âEu tive que fugir para ter acesso à educaçãoâ, conta Dourado Tapeba, liderança do povo Tapeba, localizado no municÃpio de Caucaia, no Ceará. Em 1972, aos 11 anos, ele fugiu para Itapipoca, a cerca de 150 quilômetros, para estudar. A única forma de comunicar o sumiço dele era por cartas, cuja demora em chegar corroborou para que o plano fosse realizado. Quase 50 anos depois, os indÃgenas do Ceará ainda precisam lutar para ter o direito à educação assegurado. Professores nunca foram efetivados na educação estadual e municipal.
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Atualmente o Ceará conta com 39 escolas estaduais indÃgenas e oito municipais, pertencentes a 14 etnias, distribuÃdas em 16 municÃpios. São mais de sete mil alunos matriculados da educação infantil ao ensino médio, além da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Embora o cenário pareça promissor, os professores indÃgenas lutam há mais de dez anos por um concurso público que assegure direitos para a categoria.
Os profissionais são contratados mediante seleção pública exclusivamente para o exercÃcio da docência. Ou seja, para o ensino. Essas orientações baseiam as ações da Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc). Devido à lei complementar 173, de enfrentamento à covid-19, os estados estão impossibilitados de ampliar seus quadros de servidores, admitindo apenas o número exato de concursados para suprir os cargos em vacância.
A discussão sobre concursos públicos para indÃgenas está paralisada há 21 anos. A pandemia tornou-se a desculpa da vez para não reabrir o debate. âMas, neste ano, houve o concurso para a polÃcia. Estamos desde 2000 tentando esse concurso, por isso acredito que seja morosidade, uma falta de vontade polÃticaâ, relata Thiago Anacé, professor e primeiro indÃgena a se tornar mestre no estado.
A Seduc recebeu representantes dos professores no dia 19 de agosto, que reivindicam não apenas um concurso público, mas melhorias para a categoria, que na pandemia assumiu mais turmas do que deveria devido à impossibilidade de contratação. Segundo a pasta, foi formada uma comissão para rever o processo e o edital para concurso público quando houver condição legal.
âOs professores contratados, por excepcional interesse público, conforme a legislação, recebem as remunerações estabelecidas em lei, o terço constitucional de férias, nos casos de contrato com um ano, e os respectivos recolhimentos previdenciários perante o Regime Geral de Previdência Socialâ, diz a secretaria, em nota.
Luta por concurso é histórica para professores indÃgenas
A educação indÃgena no Ceará começou na década de 1990. No entanto, somente em 2000, o Estado passou a reconhecer esse modelo de educação. âSe pensou uma estratégia: uma empresa para terceirizar a contratação dos professores indÃgenas, até porque a maioria não tinha a devida habilitação, não tinha licenciatura ou pedagogia. Depois disso, a Secretaria de Educação lançou os primeiros cursos de formação de professores para os indÃgenasâ, explica Thiago.
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Veja o que já enviamosâEsse concurso assegura 100% de professores indÃgenas, que conhecem a realidade dos nossos alunos, a cultura, tradição e história das populações indÃgenasâ, afirma Leidiane Tapeba, historiadora e diretora de uma escola indÃgena. Ela se tornou professora aos 14 anos, ensinando embaixo de um cajueiro para as crianças da comunidade.
âEu era uma das poucas pessoas na comunidade que estava cursando o ensino médio e, como muitos dos nossos jovens e adultos não tiveram a oportunidade de ir à escola quando criança, me convidaram para trabalhar na Escola Ãndios Tapeba, que contava com educação infantil e até a segunda série do fundamentalâ, conta.
Povos foram praticamente obrigados a construir escolas indÃgenas
Como tudo na trajetória indÃgena, a educação dessa população no Ceará também foi uma conquista por iniciativa própria. IndÃgenas que já sabiam ler e escrever, e possuÃam formação básica, tornaram-se professores voluntários. Desde essa época, vem a falta de direitos, já que eles não recebiam nada para ensinar a seus parentes.
A iniciativa teve como base o racismo sofrido pelos indÃgenas no ensino regular. A série de ataques preconceituosos se tornou a principal motivação para a construção de uma escola pelos e para os indÃgenas. âUma vez, a professora agarrou um indÃgena tapeba pelos cabelos e cortou na frente dos outros alunos. Até o nome do nosso povo era usado de forma pejorativaâ, conta Dourado. âOs alunos desistiam e não concluÃam a vida escolar por conta do preconceito muito forte, por conta do racismoâ, relata Thiago Anacé.
Nos primeiros anos das escolas indÃgenas, outros pontos de ensino eram quartos em casas de taipa cedidos por parentes, uma forma de a comunidade construir um futuro na educação. Os indÃgenas recebiam pequenas doações de folhas de fax que se tornavam cadernos, e os lápis eram quebrados em dois ou três pedaços, para que todos pudessem escrever.
Sem local adequado para o ensino
O Ceará possui 15 povos: Tapeba, Tremembé, Pitaguary e Junipapo-Kanindé, os primeiros a iniciar os seus processos de reafirmação étnica, ao longo das últimas décadas, seguidos pelos povos Potiguara, Kalabaça, Tabajara, Kariri, Tapuya-Kariri, Gavião, Tubiba-Tapuya, Anacé e Tupinambá, e mais recente pelo povo Karão. Cada uma dessas comunidades possui trajetórias e lutas que se entrelaçam, mas que não são iguais, pois cada povo possui sua própria identidade. Em comunidades de duas etnias, Tapeba e Anacé, as dificuldades do ensino permanecem.
Descalço e junto de sua bolsinha de palha, o ainda menino Dourado Tapeba chegou na estação de trem. Na época, o maquinista perguntou para onde ele ia, e ali nasceu uma grande mentira: âEu disse que minha mãe tinha me mandado ir para a casa da minha irmã para estudar, e ele me levou. Cheguei 2h da madrugada na casa dela, que me recebeu no susto perguntando o que eu tava fazendo ali. Tive que contar a mesma mentira.â
Enquanto o menino estudava, sua mãe pensava que ele havia sido raptado. Meses depois, quando o companheiro da irmã foi visitar a famÃlia, a senhora descobriu que o filho estava vivo e bem. Hoje com 60 anos, Dourado Tapeba conta orgulhoso essa história, mas com pesar: âNós conseguimos, com muita luta, construir uma escola indÃgena diferenciada, todos os funcionários são indÃgenas. E uma das minhas principais lutas foi formar meus filhos, que foram de professores voluntários a diretora e coordenadora.â
Por 15 anos, a Escola dos indÃgenas Tapeba funcionou em locais improvisados, com aulas ao ar livre, embaixo de árvores como o cajueiro, não por escolha pedagógica, mas por falta de amparo do governo. Em 2006, a primeira escola foi construÃda, prédio que em 2011 passou por um desabamento. O teto caiu, deixando 15 estudantes feridos. Após o episódio, foi reformado.
O inÃcio da educação diferenciada para o povo Anacé também foi semelhante, fruto de luta e organização polÃtica da comunidade indÃgena, que, desde o ano de 2002, milita em busca da consolidação da Educação Escolar IndÃgena para o povo.
âInicialmente, a escola funcionava em uma casa de taipa e contava com apenas duas salas. Posteriormente, no ano de 2005, a escola passou para um galpão de 9 x 12 metros, adaptado e dividido em quatro salas, uma cozinha, uma despensa, um banheiro e um pátio, que funcionava como biblioteca, almoxarifado, refeitório e sala da coordenação. Todas as cinco professoras eram indÃgenas Anacé e trabalhavam em regime de voluntariado, sendo a escola mantida através de doações dos pais dos alunosâ, explica Thiago.
Leidiane Tapeba reconhece que já houve investimento nas escolas indÃgenas, mas a maioria ainda funciona em espaços improvisados porque não atende toda a demanda: âAs salas de aula são em refeitórios, na sala dos professores, no almoxarifado. Algumas escolas continuam funcionando em casas alugadas.â Quando a reportagem questionou a secretaria sobre os investimentos feitos nas escolas, não obteve resposta.
Escola para valorização da cultura
Segundo Rita Potyguara, doutora em educação, os primeiros cursos de formação de professores indÃgenas surgiram em 2000, quando ainda havia o magistério em nÃvel médio. Muitos dos professores voluntários ainda não haviam concluÃdo o ensino básico e tiveram que cursar o EJA para agilizar suas formações.
Em 2005, o Ministério da Educação lançou o curso de Licenciatura Intercultural IndÃgena, que foi ofertado pela Universidade Federal do Ceará. à Rita quem discute qual a importância de ter uma escola para os indÃgenas principalmente para a preservação do âser indÃgenaâ, com a valorização das culturas, sem excluir as formações bases: matemática, português, história etc.
Para ela, o passado recente das vivências indÃgenas em escolas comuns mostra que as unidades não estão prontas para receber esses alunos, pois não existe a valorização cultural necessária que provoque o orgulho entre os alunos de se assumirem indÃgenas. âNós indÃgenas entendemos que o exercÃcio da docência e o gerenciamento das escolas indÃgenas devem ser feitos por nós, pois somos os mais habilitados para colocar em prática o projeto de escola diferenciadaâ, diz Rita.
Não se pode pedir licença do movimento indÃgena, aponta Thiago. Afinal, o movimento interfere e tem relações diretas com a forma de vida na comunidade. As demandas são urgentes e exigem que aqueles que atuam como lideranças estejam constantemente presentes e dando a sua contribuição para a comunidade. Por isso os povos indÃgenas cearenses sentiram a necessidade da construção de um espaço educacional que fosse a cara deles, relata o professor.
Não tinha prédio, mas tinha taipa: nasceu a escola. Não tinha caderno, mas tinha folha de fax, surgiu o caderno. âA categoria em que eu trabalho é lidar com vidas. Eu poderia não dar aula na escola indÃgena, mas eu tenho um compromisso e responsabilidade social com a nossa comunidade. Porque isso faz parte da comunidade, tenho vÃnculo e relação com o território, é muito amplo a forma que nos relacionamos com o lugar. Eu não estou aqui, eu faço parte disso. Não é o local onde moro, e venho dormir, é onde eu tenho vÃnculo. Por isso uma escola indÃgena é tão importante, porque nela meu aluno pode sentir orgulho de se dizer indÃgenaâ, argumenta Thiago.
*Esta reportagem foi produzida por meio do projeto Sala de Redação, desenvolvida pelo Ãnois, laboratório de comunicação que trabalha para impulsionar diversidade, representatividade e inclusão no jornalismo brasileiro.
