilizante e clarificação, envase e formulação final. Além do apoio da FAPERJ, a pesquisa conta com subsÃdios do Conselho Nacional de Desenvolvimento CientÃfico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de NÃvel Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
*Faperj
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]A série #100diasdebalbúrdiafederal terminou, mas o #Colabora vai continuar publicando reportagens para deixar sempre bem claro que pesquisa não é balbúrdia.
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Tenho um amigo que está na UTI do Jaime da fonte e este soro pode salvar ávida dele, onde comprá-lo?
Onde posso comprar o soro.?