Thais Seganfredo*
Candidatos por diferentes partidos no espectro polÃtico, 133 indÃgenas das etnias Guarani e Kaingang estão disputando as eleições para o cargo de vereador ou vereadora no ano de 2020 no Rio Grande do Sul. O número representa quase o dobro das eleições de 2016, quando 69 candidatos se declararam indÃgenas e 8 foram eleitos nos municÃpios do estado (somando-se ao Ãndice de 173 no Brasil).
A Kaingang Marili Bellini concorre ao cargo em Benjamin Constant do Sul. Estudante universitária, ela apresenta um plano com propostas tanto para as famÃlias Kaingang quanto para as Guarani no municÃpio. âComo mulher indÃgena, sabia das dificuldades que iria enfrentar, mas decidi encarar e mostrar que a mulher precisa conquistar espaço junto à sociedadeâ, contou à reportagem por conversa via aplicativo de mensagens. âQuero ser a primeira mulher que luta pelos direitos de igualdadeâ, completou.
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Veja o que já enviamosRosangela Muller Lenhane, Kaingang, é candidata no municÃpio de Redentora e também carrega a bandeira da representatividade das mulheres. âResolvi me candidatar porque percebo há anos que nós mulheres estamos esquecidas e nunca tivemos uma mulher no legislativo daqui para nos representar e defender os direitos das mulheres indÃgenas e não indÃgenasâ, destacou. As duas candidatas estão entre as 53 mulheres indÃgenas concorrendo ao legislativo no estado este ano.
Entre as cidades que mais apresentam candidatos indÃgenas no Rio Grande do Sul, de acordo com levantamento da reportagem, Redentora se encontra na primeira posição, com 26 candidatos, seguida de São Valério do Sul e Charrua, com 12 e 11 candidatos, respectivamente. Este ano, 2.208 indÃgenas estão concorrendo ao Legislativo no Brasil todo. O Rio Grande do Sul é um dos estados com maior número de candidaturas nos municÃpios, atrás de estados como o Amazonas (497), Mato Grosso do Sul (218) e Roraima (148) e à frente do Pará e Mato Grosso, por exemplo.
Para a servidora do TRE-RS Flavia Falcão, além do alto número de municÃpios no estado (são 497 ao todo), fatores culturais ajudam a explicar o número significativo de candidaturas principalmente dos Kaingang nas cidades gaúchas. âOs Kaingang apresentaram uma capacidade de adaptação e estabelecimento de diálogos interculturais excepcional, apesar de sempre muito aguerridosâ, diz. Em cidades como Redentora e Tenente Portela, essa representatividade se intensifica, uma vez que ambas as etnias representam 88% e 19,6% do eleitorado destes municÃpios, respectivamente.
Flávia, mestre em Direito pela Fundação Escola Superior do Ministério Público, apresentou em sua dissertação um estudo sobre os direitos polÃticos dos povos indÃgenas do Brasil, com foco tanto nas candidatos quanto nos eleitores. âEsse é o reflexo também de uma tomada de consciência étnica: as pessoas que antes constrangiam-se, agora autodeclaram-se indÃgenas com orgulho, sinal de enfraquecimento da mentalidade colonial que ainda nos controla. Demonstra o fortalecimento da articulação polÃtica dos povos indÃgenas e a conscientização de que ninguém, além dos próprios indÃgenas, pode falar, legislar e executar por elesâ, analisa.
Saúde e educação são as principais áreas citadas pelos candidatos que entrevistamos, que apresentaram propostas concretas principalmente para suas comunidades. Adilson Vergueiro, conhecido como Banha, se candidatou ao Legislativo em Engenho Velho, segundo ele, depois de pedidos da própria comunidade. Motorista particular, Banha também é uma das lideranças Kaingang de uma comunidade localizada na Reserva Serrinha, que abrange 360 famÃlias. âA gente vai trabalhar em melhoria para nossa comunidade, que hoje é grande parte do municÃpio. Aqui a maior necessidade é a educação e por isso vou em busca de emendasâ, afirmou.
Já Silvio da Cruz, de Charrua, traz uma demanda básica na área da saúde e do saneamento. âO mais urgente aqui é a questão da água, que não é suficiente para a demanda do nosso povo indÃgena. Seria a primeira coisa que eu iria atrás. Sem água não tem saúdeâ, disse Silvio, contando que a valorização da cultura indÃgena e do artesanato também integram sua agenda. Ele é o único entre os entrevistados pela reportagem a contar com recursos financeiros de repasses do fundo eleitoral, segundo o site do TSE. Conforme apuramos a partir da plataforma 72 horas, até o momento pouco mais de R$ 45 mil reais foram repassados dos fundos eleitorais a candidatos indÃgenas no estado.
A falta de verba para as campanhas é um dos principais obstáculos que impedem os candidatos de serem eleitos de fato. âSão barreiras ao exercÃcio do direito de ser votado por indÃgenas o alto custo de uma campanha eleitoral e a dificuldade em encontrar doadores a candidatos indÃgenas, o que torna as eleições municipais muito mais atrativas, uma vez que mais baratasâ, explica a mestre em Direito Flávia Falcão.
Além disso, apesar dos avanços, ainda falta muito para que os indÃgenas brasileiros exerçam plenamente seu direitos de votar, uma vez que, como explica Flávia, muitas terras indÃgenas não têm número suficiente de Seções Eleitorais. Ela alerta ainda para o risco de reversão da jurisprudência quanto ao direito dos indÃgenas se candidatarem sem precisarem estar alfabetizados em português, o que é entendido como legal desde 2008 por decisão do TRE-MT.
*Nonada – Jornalismo Travessia
