A polêmica camiseta da união

Quando brigam, o castigo dos gêmeos André e Andressa é ficar 15 minutos abraçados no sofá

Novo método de castigo infantil divide pais e especialistas

Por Laura Antunes | ODS 4 • Publicada em 26 de agosto de 2016 - 17:45 • Atualizada em 17 de outubro de 2016 - 22:24

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Quando brigam, o castigo dos gêmeos André e Andressa é ficar 15 minutos abraçados no sofá
Quando brigam, o castigo dos gêmeos André e Andressa é ficar 15 minutos abraçados no sofá

Irmãos, em tese, personificam o amor incondicional e a cumplicidade. Só que não. Quem tem filhos descobre, na prática, que, pelo menos durante a infância, o que mais se faz é mediar conflitos entre eles e, não raramente, interromper cenas de pugilismo explícito. Tem pai que grita, dá palmada, bota de castigo etc… Mas há quem ande apelando para métodos menos convencionais. E não são poucos, a julgar pelo número crescente de fotos curiosas postadas ultimamente nas redes sociais, provocando risos e já despertando algumas críticas. Trata-se de um novo estilo de punição aos pequenos, que atende pelo nome de “camiseta da união”, adotada por pais à beira de um ataque de nervos.

Eu e Janete (mulher de Marcos) começamos a buscar alternativas educativas para que os dois passassem a se entender melhor e compreender o fato de que irmãos devem depender mais um do outro, que o irmão deve ser o seu melhor amigo. Foi quando surgiu a ideia da “camiseta da união

Marcos Deichmann
Pai de Guilherme e Letícia

Funciona assim: pegue uma Tshirt de adulto bem larga (com a gola recortada) e coloque dentro dela dois irmãos que acabaram de se estranhar. Em seguida, estabeleça a quantidade de minutos que a dupla terá que permanecer grudadinha dentro da peça única. O castigo deve terminar com um abraço, um pedido de desculpas e uma singela declaração de “Eu te amo”.

Os pais dos brigões que adotaram a nova técnica – que teria começado em lares americanos – acreditam ser uma forma de punir educando. E reforçar, assim, os laços de amizade entre os irmãos. Mas há quem duvide da eficácia, ao se observar as fisionomias emburradas que as crianças demonstram nas fotos.

Um dos primeiros pais a adotar a técnica por aqui foi Marcos Deichmann, que vive em Santa Catarina com a família. Os filhos Guilherme, de 8 anos, e Leticia, de 6, vinham “brigando muito por qualquer motivo”, segundo ele. Até que os conflitos começaram a sair do controle dos pais e a dupla de irmãos chegou a se bater. Pesquisando na internet, a mãe das crianças se deparou com a “camiseta da união” e o casal decidiu testar a eficácia da estratégia.

A versão catarinense da Camiseta da União, que teria sido usada pela primeira vez nos EUA

Após aplicar o castigo, Marcos postou a foto da duplinha numa rede social e ela viralizou. Foram cerca de 19 mil compartilhamentos, 600 curtidas e 95 comentários – a maioria esmagadora com elogios ao método: “Adorei a ideia …meus filhos brigam um monte….5 anos e 10 anos… sempre estão dizendo que se odeiam, vou tentar também…..kkk”, dizia um dos posts.

– Eu e Janete (mulher de Marcos) começamos a buscar alternativas educativas para que os dois passassem a se entender melhor e compreender o fato de que irmãos devem depender mais um do outro, que o irmão deve ser o seu melhor amigo. Foi quando surgiu a ideia da “camiseta da união” – relembra Marcos.

Ele afirma que o método surtiu efeito rápido. A dupla, garante o pai, está agora mais unida.

– Na verdade, não foi preciso muito tempo. Eles foram colocados nesse castigo duas vezes, sendo que a primeira já resolveu praticamente tudo. Na segunda, foi mais uma forma de alerta. Claro que discussões entre irmãos são normais nessa idade, mas melhoraram demais, principalmente as agressões, que acabaram por completo. Tanto que hoje os dois não se desgrudam, brincam juntos, dividem as coisas, não gritam um com o outro – acrescenta o pai, que é supervisor do centro de diagnóstico de imagem de um hospital catarinense.

O sogro de Marcos doou uma Tshirt do seu guarda-roupa para se transformar na “camiseta da união”. O casal, então, escreveu os dizeres e chamou as crianças para explicar como seria a nova forma de punição:

– Nós explicamos que, como já havíamos chamado a atenção deles várias vezes, sem resultado, da próxima vez que brigassem passariam um tempo juntos dentro da camisa, refletindo sobre o que fizeram. E, antes de sair de dentro da camisa, eles teriam que seguir o que estava escrito nela. Hoje, estamos muito felizes com o resultado – diz o pai dos meninos, que pintou na Tshirt os dizeres: “Brigou, tem que usar”, “Pedir desculpas”, “Dar abraço no outro” e “Falar te amo”.

A carioca Simone Cândido, mãe de um casal de gêmeos, de 8 anos, André Carlos e Andressa Cristina, descobriu o novo estilo de punição por meio de uma amiga, que lhe enviou uma foto capturada na internet. Simone confessa que está prestes a recorrer ao método. Desde que as crianças fizeram 5 anos, ela adota, na verdade, uma estratégia já bem parecida com a “camiseta da união”, na hora de mediar os conflitos.

Pelas fotos que já vi na web, dá para perceber o incômodo das crianças durante o castigo. Deixá-las grudadas, com tempo para pensarem, não funciona porque elas não têm ainda capacidade mental para refletir. Entendo que há momentos em que, de fato, os pais não sabem mais o que fazer para mediar essas situações de conflito, como dar limites. É mesmo estressante, mas acredito que o diálogo ainda é o melhor caminho, porque a união não pode ser imposta, ela tem que ser construída

Diana Dadoorian
Psicanalista

– Eu aplico aos meus filhos o mesmo castigo que meu pai adotava sempre que eu e minha irmã brigávamos quando crianças. Toda vez que os gêmeos se estranham, coloco os dois sentados no sofá, abraçados, olhando um para o outro, de 15 a 20 minutos. É uma forma de entenderem que irmãos não devem brigar. No fim do castigo, um pede desculpas para o outro. Mas depois que eu soube da “camiseta da união”, já estou pensando em adotar a ideia porque vai evitar que eu tenha que vigiar os dois durante os castigos. Eles sabem que precisam ficar abraçados e se olhando, mas se eu me distraio, eles se soltam. Com a camiseta, não vão poder – planeja Simone.

A mãe da dupla admite que, durante o castigo do abraço, os gêmeos ficam bem irritados.  Mas Simone brinca dizendo que, mesmo que os pedidos de desculpas não sejam sinceros, tem certeza que eles vão evitar as brigas para não terem que usar a “camiseta da união”.

Apesar de relatos de pais sobre o sucesso do método inusitado, a coordenadora do curso de especialização em Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, a psicanalista Diana Dadoorian não vê eficácia na “camiseta da união” como forma de punição. Na avaliação dela, a melhor maneira de mediar conflitos entre irmãos é chamá-los para conversar, ouvir os dois lados, entender o que houve, sob o ponto de vista de cada um, para se evitar injustiças.

– Pelas fotos que já vi na web, dá para perceber o incômodo das crianças durante o castigo. Deixá-las grudadas, com tempo para pensarem, não funciona porque elas não têm ainda capacidade mental para refletir. Entendo que há momentos em que, de fato, os pais não sabem mais o que fazer para mediar essas situações de conflito, como dar limites. É mesmo estressante, mas acredito que o diálogo ainda é o melhor caminho, porque a união não pode ser imposta, ela tem que ser construída – explica a psicanalista.

Já em Porto Alegre, uma mãe atenta ao comportamento do filho, de 4 anos, também aplicou uma punição curiosa, depois de saber que ele havia empurrado uma coleguinha na escola. Como castigo, Diogo foi obrigado pela mãe a levar, no dia seguinte, um vaso de violetas para a sala de aula, com um pedido de desculpas. A imagem do menino foi devidamente compartilhada por ela na internet. Mais de 50 mil pessoas curtiram (e elogiaram) e houve mais de seis mil compartilhamentos. A mãe zelosa explicou que a finalidade era fazer Diogo aprender que não “se deve bater em ninguém, muito menos numa menina”…

Mas pela carinha dele na foto, dá para perceber que Diogo não estava lá muito à vontade durante a punição…

Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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