Bruno Tadeu*
Ricardo, de 5 anos, é uma criança acostumada com rotina, mais do que o habitual. Antes de o mundo virar de ponta cabeça com a Covid-19, ele acordava cedo para dar inÃcio a uma programação diária, juntamente com a irmã Paula, de 7 anos. Ambos são autistas. A mãe, também. Gabriela Repolho, 29, nunca abriu mão de manter os hábitos da famÃlia dentro do controle, para evitar estresse.
Os três saÃam do bairro Vila da Prata, onde moram, até a escola das crianças, no São Jorge, percorrendo alguns quilômetros de ônibus dentro da zona oeste de Manaus. Pela tarde, eles tinham sessão de terapia. Até fevereiro de 2020.
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Veja o que já enviamosEm março, quando todos nós não sabÃamos ainda por quanto tempo ficarÃamos em quarentena por conta do novo coronavÃrus, Gabriela já havia se preparado para seis meses de isolamento rigoroso com os filhos. Adaptou horários, reorganizou as finanças e reinventou a rotina, que foi reduzida a 60 metros quadrados, sem mais aqueles quilômetros percorridos diariamente. Precisou redescobrir caminhos entre a sala e o próprio quintal de casa.
Dois dias antes de o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciar a suspensão das aulas no Estado, em 16 de março, Gabriela já havia decidido começar um plano emergencial. Nele, manteve as atividades pedagógicas pela manhã, no mesmo horário da escola. Separou momentos também para desenhar, ouvir música, ler, mas sem muitas imposições. âA ideia era ter um norte do que vamos fazer, mas tudo flexÃvelâ, ponderou a mãe. E já percebeu que terá que estender a nova rotina em casa por mais que os 6 meses iniciais.
O medo e a angústia estiveram presentes, principalmente, no inÃcio, mas não havia tempo a perder. âNós, autistas, temos dificuldades com quebra de rotina. Imprevistos podem causar desregulação, ansiedade e depressãoâ, explicou-se. E foi isso que aconteceu com Ricardo quando a quarentena começou. Ele passou a ter muitas crises de ansiedade.
âEu fui bem sincera com ele sobre o que estava acontecendo. Explicava, na medida do possÃvel, de acordo com a idade dele, que a gente tinha que ficar em casa, porque tinha que se cuidarâ, contou a mãe. E o menino respondia que sentia falta de ir para a escola, de sair para passear, e, mesmo com o preparo de Gabriela para minimizar as mudanças, demorou para se adaptar à s novidades.
Evolução interrompida
Ricardo é um dos cerca de 52 mil alunos da Educação Infantil matriculados na rede pública de Manaus. Por lá, as aulas viraram um programa televisivo, oâEba! Vamos brincar!â, com 10 minutos de jogos e brincadeiras. Trata-se do projeto âAula em Casaâ, do governo do Estado, com transmissão em TV aberta e plataformas online para manter as atividades escolares.
A professora de Ricardo, Marcileia Briglia, perdeu um tio por conta da Covid-19, teve o irmão e o noivo infectados, por serem enfermeiros, e sentiu sintomas. O resultado do teste da própria Marcileia, no entanto, veio negativo. Ela é pedagoga e pós-graduada em Educação Infantil. Ainda que contrária ao retorno das aulas, não esconde a preocupação com o impacto na vida de milhares de alunos. Tenta complementar as aulas disponÃveis na televisão com outras atividades para seus alunos.
âNão conseguimos alcançar todas as crianças. Eu falo pela minha turma do segundo perÃodo. Tem pais que não têm TV, não têm internetâ, comenta a professora, destacando que algumas crianças só vão fazer alguma atividade à s 20h, quando os pais chegam do trabalho.
Ricardo tinha pouco tempo na Escola Municipal São Dimas, mas já estava acostumado e gostava de lá, principalmente das leituras na biblioteca e das aulas de educação fÃsica, conta a mãe. âEle é autista, então tem um pouco de dificuldade na interação. Num primeiro momento, pode ficar mais retraÃdo, mas, quando se sente à vontade, se solta e interageâ, explica Gabriela, que comemorava o fato de o filho se sentir acolhido e estar evoluindo na escola, antes do isolamento.
A professora também percebia esse desenvolvimento do menino. âNa sala de aula, ele tinha o tempo dele. Eu passava atividade para ele, orientava, e ele fazia. Eu respeitava o tempo deleâ, conta.
Na quarentena, Gabriela evita qualquer pressão por atividades escolares, considerando que o momento já é tenso o suficiente. A saudade dos colegas chega a tirar o sono no meio de algumas madrugadas. Ricardo demonstra ansiedade, mas não chega a pedir para sair de casa. O conforto que a mãe encontra é fazer planos em famÃlia para o futuro, quando tudo isso acabar.
Eles lembram como era ruim pegar ônibus lotado, o que deixava Ricardo nervoso. E encontraram momentos para diversão no quintal entre irmãos com a nova rotina sem escola e sem a terapia, que preenchiam todo o tempo. âTemos o privilégio de ter espaço em casa para brincar. Eles têm se divertido bastante, apesar de toda essa tensãoâ, ressalta a mãe.
O pai não pôde se manter isolado, então não está tendo contato com os filhos, apenas por videochamadas e do portão de casa, à distância.
A ideia de se programar por um longo perÃodo em casa ajudou a estabilizar as emoções da famÃlia toda. Gabriela não alimenta a expectativa pelo fim da pandemia, vai se rearranjando enquanto ela durar. Com pés nos chão e visão realista do problema, ela conscientiza as crianças.
âNas primeiras semanas, eu também tive algumas crises de ansiedade mas, com o tempo, quando eu fui me adequando à rotina, consegui me acalmarâ, admite Gabriela. Ela conta com os benefÃcios do auxÃlio emergencial e kit merenda da escola para se manter em isolamento.
O plano é continuar assim pelo menos até o fim deste ano. A missão é manter tudo sob controle, ainda que a vizinhança esteja em festa e as aglomerações, noticiadas nos telejornais. âAs crianças questionam quando veem nos jornais que as pessoas perderam o medo do vÃrus, mas a ameaça ainda está aÃâ¦â.
