Primeira transexual a competir na Superliga, principal campeonato de vôlei do Brasil, Tiffany Abreu se transformou em pauta para discussões exaltadas no mundo esportivo e também nas redes sociais. Mas, para além da polêmica, a jogadora da equipe Vôlei Bauru é também um exemplo e uma inspiração para outros atletas trans que sonham com uma carreira no esporte. à o caso da jogadora de vôlei de praia Carolinna Lissarassa, que se prepara para representar o paÃs na 10ª edição dos Gay Games, de 4 a 11 de agosto, em Paris, com a participação de 15 mil atletas de 70 paÃses em 500 provas de pelo menos 36 esportes.
[g1_quote author_name=”Carolinna Lissarassa” author_description=”Jogadora de vôlei de praia” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Tiffany é supermerecedora, porque, independentemente de ser transexual, apresenta um vôlei de qualidade. Ela está aà para mudar a cabeça de muita gente
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Veja o que já enviamosâTiffany é supermerecedora, porque, independentemente de ser transexual, apresenta um vôlei de qualidade. Se está dentro da taxa normal de hormônio feminino, tem direito de jogar. Somente quem não conhece o assunto tem preconceito. Ela está aà para mudar a cabeça de muita genteâ, argumenta Carolinna, rebatendo as crÃticas de quem acha que Tiffany leva vantagem sobre as outras jogadoras por ser trans.
Preconceito não é novidade na vida dessas atletas. Carolinna conta que, desde criança, já se reconhecia, apesar do seu corpo masculino.
âEu já usava vestidinhos, sapatos de salto. No colégio, havia fantasias femininas para a brincadeira, e eram as que eu usava. O pessoal da escola chamou minha mãe para conversar, e meus pais mostraram certa relutância no inÃcioâ, lembra a atleta, de 27 anos.
Da infância, ela traz também o amor pelo vôlei, que sempre correu em paralelo ao seu processo de transição de gênero.
âComecei no vôlei no colégio, com meus 11, 12 anos. Jogava em times de heterossexuais, sempre na ponta. Aos 18 anos, primeiro me assumi homossexual e, aos 22,  comecei a fazer a transição. Nos últimos três anos, já uma mulher trans, passei a jogar em competições femininasâ, explica, acrescentando que para fazê-lo, teve de passar por exames que comprovaram as taxas hormonais femininas.
Hoje, como há poucas oportunidades para atletas trans, a gaúcha precisa conciliar o esporte com o trabalho de cabeleireira em Chapecó  (SC). Mas isso não a desanima ou a faz pensar em desistir. Em novembro, ela fez dupla com Juliana, oito vezes campeã mundial e medalhista bronze nos Jogos OlÃmpicos de Londres, em 2012. A partida foi na 1ª Copa Juliana, em Porto Alegre, voltada para promover a diversidade.
âCostumava aplaudir a Juliana da arquibancada e, depois, me vi jogando um torneio ao lado delaâ, diz Carolinna, que vem disputando torneios de vôlei de praia na Região Sul do paÃs. Â
Juliana, na época, também comemorou a parceria com Carolinna em seu perfil no Instagram: âComeçou com um convite de um grande amigo. Passados muitos anos e inúmeros campeonatos e experiências, Brasil e mundo a fora, a gente “acha “, que já viveu e viu tudo na vida certo ??? Supererrado, a vida é mágica, pq todos os dias temos a chance de aprender, meu grande mestre, meu pai, me ensinou a RESPEITAR TUDO E A TODOS, pois bem, minha parceira desse campeonato chama-se Carol Lissarassa , ela é uma trans, que já ralou e rala muito na vida, estou aprendendo muito com ela, independentemente de cor, credo, raça, religião, opção sexual, todos merecem ser felizes e serem respeitados. O esporte sempre será um caminho de inclusão. Por esse motivo, seja bem vinda Carol e todos os que amam o esporte. O mundo precisa de mais amor e compreensão, sejamos felizes.â
Carolinna, agora, espera poder jogar ao lado de Juliana nos Gay Games, que são abertos não só a atletas LGBT+. O evento de Paris será o mais inclusivo possÃvel, com a participação de também heterossexuais e pessoas com deficiência de qualquer orientação sexual,  sob a supervisão do Comitê OlÃmpico e da Federação de Esportes ParalÃmpicos franceses. O estádio Jean Bouin será o palco da abertura, a 4 de agosto. O encerramento, no dia 11 seguinte, acontecerá Hôtel de Ville, a prefeitura da capital francesa.
Gay Games: todos estão convidados
O Comitê Desportivo LGBT do Brasil, em parceria com uma empresa privada, a EspÃrito Brasil, trabalha para levar a maior equipe possÃvel para Paris. Fundado em 2008, o comitê tem representações em 15 estados. O Brasil toma parte dessa competição desde a edição de 1996, em Amsterdam, mas os atletas iam por iniciativa própria. Os Gay Games foram iniciados há 32 anos e são abertos a qualquer pessoa que se inscrever. São uma celebração à inclusão, bem diferente dos Jogos OlÃmpicos, que são fechados a atletas de altÃssimo nÃvel, que participam de seletivas para chegar à s provas. Além das modalidades esportivas mais comuns, outras, como ‘pink flamingo’, com competições aquáticas em que os atletas participam fantasiados.Â
[g1_quote author_name=”Ãrico dos Santos” author_description=”Precisente do Comitê Desportivo LGBT” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Queremos levar 100 atletas, porque o Brasil jamais passou dos 30 representantes
[/g1_quote]âCom o nosso comitê, a primeira participação foi em Cleveland-2014. Queremos levar 100 atletas, porque o Brasil jamais passou dos 30 representantesâ, diz o presidente do comitê, Ãrico dos Santos, que pretende convidar também brasileiros residentes na Europa.
Uma das esperanças do comitê é poder contar com três times de atletas da primeira edição  da Champions Ligay, campeonato de futebol gay do Brasil, disputado em novembro, no Rio. Além dos campeões, os mineiros do Bharbixas (MG), participaram  BeesCats (RJ), Unicórnios (SP), FuteBoys (SP), CapiVaras (PR), Bravos de BrasÃlia, Alligators (RJ) e Sereios (SC). Â
Caso integre a delegação verde e amarela em Paris, Carol diz que será a realização do sonho de uma vida inteira, uma vitória sobre todos os obstáculos que dificultam o acesso da comunidade LGBT+  à universidade ou aos bons postos no mercado de trabalho e também uma superação do permanente risco de ser vÃtima da violência: Â
âSe eu conseguir ir aos Gay Games, estarei  representando muita gente da minha gente, acima de tudo as transexuais que vivem à margem da sociedade, os meus amigos, os meus incentivadores, a própria Ju. Sei que o mundo dá muitas voltas, e quero dar todas as voltas que o mundo me proporcionar.â
