Elas não são famosas nem filhas de celebridades. A dor delas não sai nos jornais nem causa comoção nas redes sociais. Mas o sofrimento é sentido na pele. Literalmente. Em comum, elas têm histórias do racismo vivenciado na rede municipal de ensino do Rio. Aquela mesma em que o secretário de Educação, Cesar Benjamin, disse que não conhecia nenhum caso de discriminação. A declaração foi dada em entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo” após um post em que Benjamin criticava a atriz Tais Araújo por ter dito que pessoas mudavam de calçada por causa da cor de seu filho. Mas caiu no esquecimento após os ataques racistas à filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. Assim como os mais famosos, as vÃtimas de preconceito racial na escola não esquecem as marcas de serem chamadas de “escrava” ou “macaca”. E garantem que isso não tem nada a ver com âhisteria racialâ, como classificou o secretário.
Com a palavra, as ‘anônimas’
Maria Eduarda Marco, de 13 anos, diz que já se sentiu bastante incomodada com os âcomentários desnecessários e um pouco racistasâ sobre seu black power. Na Escola Municipal Emilio Carlos, em Guadalupe, é comum ser chamada de cabelo duro e âpão carecaâ â em referência ao funk âA pão careca tá passando / Passa o rodo / Você tem cabelo ruimâ. Se o duplo preconceito da letra a aborrece, o que a deixa mais indignada hoje é ver outras pessoas discriminadas. Ela ilustra com a história de um colega de turma que ouviu a frase âtinha que ser pretoâ após esconder o estojo de outra aluna.
[g1_quote author_name=”X” author_description=”Aluna da rede municipal do Rio” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosAntes, meu cabelo era bem crespo. Teve um dia que eu fui pra escola com ele solto, e as crianças começaram a me zoar falando que meu cabelo era duro, bombril, perguntaram se eu queria banana, que eu parecia uma macaca… Eu cheguei para a minha professora (ela era branca) e falei o que estava acontecendo, ela simplesmente me ignorou, não fez nada com as tais crianças e acabou me ofendendo também
[/g1_quote]âAprendi a me amar do jeito que sou e com isso não me importo mais com os comentários quando se trata de mim, agora, com as pessoas à minha volta, eu me revolto muito mais. Um material escolar de uma menina da minha sala sumiu. E esse meu amigo fazia muito isso, pegava as coisas e escondia. Quando ela descobriu que foi ele, logo disse: âtinha que ser preto!â. Fiquei revoltada diante a situação. Falei que eu também era negra e nunca peguei ou roubei nada dela e nem de ninguém. Não é porque somos pretos que a gente faz isso. Nessa situação o comentário foi direcionado totalmente à minha corâ, conta Eduarda.
Questionada sobre a declaração de Benjamin em relação à inexistência de casos de discriminação na rede municipal, ela é didática.
âDiante da situação que presenciei, acho que isso é mentiraâ.
Amiga da adolescente e com mesma idade dela, X., que pediu para não ter sua identidade nem escola reveladas, relembra um episódio que contou com a complacência de uma professora da 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), na Zona Oeste do Rio:
âAntes, meu cabelo era bem crespo. Teve um dia que eu fui pra escola com ele solto, e as crianças começaram a me zoar falando que meu cabelo era duro, bombril, perguntaram se eu queria banana, que eu parecia uma macaca… Eu cheguei para a minha professora (ela era branca) e falei o que estava acontecendo, ela simplesmente me ignorou, não fez nada com as tais crianças e acabou me ofendendo tambémâ.
Professora transexual diz que sofre mais preconceito pela cor
O racismo não se dá apenas entre estudantes ou de professores com alunos, mas acontece nas diversas esferas das relações interpessoais e de poder. Julia Dutra, professora transexual e negra, perde a conta do número de vezes em que foi vÃtima de preconceito, seja por seus pares, superiores, subordinados e até funcionários da Secretaria municipal de Educação.
[g1_quote author_name=”Julia Dutra” author_description=”Professora transexual” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]No meu caso, é tênue a linha do racismo e da transfobia, mas acho que sofro mais preconceito pela cor
[/g1_quote]âNa primeira escola municipal em que trabalhei, quando entrei, me perguntaram: é você que serve o cafezinho? Outro episódio: fui na prefeitura resolver uma questão burocrática e uma moça da secretaria de educação me perguntou: âa senhora é da Comlurb?â Falei: âNão, sou professora. Por quê? Gari tem cara?â. Sempre ficam sem graça, pois respondo na hora. A moça ficou desconcertada dizendo que não era isso que eu estava pensando e mudou o assunto. No meu caso, é muito tênue a linha do racismo e da transfobia, mas acho que sofro mais preconceito pela corâ, compara Julia.
Professora de Artes e Teatro na prefeitura do Rio, ela tenta trabalhar a cultura afrobrasileira em sala de aula (de acordo com a Lei 10.639), mas sente rejeição por parte dos alunos, que consideram âcoisa de macumbaâ. Faz a ressalva de que na escola municipal em que trabalha atualmente é muito bem acolhida e valorizada, além de deixar claro que a discriminação não é exclusiva da rede, mas também acontece na estadual, na qual é diretora de um colégio noturno. Lá, ela ouviu a sutil sugestão de uma coordenadora para fazer uma escova no seu cabelo black power. Percebeu o recado racista nas entrelinhas, marcou posição e respondeu que valorizava a estética negra.
[g1_quote author_name=”Julia Dutra” author_description=”Professora transexual” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O triste é que, na maioria das vezes, o racismo vem dessa forma sutil e maquiado, ânão comprometendo o agressorâ. Está em todos os lugares. Se a escola pública é um microcosmo da sociedade, logo, lá também haverá racismo. Já ouvi de um aluno que mulher preta é só para transar.
[/g1_quote]âO triste é que, na maioria das vezes, o racismo vem dessa forma sutil e maquiado, ânão comprometendo o agressorâ. Está em todos os lugares. Se a escola pública é um microcosmo da sociedade, logo, lá também haverá racismo. Já ouvi de um aluno municipal que mulher preta é só para transar. Recebemos uma visita de uma palestrante loira, e ele dizia estar apaixonado pela beleza da moça. Para provocar, o questionei sobre padrões de beleza e o que o levava a ficar encantado por uma moça loira. Falei que a negra também é muito bonita, e ele me respondeu assim: âPoxa, professora. Sabe como é, né? As pretas é (sic) só pra transar, e essa aà é para casarâ. E, para provocar mais ainda, perguntei: âEntão eu não sirvo pra casar, né?â. Ele, muito sem graça, respondeu: âMas a senhora é diferente. à professoraâ. Na verdade, esse meu aluno só reproduziu o pensamento de milhares de homens brasileirosâ, ela relata.
Alunos combatem discriminação com projeto âEu Vivo Favela”
Formanda do ensino médio na rede estadual, LaÃs Santos, de 18 anos, acredita que tenha sofrido mais preconceito nas escolas municipais pelas quais passou no primeiro ciclo. Foi uma fase difÃcil, na qual era mais ingênua e indefesa, e que deixou marcas. Hoje, ela integra o projeto âEu Vivo Favelaâ, que desenvolve um trabalho tanto de inclusão dos jovens negros e marginalizados quanto de reinserção de estudantes que estão em situação de evasão escolar, para reintegração à rede educacional.
[g1_quote author_name=”LaÃs Santos” author_description=”Estudante” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]à um passado presente. Me sentia incomodada quando falavam de racismo na escola, pois os olhares de pena sempre se voltavam para mim. E quando falavam de escravidão também. Cheguei a ser chamada de escrava por um colega de classe.
[/g1_quote]Por meio de esquetes que mostram o preconceito cotidiano, os cerca de 20 estudantes que compõem o grupo tentam realizar o desafio de conscientização e empoderamento para construir um pensamento de respeito e militância que incentive o negro a lutar pelos seus direitos e se impor na sociedade. LaÃs conta que sentiu falta disso na escola para lidar com agressões em âtom de brincadeiraâ, como âvocê ficou mais tempo no forno, carvão, narigudinha, teu cabelo é muito estranho, é duroâ. Ela diz que sua autoestima só não foi mais afetada porque sua famÃlia a apoiou, ensinou a se posicionar e a não aceitar ser chamada por certos nomes.
âà um passado presente. Me sentia incomodada quando falavam de racismo na escola, pois os olhares de pena sempre se voltavam para mim. E quando falavam de escravidão também. Cheguei a ser chamada de escrava por um colega de classe. Deixou marcas, doeu obviamente. Cada uma dessas marcas que tive me fazem lutar para que as pessoas não passem pela mesma coisa. Luto para que essas pessoas não sofram o racismo dentro da escola, principalmente crianças. O secretário municipal provavelmente não convive tão próximo, talvez porque tenha assumido há pouco tempo. à meio estranho ele fazer essa afirmação (de que não há racismo), já que acontece tanta discriminação de alunos,  professores e profissionais da rede municipal. Acho essa declaração meio hipócrita, até porque o racismo existe há muito tempo dentro das escolasâ, ensina LaÃs.
O outro lado
De acordo com a Secretaria municipal de Educação, Esportes e Lazer, a rede de ensino da prefeitura do Rio tem mais de 40 mil professores e 20 mil funcionários, a maioria, negra, e 650 mil alunos, âde todos os lugares do mundo, refugiados do Congo, de Angola, Ãfrica do Sul, Haiti, Togoâ. A assessoria de imprensa da pasta enviou, por e-mail, uma carta intitulada âAqui é um lugar de pazâ, escrita pelo secretário Cesar Benjamin em maio, durante uma campanha contra a violência, na qual frisa: âQueremos uma escola sem violência, sem humilhações, sem racismo, sem preconceitos, sem drogas, em que todos se sintam bemâ.
A assessoria destacou ainda o programa âOrquestra nas Escolasâ, que pretende formar 80 mil estudantes de diversos bairros e comunidades da cidade até 2020. âAcabamos de fazer a estreia de uma Orquestra Sinfônica, com 300 alunos de todas as coresâ, diz a nota. Por fim, acrescenta que o programa de teatro âA escola fertiliza a cena da cidadeâ, cuja estreia aconteceu no Teatro Ipanema, tem âa maioria de atores, negros, jovens talentosas estrelas de escolas municipais da Rocinha, da Cidade de Deus e do Complexo do Linsâ.
No entanto, as duas únicas perguntas enviadas pelo #Colabora ao e-mail do secretário não foram respondidas por ele, que também foi informado sobre os casos de racismo apontados nesta reportagem. Após quatro dias de insistência, as repostas continuam em branco para as seguintes questões: “Numa entrevista, o senhor disse que não havia discriminação racial na rede municipal de Educação. Após a leitura desses casos, o senhor reconhece que há racismo, ainda que o senhor desconheça, ou acredita que os relatos das vÃtimas são apenas ‘histeria racial’?”; “Como secretário de Educação que acredita que o racismo deve ser tratado como burrice e crime, o senhor pretende tomar ações educativas e punitivas para evitar o preconceito racial na rede municipal? Quais?”
A assessoria de Benjamin informou que seria impossÃvel atender a reportagem, pois o secretário estava âocupadÃssimo com matrÃcula para 2018 e com a formação do time de professores alfabetizadores. Nos perdoeâ.

Pingback: Aquilombamento polÃtico: enfrentamento ao racismo é base para a democracia – #Colabora – STOP RACISMO
Pingback: Aquilombamento polÃtico: enfrentamento ao racismo é base para a democracia – Bem Blogado