(Aline Vieira Costa*) – Como criar uma comunicação eficaz para o enfrentamento ao assédio e à violência sexual de crianças e adolescentes no Brasil, paÃs em que mais de 17 mil adolescentes de até 14 anos foram mães, segundo dados preliminares do Sistema Ãnico de Saúde (SUS)? No projeto Meninas em Movimento, a estratégia é que as próprias jovens sejam as protagonistas no planejamento de todo o conteúdo da campanha de comunicação âNão Brinque com meu Direitoâ, lançada para sensibilizar comunidades sobre as violações dos direitos. âJá vi vários casos de adolescentes que se calam porque dizem que têm medo de acontecer algo pior”, conta Katheryne Vitória, de 15 anos, moradora do Engenho Massangana, no municÃpio pernambucano do Cabo de Santo Agostinho.
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Katheryne acredita que a comunicação pode ajudar outras meninas. “Sei que posso fazer postagens, ajudar, conversar, entender aquela pessoa, chegar e dizer: âconversa com seu responsável, com um adulto de confiança, se você quiser, você mesma presta queixaââ, afirma a adolescente, participante do projeto Meninas em Movimento, iniciativa que tem como objetivo central defender os direitos de crianças e adolescentes, promovendo equidade de gênero e igualdade étnico-racial no Recife, Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, no litoral sul de Pernambuco.
Tenho vontade de gravar vÃdeos influenciando pessoas a prestarem atenção no que está acontecendo de errado no mundo porque, enquanto a gente está aqui segura, tem pessoas lá fora sofrendo
Desenvolvido pela pela ActionAid, em parceria com as organizações Casa da Mulher do Nordeste, Centro das Mulheres do Cabo e Etapas e com patrocÃnio da Petrobras, o projeto Meninas em Movimento foi lançado no ano passado para promover ações de comunicação realizadas por e para adolescentes. A campanha âNão Brinque com meu Direitoâ busca, com a participação das meninas, levar em conta os padrões sociais da vida pessoal e a forma como elas se relacionam entre si e com o mundo.
A campanha espera que as mensagens de enfrentamento possam alcançar muito mais pessoas, por meio das redes sociais das próprias adolescentes participantes do projeto Meninas em Movimento. âTenho vontade de gravar vÃdeos influenciando pessoas a prestarem atenção no que está acontecendo de errado no mundo porque, enquanto a gente está aqui segura, tem pessoas lá fora sofrendo, e a gente não gosta de ver issoâ, conta Beatriz Amorim, de 11 anos, moradora do Ibura, na periferia do Recife, acrescentando que gostaria de construir um mundo melhor tanto ajudando meninas de dentro e de fora do projeto a se defenderem do mal que muitos homens, principalmente, estão causando, como também melhorando a situação das pessoas em outras áreas da vida.
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Veja o que já enviamosO planejamento da campanha âNão Brinque com meu Direitoâ está sendo realizado em parceria com a Angola Comunicação, agência que trabalha especialmente com movimentos sociais e organizações da sociedade civil. “A metodologia utilizada é colaborativa e baseada na escuta, pois a comunicação a ser construÃda tem sempre que representar quem está querendo se comunicarâ, explica Anna Terra, coordenadora de Comunicação da Angola, acrescentando que a agência entra apenas como um instrumento de materialização da campanha, pois a ideia é que as próprias meninas deem o tom e sinalizem as mensagens que devem ser transmitidas.
O processo de escuta é feito tanto com as Meninas em Movimento, quanto com as organizações parceiras participantes do projeto. Entre as adolescentes, a escuta foi realizada por meio de uma oficina, realizada em junho, que proporcionou o primeiro encontro entre as meninas dos diferentes territórios do projeto, um intercâmbio que contou com a participação de 16 representantes, que puderam conhecer realidades distintas, além de criar e fortalecer laços.
Entre os temas debatidos, as meninas responderam a uma série de perguntas sobre como se comunicam, onde se comunicam, o que comunicam, quais redes sociais e meios de comunicação usam. Com a coleta, é possÃvel definir canais de comunicação e territórios de conteúdo, que são os temas que vão nortear a criação de peças gráficas e informativas para redes sociais, vÃdeos, site, entre outros. âA gente quer ouvir como a comunicação ocorre a partir da ótica delas e dar insumos para que esses assuntos ganhem o mundo não só nas redes como fora das telas, pois nem só de cards para Instagram vive a comunicaçãoâ, destaca Anna.
A campanha acaba sendo um estalo sobre como elas podem usar as redes de outra forma para orientar outras meninas, para mostrar que elas têm direito a voz e que podem contar a história delas de forma diferente
As adolescentes chegam ao planejamento da campanha vindas de um processo de formação polÃtica que acontece também dentro do projeto Meninas em Movimento, a partir das diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Nesse aprendizado, elas dialogam sobre direitos como saúde, educação, esporte e lazer em suas vivências em comunidade. âEsse é só o inÃcio da preparação para fortalecê-las para a fala pública, por meio da apropriação de conhecimentos sobre como elas podem melhor intervir na comunidade, nos meios de comunicação, nos espaços de incidência polÃtica, sabendo que essa fala fortalece o sujeito de direitos como agente transformador na comunidadeâ explica Flávia Lucena, educadora técnica do Centro das Mulheres do Cabo, que atua com meninas dos municÃpios de Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca:
As Meninas em Movimento vêm de vivências diferentes: umas são de origem urbana, e outras, do meio rural. Com visões de mundo diversificadas, elas observam diferenças e semelhanças para que, nessas trocas, elas possam construir e se apropriar da campanha âNão Brinque com meu Direitoâ para sensibilizar as comunidades quanto à s violações de seus direitos.
No projeto, ainda para fortalecer a comunicação, as meninas participarão de cursos de MÃdia e Advocacy e Digital Influencer, justamente para trabalhar essa voz pública. âPrimeiro, elas vão compreender quem são elas dentro dessa comunicação, seja a comunicação com elas mesmas, entre elas, com o corpo delas, com as famÃlias, a comunidade, que parte da comunicação desde o tête-à -tête, para depois elas pensarem o digital influencer: âtá, eu também sou influenciadora dentro dessa loucura toda que são as mÃdias digitaisââ, detalha Anabelly Brederodes, educadora da Casa da Mulher do Nordeste,
A educadora social Sintia Alves, também do Centro das Mulheres do Cabo, conta que é possÃvel ver, no processo, que as meninas acabam perdendo um pouco do medo de falar em público, quebrando um pouco desse silêncio e começando a se posicionar. âA campanha acaba sendo um estalo sobre como elas podem usar as redes de outra forma para orientar outras meninas, que multiplicam essa informação, para mostrar que elas têm direito a voz e que podem contar a história delas de forma diferente. Uma história na qual elas não sejam vÃtimas e possam construir e decidir o que querem na sua vidaâ.
*Aline Vieira Costa é jornalista com especialização em Educação Ambiental e Sustentabilidade e em Jornalismo Independente; produz e apresenta 0 programa Pegada 2030 na Rádio Frei Caneca FM, rádio pública do Recife.
