A história de Sônia Sissy Kelly pode ser semelhante a de outras travestis que precisaram encontrar nas ruas a sobrevivência. Assim como muitas, ela sentiu na pele toda a carga da intolerância e da consequente violação de direitos por sua identidade. Mas sua trajetória é única e revela marcas próprias. Contrariando estatÃsticas e seus algozes, conseguiu envelhecer – algo que para muitas de sua época seria um privilégio. Em seu aniversário de 65 anos, Sissy recebeu o #Colabora para a gravação do episódio especial de âLGBT+60: Corpos que Resistemâ – websérie do jornalista e roteirista Yuri Alves Fernandes. O que mais chama atenção em Sissy é que ela transformou todos os obstáculos da vida em bandeiras.
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âO que me move é ter conseguido viver. Eu sou uma vitoriosa. Eu passei pela prostituição, passei pelo HIV/Aids, pela hepatite viral. Eu passei por situação de rua, pelo uso de álcool e outras drogas e venci essas barreiras e estou aqui hojeâ, disse na entrevista feita um dia após a comemoração, em abril do ano passado. O vÃdeo só ficou disponÃvel agora e você pode conferir completo abaixo.Â
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Veja o que já enviamosâEu nasci no corpo certo, errado é o preconceitoâ
Mineira de Aimorés, Sissy cresceu em uma pequena comunidade de agricultores familiares com mais 13 irmãos. âSou uma bicha do matoâ, brinca. Nasceu em 1957 e já na infância percebia uma diferença em relação aos outros meninos. Um perÃodo sem amigos, já que não se sentia pertencente a nenhum grupo. âEu não nasci num corpo errado, eu nasci no corpo certo, errado é o preconceitoâ, afirma. Estudou pouco, pois precisou ajudar com o sustento da famÃlia.Â
A transição começou após sair de casa, aos 17 anos – ainda sem ter plena consciência do que estava acontecendo com seu corpo e sua mente. Mudou-se para Vitória (ES) onde começou a atuar como trabalhadora sexual. Mais tarde, foi convidada para trabalhar na Europa. De lá, vem as memórias mais prazerosas.Â
O que me move é ter conseguido viver. Eu sou uma vitoriosa […] Venci essas barreiras e estou aqui hoje.
Mas antes, no Brasil, de todas as lembranças negativas, tem a que mais gostaria de esquecer. Enquanto o paÃs vivia e resistia à ditadura militar, Sissy foi internada no Hospital Galba Velloso, instituição para pacientes psiquiátricos em Belo Horizonte. Lá recebeu tratamento com eletroconvulsoterapia ou eletrochoque. A primeira vez ainda era adolescente. Mais tarde, outras internações por se manifestar fora do padrão heterocisnormativo. Além do Galba Velloso, também foi parar no Instituto Pinel, no Rio. âPor pouco não fui parar em Barbacenaâ, diz se referindo ao Hospital Colônia de Barbacena, considerado o Holocausto Brasileiro.Â
âIsso foi uma das piores coisas que aconteceram na minha vida. Mas eu aprendi muita coisa ali, naquele submundo de pessoas doentes ou abandonadas por suas famÃlias por terem comportamentos diferentesâ.Â
âO HIV não foi meu inimigoâ
Entre o final dos anos 80 e inÃcio dos anos 90, já na Europa, Sissy passou a viver com HIV. Voltou para o Brasil e não só enfrentou a condição, garantindo seu direito aos medicamentos antirretrovirais, como fez dela mais uma bandeira: se filiou à Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids. Faz questão de trazer a temática sob a perspectiva da narrativa da vida e não da sentença de morte – ideia que ainda se perpetua até hoje.Â
âO HIV me salvou, me resgatou do fundo do poço, me ensinou a gostar e a cuidar mais de mim. A amar a vida e saborear as coisas em seus mÃnimos detalhes. O HIV não foi meu inimigo, é o meu amigo. à possÃvel envelhecer e ter uma vida normal. O que não é possÃvel é conviver com a sorofobiaâ.Â
Para ser âaceitaâ no seio familiar, passou adotar um estilo andrógino, voltando para o âarmárioâ. Mas logo reassumiu a identidade feminina. Desamparada pela famÃlia, Sissy fez uma longa jornada morando em diversas casas de apoio, de diferentes cidades brasileiras, após o ano de 1994. âFui acolhida em albergues masculinos geridos por lideranças religiosas que não aceitavam minha identidade de gênero. Tinha que dormir junto com homensâ, relembra. Também já viveu em situação de rua.Â
Retornou para Belo Horizonte em 2013, quando começou sua luta junto à população em situação de rua pelo direito à moradia e os direitos da população LGBT+. Em 2018, conheceu a Ocupação Carolina Maria de Jesus, em Belo Horizonte – endereço de um antigo hotel. Morou no espaço por mais de quatro anos. Foi no salão da Ocupação onde comemorou os seus 65 anos em um ato polÃtico, como ela gosta de frisar. Recebeu vizinhos, amigos e alguns parentes – com quem voltou a se aproximar. Além do bolo, parabéns e salgadinhos, uma roda de conversa sobre resistência. Todos os presentes, cerca de vinte pessoas, tiveram um momento para falar da importância da Sissy no enfrentamento de diferentes lutas sociais. Lutas que são para o presente e para o futuro. Â
âà um valor inestimável estar celebrando os 60 anos, apesar de não termos polÃticas públicas e sociais de acolhimento para pessoas trans e idosas. Eu não quero que minhas amigas que estão chegando aà venham a ter os mesmos problemas que eu estou tendo de envelhecer extremamente esquecida pelas polÃticas.â
âAcho que nasci para ser sóâ
O esquecimento também é sentido nas ausências fÃsicas. Sissy diz ser acompanhada pela solidão. No aniversário, esperava mais pessoas. âEu sou realmente muito só. Não foi a pandemia e nem a Ocupação que me deixaram só. Já sou só desde sempre, desde criança. Acho que já nasci para ser só. Mas eu tenho a mim, meus amigos, Deus e meus Orixásâ, pontua ela, que segue a doutrina espÃrita.Â
Não foi a pandemia e nem a Ocupação que me deixaram só. Já sou só desde sempre, desde criança. Acho que já nasci para ser só. Mas eu tenho a mim, meus amigos, Deus e meus Orixás.
Apesar de todas as adversidades em mais de seis décadas de vida, Sissy relembra com um sorriso no rosto os motivos que a fizeram e ainda a fazem celebrar. Faz questão de deixar cair por terra o imaginário coletivo de que a vida de pessoas trans ou de trabalhadoras sexuais é apenas sofrimento. Para ela, os momentos mais gratificantes estão nas coisas mais simples.Â
âContemplar o pôr do sol, o nascer do sol, as viagens, âôâ meu Deus! Que maravilha é viajar nacionalmente, internacionalmente…Comprar uma joia bonita, um perfume. Lembrar de que você teve no Corso Buenos Aires, em Milão. Que você passou dois verões em Rimini, na Itália, que você morou em Firenze, na Itália, que você morou em Madri e que você passou pela Alemanha, pela SuÃça, que você viajou à Europa de carona, como mulher! Esses momentos ficam guardados em nossa memóriaâ, conta ela que conseguiu se aposentar por invalidez e vive hoje com um salário mÃnimo + 25%.
âQue as pessoas não me esqueçamâ
Ao ser perguntada sobre seus sonhos, Sissy sorri e diz já estar fazendo hora extra. Para ela, estar viva já é um feito alcançado. Muitas amigas trans não conseguiram o mesmo. Afirma ter medo do asilo, âmas fazer o quê?â, aceita como quem já estivesse prevendo o destino. Meses depois do aniversário, Sissy se mudou para a instituição de longa permanência Cidade Ozanam, na capital mineira. De lá, ela, agora aos 66, gravou um vÃdeo e postou nas redes sociais. Fez um pedido, como quem acaba de soprar as velas ou partir um bolo: âQue as pessoas não me esqueçam e nem o que eu fiz pelo movimento LGBTQIA+â.
