Vencedora do Prêmio Capes de Tese, em 2014, na categoria Biotecnologia, e, naquela ocasião, em fase de estágio probatório no INT, a pesquisadora trocou a oportunidade de fazer um ano de pós-doutorado no exterior por recursos para sua nova pesquisa. âEssa foi a oportunidade que eu tive de me lançar em um novo tema. E então comecei a pesquisar e a entrar nessa área de resÃduos amazônicosâ, contou Ayla, formada em Ciências Biológicas: Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e com mestrado e doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em BioquÃmica também da UFRJ.
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Para surpresa da bióloga, descobriu que aquilo que era descartado a toneladas, tinha em sua composição um alto conteúdo de uma substância chamada manana, geralmente encontrada em baixa quantidade na natureza, e com larga possibilidade de usos na indústria de alimentos e de cosméticos. âNa semente de açaÃ, 50% da massa seca é formada por manana e não existe registro, pelo menos nós não encontramos, de nenhum outro resÃduo agroindustrial abundante que tenha uma quantidade de manana tão grande disponÃvel na natureza. Então, o que hoje é considerado lixo e está simplesmente sendo queimado, nós vemos como algo extremamente valioso, com uma composição diferenciada,â, entusiasma-se Ayla.
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Veja o que já enviamosDe grande potencial, a pesquisa está em fase de conclusão da primeira etapa, relativa à identificação da composição quÃmica da semente. Uma das formas de descrever as suas propriedades, explica a pesquisadora, é decompor as moléculas de açúcar até sua unidade fundamental, que, no caso da manana, significa chegar até a manose. Esses açúcares, presentes em toda semente como reserva de energia, são necessários até que seja gerada a primeira folha e, a partir daÃ, a força para o crescimento e desenvolvimento passa a vir da fotossÃntese. à nessa composição que está o potencial dessa semente. âEsses dois produtos têm um valor de mercado muito alto. Tanto a manose é utilizada diretamente como fármaco na indústria farmacêutica como pode ser uma molécula de partida para o desenvolvimento de várias outras moléculas de interesseâ, conta Ayla.
Em agosto de 2018 a equipe coordenada por Ayla depositou um pedido de patente do processo que levou à descoberta. E nesta semana a revista Nature publicou um artigo da equipe sobre a pesquisa desenvolvida. O trabalho estará descrito detalhadamente na dissertação de Ingrid Santos Miguez, contemplada com uma Bolsa Nota 10 da FAPERJ, para a realização de seu mestrado. Nesse processo de caracterização, está a bolsista de Iniciação CientÃfica Ingrid Venturelli, também contemplada pela Fundação. Atualmente, o principal financiador da pesquisa é o Instituto Serrapilheira, do qual Ayla receberá R$ 1 milhão ao longo dos próximos três anos.
Possibilidades
Atualmente a manose já é utilizada para tratamento de infecção urinária, ainda que seus efeitos não sejam um consenso entre os pesquisadores da área médica. Ayla destaca o potencial da manose como âmolécula de partidaâ para a produção de outras substâncias, como o manitol, receitado a todos que fazem o exame de colonoscopia, para limpeza do intestino. De acordo com a bióloga, atualmente o processo para a produção do manitol tem como base moléculas de sacarose, com aproveitamento de 25%, mas poderia chegar a 90% com a manose.
Ela conta que um licor de coloração avermelhada extraÃdo da semente apresentou caracterÃsticas igualmente animadoras, rica em polifenóis, substâncias associadas a propriedades antioxidantes e propriedades anti-inflamatórias. No último ano, o grupo se concentrou em realizar a caracterização quÃmica aprofundada do extrato, utilizando técnicas de identificação de alta resolução, em colaboração do Laboratório de Tabaco e Derivados do INT e do Centro de Espectrometria de Massas de Biomoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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Mas não são apenas os humanos que podem ser beneficiados pela manana. Substâncias derivadas deste açúcar já estão presentes nas rações de alta qualidade para cães e equinos. Produzidas a partir da parede celular de leveduras, elas agora poderão ser encontradas com maior facilidade na natureza. Outra composição que chamou a atenção dos pesquisadores do Labic é a formação de açúcares que funcionam como prebióticos, ou seja, alimentam as boas bactérias presentes em nosso organismo.
A preocupação de Ayla não se limita à s perspectivas de sucesso nas pesquisas sobre o fruto. A bióloga também se interessa pelas possibilidades de geração de riqueza para os produtores de açaà da região. Neste segundo semestre de 2019, ela parte para uma pesquisa de campo entre as comunidades ribeirinhas no Amapá, uma colaboração com a pesquisadora Terezinha Soares dos Santos do Instituto de Pesquisas CientÃficas e Tecnológicas do Amapá (Iepa). âAinda não temos a resposta de como isso se daria, e também não queremos impor nada. Precisamos conhecer mais a fundo o trabalho feito pelos produtoresâ, diz a pesquisadora. Seu desejo é poder incluir pessoas da região em um mestrado ou doutorado na pesquisa, financiada pela cláusula de estÃmulo à diversidade na ciência prevista no edital do Instituto Serrapilheira.
*Da Faperj
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”none” size=”s” style=”solid” template=”01″]94/100 A série #100diasdebalbúrdiafederal pretende mostrar, durante esse perÃodo, a importância das instituições federais e de sua produção acadêmica para o desenvolvimento do Brasil
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