(Vicenza, Itália) – Era uma manhã chuvosa e cinza de uma segunda-feira de junho, nem parecia que estávamos em pleno verão italiano, quando Bia* abriu a porta do pequeno apartamento em que vive na periferia de uma grande cidade da região do Vêneto. Alta, cabelos castanhos recolhidos, de fala mansa e olhar sofrido, ela, que tinha acordado há poucas horas, abriu a janela da varanda, colocou um casaco por causa do ar gelado da chuva que entrava, se acomodou em uma das duas cadeiras da mesa da cozinha e começou a falar. Queria contar sua história de vida de mulher trans regada por um passado de dor e um presente de esperança. Hoje ela vive na Itália como refugiada. Conseguiu provar à comissão que concede os vistos que sua história de vida poderia ter um final de morte se ela voltasse à sua terra natal, pois o Brasil é o paÃs que mais mata trans no mundo. Segundo dados elaborados pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), somente no primeiro semestre deste ano, 80 foram assassinadas. Em 2020, foram 175.
Leu essa? LGBT+60: Ãngela e Wilmann realizam sonho e se casam após 26 anos juntas
âO Brasil não cabia mais em mim ou eu não cabia mais nele. Eu vivia com medo de ser mortaâ, disse Bia, que, como a maioria das trans, também trabalhava nas ruas. Conheceu as calçadas das principais avenidas de várias cidades do interior de São Paulo, Minas e Paraná. Durante o dia, eram lugares de passagem marcados pelo vai e vem de gente e pelo barulho infernal do trânsito ou de alguma britadeira que escavava o pavimento, a noite baixava o silêncio, todo a algazarra desaparecia e ela, junto com as amigas, entrava em cena. Aquele pedaço de asfalto lhe pertencia. Era dali que tirava o seu ganha-pão.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosMas Bia era gentil, nunca foi uma pessoa violenta e aquela violência cotidiana tinha apagado o pouco do sorriso que ainda lhe restava da infância. Até as lantejoulas dos vestidos que usava para o trabalho não brilhavam mais. Diante da morte com requintes de crueldade que tomou a vida de tantas amigas pelas mãos de assassinos transfóbicos, a única possibilidade de sobrevivência era sair do paÃs sem olhar para trás. âEu não era protegida, sou muito nova para morrer. A expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 35 anosâ, disse com olhar cabisbaixo que fixava a mesa da cozinha.
Vida rodeada de morte
âSabe, fiquei pensando, aqui ninguém vai me ajudar, uma amiga minha trans morreu sem ter feito nada, ela era só uma menina que dormia o dia todo esperando chegar a noite, se arrumava e ia para rua trabalhar para ter seu dinheiro, mas morreu porque alguém, simplesmente, não gostava de trans ou gostava e se sentiu com a masculinidade fragilizadaâ.
Bia é uma mineira nascida em Passos, 29 anos atrás. Poliana é o nome da amiga que morreu em 2016 de morte matada, em Alagoas. Se conheceram em Curitiba. Poliana tinha ido visitar a famÃlia sem saber que aquela passagem de avião paga pelo namorado seria só de ida. Ela foi esfaqueada. Natalia, original de Franca, interior de São Paulo, foi morta a tiros na capital paranaense. Ela e Bia se conheceram em Ribeirão Preto e se reencontraram na âcidade mais linda do Brasilâ, disse. âEla foi levada para um terreno baldio, deram 5 tiros e a deixaram ali, se esvaindo em sangueâ. E tem a Lana, do Ceará, que detestava a vida que levava, a prostituição. Elas se conheceram em Ribeirão, e foi lá que, em 2012, Lana deu o último suspiro. âUm dia foi atender um cliente que a levou para um lugar isolado, primeiro ele passou a faca nos tendões dela, assim não podia se movimentar, depois ele a esfaqueou e a deixou lá morrendoâ.
[g1_quote author_name=”Bia, nome fictÃcio” author_description=”Mulher trans que vive como refugiada na Itália” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O Brasil não cabia mais em mim ou eu não cabia mais nele. Eu vivia com medo de ser morta
[/g1_quote]Este ano foi a amiga Milena que partiu. âMorreu nas mãos de um psicopata. Era um cliente, o levou para dentro de sua casa, ele a esfaqueou e a deixou sangrando. Como estava sujo de sangue, se lavou, trocou de roupa, ligou a televisão, trancou a porta do apartamento e foi emboraâ, contou com a voz trêmula e o choro sufocado na garganta. Toda essa matança chegou cedo na vida de Bia. Aos 16 anos, quando começou a viajar e frequentar as primeiras calçadas da vida – era o inÃcio de sua transição – conheceu Júlia, a primeira amiga, de quem tudo foi tirado: a vida, o respeito e a dignidade. Porque quando uma trans morre, geralmente, é morte bruta. Júlia foi levada para uma casa abandonada, torturada por 3 dias e depois assassinada.
âElas não eram marginais e sim marginalizadas pela sociedade. Eram pessoas que tinham sonhos, algumas eram ligadas à famÃlia, o comentário mais comum entre elas era: preciso mandar um dinheiro para a mãezinha.â
A vinda para Itália
Era 2018,  quando ela começou a pensar em vir para a Itália, a violência estava aumentando e se aproximava cada vez mais de Bia. No começo era somente um papo que havia levado com um amigo de Ibitinga, última cidade em que residiu antes de vir para o paÃs europeu, mas virou realidade. âSabemos qual é o giro que temos que fazer quando queremos ir para o exterior, geralmente não temos verba para isso, então nos deixamos levar por um esquema que depois é muito difÃcil de conseguir sairâ, conta Bia.
“Você contata por telefone uma pessoa que já mora fora do paÃs, ela te seduz, diz que você vai ganhar em euros, vai conseguir ajudar a tua famÃlia, que vai ficar mais bonita porque vai colocar silicone, peito, arrumar os cabelos, enfim, tudo isso por 11 mil euros. Nesse valor está incluÃdo o valor da passagem, mas chegando no outro paÃs, você ainda precisa pagar a semana para a patroa da casa que te acolhe e geralmente são 250 euros. E a patroa é quem gerencia sua vida. Ela fica com teu celular pois você não fala a lÃngua local e não é capaz de marcar os programas. Você fica presa nesse esquema até pagar sua dÃvida, depois é cada um por siâ, explica.
Bia chegou na Itália há 3 anos. Ela teve a sorte de ter um amigo que lhe ajudou a vir com seu próprio dinheiro. A escolha do paÃs não foi aleatória, ela conhecia uma trans que já morava aqui e achou que seria mais fácil todo o processo de adaptação e conhecimento. Ela não teve que se endividar com a passagem, mas o pagamento semanal da casa na cidade de Trieste, onde ficou inicialmente, era regra e não exceção. Foram 350 euros por semana. Tudo ia bem até que ela e uma amiga foram pegas durante uma batida de polÃcia. A amiga estava sem documentos, mas Bia ainda tinha o visto de turista. A situação acabou ficando comprometida na casa onde moravam e Bia teve que seguir seus passos sozinha.
[g1_quote author_name=”Bia, nome fictÃcio” author_description=”Mulher trans que vive como refugiada na Itália” author_description_format=”%link%” align=”right” size=”s” style=”simple” template=”01″]As pessoas não gostam da gente, alguns nos suportam, mas pelo menos aqui ninguém te mata. Aqui na Itália eu saio para trabalhar pensando no trabalho, no Brasil eu saia rezando para voltar para casa viva
[/g1_quote]Foi quando chegou na periferia de uma grande cidade localizada no norte do paÃs, na região do Vêneto, onde mora até hoje. Como o visto de turista dura somente três meses, Bia passou a viver na clandestinidade; sabia que se fosse pega pela polÃcia, seria expulsa do paÃs. E foi o que aconteceu. âUm dia fui levada para a delegacia e me deram a expulsão. Liguei para um amigo advogado e ele me deu o número de Chiara e ela me ajudou. Ironia do destino, foi graças a expulsão que hoje estou livre e documentadaâ, disse. âAté então eu sempre tinha visto a polÃcia como inimiga, eu não tinha informações, não sabia que podia pedir asilo. A gente quando fica ilegal só pensa em não ser deportado.â
Para Bia, a transfobia também é um problema na Itália. âAs pessoas não gostam da gente, alguns nos suportam, mas pelo menos aqui ninguém te mata. Aqui eu saio para trabalhar pensando no trabalho, no Brasil eu saia rezando para voltar para casa vivaâ, comenta. âAgora que estou regularizada quero realizar meus sonhos, quero fazer um curso de esteticista e maquiadoraâ.
Bia sabe do peso polÃtico do documento que tem em mãos e deseja que sua história sirva de inspiração para outras pessoas trans brasileiras. âA falta de informação nos faz passar por situações desnecessárias. Hoje eu sei que é possÃvel pedir asilo por condição sexualâ, finaliza a mineira.
Segundo dados do Ministério do Interior italiano, o Brasil representa somente 1% dos pedidos de asilo apresentados no paÃs. Por não estar entre as primeiras nacionalidades, não há dados especÃficos sobre as concessões de vistos humanitários, sendo impossÃvel saber quantas pessoas LGBT+ existem entre os requerentes de asilo e entre aqueles que são reconhecidos como refugiados.
Conforme o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), uma pessoa LGBT+ pode pedir asilo se for perseguida pelo Estado que a criminaliza, mas também por sofrer perseguições da famÃlia, de criminosos ou de uma comunidade em sentido amplo. Talvez o fato de o Brasil liderar o ranking de paÃses que mais matam trans no mundo tenha convencido a comissão italiana a conceder o visto de refugiada para Bia, abrindo assim um precedente para que outras pessoas trans brasileiras peçam asilo ao paÃs.
(*) Bia é um nome fictÃcio, criado para proteger a brasileira que hoje vive como refugiada na Itália

Mulher trãns é uma construção social. Este substantivo nega a biologia, por isso o tema correcto é “transsexual”.
Mulher é uma pessoa adulta do sexo feminino, depois da puberdade.