[g1_quote author_name=”Adriana Ramos de Mello” author_description=”juÃza titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ)” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Leu essas? Confira as outras reportagens da série âUm vÃrus e duas guerrasâ
O feminicÃdio é a melhor tradução de um crime de poder sobre os corpos femininos
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Veja o que já enviamosO ano de 2021 começou no Rio de Janeiro evidenciando uma herança maldita que vem se perpetuando anos após anos, um misto de patriarcado, machismo estrutural e desigualdade de gênero. “O feminicÃdio é a melhor tradução de um crime de poder sobre os corpos femininosâ, pontua Adriana Ramos de Mello, juÃza titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). Nem mesmo a pandemia da covid-19 conseguiu arrefecer a morte de mulheres sem nenhuma outra causa aparente além do simples fato de serem mulheres. Foi assim com Bianca, Viviane, Mayara, Roberta…
Histórias de amor que terminaram em tragédia mataram 77 mulheres no estado do Rio de Janeiro em 2020, segundo levantamento do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ). O resultado consolidado do ano passado representou uma queda de 9% em relação a 2019, quando 85 mulheres foram vÃtimas de feminicÃdio no estado. Desde março, quando começou o perÃodo de isolamento social no estado devido à pandemia da covid-19, até dezembro, 65 mulheres foram assassinadas por seus parceiros no Rio de Janeiro, contra 77 mulheres no mesmo perÃodo de 2019.
Com três casos de feminicÃdio ocorrendo por dia durante a pandemia, o Rio de Janeiro ficou entre os dez estados que registraram queda no número de mortes de mulheres no perÃodo de março a dezembro de 2020. A divulgação do terceiro balanço da série de reportagens Um vÃrus e duas guerras incluiu dados de 25 estados, onde vivem 94% da população feminina brasileira.
O total de feminicÃdios no Brasil durante a pandemia somou 1.005 casos, uma queda de 3% em relação ao mesmo perÃodo de 2019, quando 1.031 foram assassinadas. A cada sete horas uma mulher foi morta vÃtima de feminicÃdio. O levantamento é uma parceria colaborativa entre as mÃdias independentes Amazônia Real, Azmina, #Colabora, Eco Nordeste, Marco Zero Conteúdo, Ponte Jornalismo e Portal Catarinas.
A análise dos dados de violência doméstica contra a mulher no Rio de Janeiro apresenta diferenças, dependendo da fonte de informação. O ISP-RJ, por exemplo, trabalha com números provenientes de inquéritos, enquanto o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) levanta dados a partir dos processos penais de feminicÃdio.
A análise de processos de feminicÃdios julgados pelas câmaras criminais do TJ-RJ indicou, por exemplo, que 74% das mulheres assassinadas no estado em 2020 eram mães.  As vÃtimas tinham entre 25 e 45 anos, a mesma faixa etária dos agressores. Mais da metade dos homens usava algum tipo de droga ou medicamento. E 90% deles tinham vÃnculo Ãntimo com as mulheres que mataram, sendo que 39% moravam com as vÃtimas.
As tentativas de feminicÃdio somaram um total de 30 em 2020, também um pouco menos da metade das registradas no ano anterior, quando o TJ-RJ computou 67 tentativas de feminicÃdio.
Ainda que tanto o feminicÃdio quanto a tentativa de feminicÃdio tenham tido queda em tempos de pandemia, a violência doméstica contra a mulher no Rio de Janeiro só aumentou. O TJ-RJ emitiu um total de 28.894 Medidas Protetivas de Urgências (MPUs), um número ligeiramente abaixo do de 2019 (29.451), mas superior a todos os outros, desde 2013. O número de prisões realizado com base na Lei Maria da Penha somou 1.978, um total abaixo do registrado em 2019 (2.039), ainda assim bem superior ao dos anos anteriores, desde 2013.
O ciclo da violência doméstica contra a mulher pode começar com uma ameaça, um xingamento, um insulto, um empurrão… Ao primeiro sinal dessa violência, alerta a juÃza, é preciso buscar ajuda: âO feminicÃdio é uma morte evitável, já que a Lei Maria da Penha é completa, tem várias medidas de prevenção, assistência e proteçãoâ. Muitas mulheres, no entanto, preferem sofrer caladas, por medo ou vergonha de denunciar seus parceiros. O silêncio acaba levando a uma escalada do ciclo de violência.
Dados do ISP-RJ apontam que, durante o perÃodo da pandemia, o número de vÃtimas de crimes sob a Lei Maria da Penha caiu de 58.182, entre 13 de março e 31 de dezembro de 2019, para 45.429 para o mesmo perÃodo no ano passado. Aumentou, no entanto, o número de denúncias. O número de ligações do 190 sobre crimes contra a mulher pulou de 62.300, em 2019, para 65.942, no ano passado.
A morte da juÃza Viviane Vieira do Amaral Arronenzi, assassinada a facadas pelo ex-marido na frente das três filhas, na véspera do Natal, é a prova de que não importa a profissão, a classe social, a cor da pele… Ainda que tenha sido tão grave quanto todas as outras 76 mortes registradas no estado, em 2020, o feminicÃdio praticado contra uma agente da lei passa um recado aterrador para a sociedade. Se o algoz tem coragem de matar uma juÃza, que, por profissão, veste a toga para coibir crimes, o subtexto deste assassinato é que mulheres mais vulneráveis correm ainda mais risco. O crime provocou um movimento de repúdio encabeçado por manifesto assinado por centenas de juÃzas.
[g1_quote author_name=”Adriana de Mello” author_description=”JuÃza do TJ-RJ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O feminicÃdio é um crime de poder, de decisão sobre vida e morte que muitos homens julgam ter sobre os corpos femininos. Nem mesmo a presença dos filhos na cena do crime intimida o agressor, afinal ele já anulou a vontade da vÃtima
[/g1_quote]JuÃzas, catadoras de lixo, dentistas, donas de casas, médicas… A violência doméstica é uma epidemia causada pelo machismo e vai do assédio moral e sexual, passando pelo estupro até o caso mais extremo, a morte. âO feminicÃdio é um crime de poder, de decisão sobre vida e morte que muitos homens julgam ter sobre os corpos femininos. Nem mesmo a presença dos filhos na cena do crime intimida o agressor, afinal ele já anulou a vontade da vÃtimaâ, escreveu Adriana Mello, em artigo publicado logo após o assassinato de Viviane, também juÃza no TJ-RJ.
