De um mar de lama, emergiu uma lição. Ou melhor, de um rio, o Doce, vÃtima quase fatal da tragédia de Mariana, ainda no CTI dez meses após o rompimento da barragem do Fundão da mineradora Samarco, propriedade da Vale e da BHP Billinton. Ao ouvir de um aluno a pergunta sobre âpor que o Rio Doce era relacionado pelos jornais à tabela periódicaâ, o jovem professor Wemerson da Silva Nogueira teve a ideia de um projeto que levou sua turma da 8ª série do ensino fundamental a sair da sala de aula para fazer pesquisas de campo. O resultado foi surpreendente. Não só os estudantes detectaram a presença de altas concentrações de metais pesados no rio como também desenvolveram uma tecnologia de baixo custo para ajudar as populações afetadas: um filtro de areia que melhora a qualidade da água.
Assim, Wemerson, um professor de ciências de 25 anos, tornou-se um dos dez finalistas â entre 4.200 inscritos – do prêmio Educador Nota 10, que será entregue dia 17 de outubro, em São Paulo.
[g1_quote author_name=”Wemerson da Silva” author_description=”Professor” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosEstou muito satisfeito no meu papel de educador, até por que, quando assumi uma sala de aula, prometi para mim mesmo que faria Ciências e QuÃmica serem vistas de forma diferenciada pelos meus alunos: a natureza seria o nosso laboratório de experimentações
[/g1_quote]Bem aproveitada pelo mestre, a curiosidade de alunos foi essencial para o sucesso do projeto âFiltrando as lágrimas do Rio Doceâ. âEles iriam aprender na 8ª série o conteúdo da tabela periódica. Como no Rio Doce há diversos elementos que compõem a tabela, nada mais simples que estudá-la, mas de uma forma mais atrativa e diferenciada, onde poderÃamos realizar uma desconstrução da tabela periódica padrão que encontramos em livros e outros materiais de apoio didáticoâ, resumo Wemerson, que dá aulas no Colégio Estadual Antônio dos Santos Neves, em Boa Esperança, no EspÃrito Santo. A cidade está a 150 km de Regência, também no EspÃrito Santo, a última a receber a lama de rejeitos de minério. âSofremos com a contaminação do Rio Doce de forma direta, porém nos sensibilizamos com os moradores de Baixo Guandu, Colatina, Linhares e Regência, municÃpios atingidos e que sofreram grande destruiçãoâ, comenta.
 Coordenados pelo professor, os alunos realizaram coletas de amostras de água em diferentes pontos, especialmente em Mariana. Numa parceria com a Universidade Federal do EspÃrito Santo e a Estação de Tratamento de Ãgua de Boa Esperança, os estudantes puderam analisar as amostras e constatar a grave situação.
âEncontramos diversos metais pesados. Os que apresentaram maior concentração foram: ferro, manganês e arsênio. Para realizar as análises, utilizamos como base a Portaria 2914/11 do Ministério da Saúde, para ver se a água estava dentro dos parâmetros legais de potabilidadeâ, detalha o professor. âNas amostras, constatamos que a proporção de manganês na água era de 2,84 mg/L, quando o normal seria 0,01 mg/L, ou seja, um valor preocupante e bem acima do aceitável. Com relação ao ferro, encontramos uma concentração de 0,12 mg/L, e o normal seria 0,010 mg/L. Esse era um dos motivos da coloração avermelhada da água. Por fim, o arsênio tinha concentração de 0,10 mg/L, quando o normal seria 0,01 mg/Lâ.
Diante desses resultados, professor e alunos sentiram a necessidade de ajudar a população afetada. Em Regência, no EspÃrito Santo, por exemplo, verificaram que muitos tiveram as plantações destruÃdas pela tragédia e que não podiam voltar a cultivar no local, porque não tinham como molhar as plantas com a água vermelha. Outros viviam quase num racionamento da água distribuÃda e enfrentavam dificuldades para realizar tarefas domésticas, como limpar a casa e lavar louça. âDepois de filtrar a água do Rio Doce, observamos diferenças nos Ãndices. O manganês caiu para 1,76 mg/L, o ferro passou para 0,3 mg/L e o arsênio, para 0,8 mg/L. Assim, percebemos como foi importante o processo de filtragem e como ele trouxe benefÃcios para a comunidadeâ, relata o professor.
O filtro é um ótimo exemplo de tecnologia de baixo custo para ajudar populações necessitadas. Wemerson destaca que, apesar da simplicidade, foram necessários quatro meses e muitos projetos para se chegar ao modelo final, que conta com camadas de areia fina, grossa e industrial oxidada para reter o metal presente na água. âO interessante é que o morador pode voltar a captar a água na beira do rio. A água avermelhada é despejada no filtro, onde, por um perÃodo de 30 minutos ocorre a filtração. Ela sai transparente pela torneira e com aproximadamente 75% de potabilidade. Esse grau de água isenta dos metais pôde ser verificado através de novas análises realizadas por nós no laboratório escolarâ, empolga-se o professor, destacando que muitos ribeirinhos já voltaram a plantar e a usar a água em suas casas.
As mazelas tão conhecidas do ensino público no Brasil não foram obstáculos para Wemerson, que cobre de elogios a Secretaria estadual de Educação e a diretoria do colégio Antônio dos Santos Neves. âA  SEDU/ES contribui e investe na formação pedagógica dos seus profissionais. Além disso, oferece recursos didáticos que permitem ao professor realizar aulas práticas envolvendo a naturezaâ.
Os baixos salários da categoria também não desanimam o jovem professor, que tem consciência da importância da profissão para âformar cidadãos do bemâ. âEstou muito satisfeito no meu papel de educador, até por que, quando assumi uma sala de aula, prometi para mim mesmo que faria Ciências e QuÃmica serem vistas de forma diferenciada pelos meus alunos: a natureza seria o nosso laboratório de experimentações e a sala de aula um espaço para relatarmos e multiplicarmos os conhecimentos adquiridos. Sendo assim, aos 25 anos ser reconhecido nacionalmente como um dos 10 melhores professores do paÃs é muito mais importante do que qualquer salário altÃssimo que poderia ter, se não me sentisse valorizadoâ, avalia ele, que completou a licenciatura em QuÃmica em 2010 e depois fez especializações. âIngressei como docente em 2013, trabalhando com as disciplinas de Ciências e QuÃmica. Foi quando percebi o quanto uma sala de aula é importante para mim e para os meus alunos, que nesses quatro anos aprenderam e multiplicaram conhecimentos além dos muros da escolaâ.

Que linda história,o Brasil precisa de mais pessoas e histórias como essa.
Parabéns, bela matéria!