Quando pensamos em comida, é comum vir à nossa memória a imagem de avós, mães ou tias que preparam pratos saborosos. Essa relação é tão forte que deu origem ao termo âcomida de vóâ. Para além das memórias afetivas, estatÃsticas mostram que as mulheres a partir de 14 anos gastam 9,6 horas a mais que os homens com afazeres domésticos, indicou o estudo Outras Formas de Trabalho, da Pesquisa Nacional por Amostra de DomicÃlio ContÃnua de 2022. Entre alguns povos indÃgenas, a realidade é diferente, ao menos quando a tarefa é cozinhar. Um exemplo é a etnia indÃgena Tuxá Campos, formada por 76 famÃlias, que vivem à s margens do rio São Francisco, em Itacuruba, no sertão pernambucano. Lá quem prepara os alimentos são os homens. Esse arranjo social é tão forte que o lema da aldeia é: âAqui, as mulheres só cozinham se os homens estiverem doentes.â
A importância desse meu trabalho é manter a alimentação saudável e não deixar morrer a tradição alimentar do meu povo
Jociclébio Ferreira, conhecido como Cleber Tuxá, de 39 anos, primo da cacique Evani Tuxá â isso mesmo, a aldeia é liderada por uma mulher â explica que desde os seus ancestrais, os homens cozinham, e o ofÃcio é passado de pai para filho. E como essa tradição começou? No passado, os roçados eram localizados a centenas de quilômetros da aldeia, Cleber explica. Por isso, os homens e seus filhos do sexo masculino viajavam e passavam cerca de três a seis meses cultivando e colhendo alimentos. Distantes das mulheres, eles cozinhavam para matar a fome. âFoi assim, que aos 8 anos, eu aprendi a cozinhar com o meu pai. Fazia feijão, arroz, carne de caça tipo capivara, tatu pebaâ, relembra.
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O que era uma prática nas viagens se tornou uma norma da aldeia. As plantações ficaram mais próximas de casa, mas os homens continuaram a conciliar as atividades da roça com o preparo das refeições. Cleber cresceu, casou-se, teve filhos e seguiu no comando do fogão, preparando as refeições de toda famÃlia. Nos dias de eventos na aldeia, que costumam reunir até 40 pessoas, ele também vai para a cozinha, sem medo da responsabilidade de alimentar um grande número de pessoas.Â
Outra lógica na divisão de tarefas
A antropóloga Jurema Machado de Andrade Souza, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, (UFRB), afirma que esse arranjo mostra que entre os indÃgenas a concepção de divisão do trabalho não se aplica. âPara os indÃgenas, as atividades que fazem a vida acontecer são complementares. Essa lógica de divisão sexual é ocidental, branca e europeiaâ, explica a antropóloga: âEssa forma de definir isso é coisa de mulher, isso é coisa de homem também não se aplica à s aldeias. As atividades de cuidado são importantes, e eles as executam de modo complementar.â
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Veja o que já enviamosHistoricamente, a divisão sexual do trabalho nos padrões ocidentais segue critérios de gênero e valor atribuÃdos à atividade. Os serviços desenvolvidos no espaço doméstico são considerados de menor valor e, portanto, ficaram relegados à s mulheres.Â
Entre os indÃgenas, explica Jurema, o valor dos espaços de trabalho segue outra orientação. Ela alerta que é importante observar quais os valores estão agregados à quele lugar de trabalho. âUm bom exemplo é que, em uma determinada etnia, as mulheres podem estar circunscritas ao fogão, e esse lugar ser um espaço de poder onde são tomadas decisões de interesse da comunidade, onde se decide a luta pela terra, onde são contadas, preservadas e repassadas históriasâ, pontua.
Para a professora, é preciso retirar a perspectiva ocidental ao olhar para os povos indÃgenas: âpara os Tuxás, não há inversão de papéis. Afinal, quem disse que cozinhar é coisa de mulher? Por exemplo, em alguns povos indÃgenas amazônicos quem descansa após o parto são os homens, com base em outra concepção do corpoâ.
E, de fato, os Tuxás veem com naturalidade a tradição culinária dos homens. Do outro lado da linha, Cleber cheio de empolgação, enumera os pratos sobre os quais tem domÃnio no preparo. âOlhe, eu faço tapioca, beiju, sendo que o beiju a gente fazia nos tempos das casas de farinha, agora, fazemos só a tapioca. Bode guisado, peixe tucunaré, piranha, curimatã, tilápia⦠Eu preparo tudoâ, orgulha-se.Â
Quando perguntamos qual a marca da sua culinária, ele responde rapidamente: âGosto de ser ousado! No preparo do peixe, uso hortelã, manjericão, várias folhas batidas no liquidificador. Antes de fazer qualquer carne, eu refogo o alho e a cebola e fica bem gostoso. Aqui, na aldeia, já tem vários adolescentes homens que aprenderam a cozinhar para manter a tradiçãoâ, conta. Para o povo Tuxá, o alimento, além do aspecto nutricional, representa tradição e religiosidade.Â
Segundo Jurema, ter o controle desde o cultivo até o preparo dos alimentos, mesmo sendo uma função exercida por homens ou mulheres, para os indÃgenas é uma atividade que pode revelar poder. Por essa razão, explica ela, o fato de as mulheres indÃgenas serem maioria nas cozinha não reflete submissão ou desvalorização.Â
âNão quero dizer que são sociedades ideais. à claro que há problemas de gênero, de machismo. Mas a partir da minha experiência com as etnias que acompanhei na região Nordeste, seja fazendo pesquisa ou em uma atuação polÃtica, é que, com um olhar apressado, muitos poderiam dizer que o fato das mulheres serem maioria nas cozinhas das aldeias indica subjugação. Não é. Isso depende dos contextos. Por outro lado, eu vi mulheres mais presentes na luta pela terra nessa regiãoâ , conclui.
Alimento saudável e tradição
Elineu Campos, de 43 anos, é outro cozinheiro da aldeia Tuxá. Durante dois dias da semana, ele trabalha como agente de trânsito em Paulo Afonso, cidade a 126 km da aldeia, localizada no estado da Bahia. A sua folga dura oito dias. âQuando estou em casa, eu acordo à s 7 horas, faço o café da manhã e à s 8 horas, começo a fazer o almoço. A minha esposa arruma as meninas e as leva para a escola e, quando volta, limpa a casa. Ãs 11h30, meio-dia, o almoço já está prontoâ, explica.
Elineu conta que, mesmo quando está no trabalho, deixa comida preparada em quantidade suficiente para as refeições da esposa, Gerlane Ferreira, de 41 anos, e das filhas, que têm 7 e 4 anos. Ele, assim como os demais cozinheiros da aldeia, aprendeu com o pai, aos 10 anos de idade, a lidar com as panelas.
O agente de trânsito fala do seu tempero com orgulho: âEu considero que a alma da comida é o tempero, por isso, refogo tudo antes de temperar com alho, cebola, coentro, tomate. Esse é o meu segredo e tem dado certo, a minha esposa adora a minha comida. O meu baião de dois, ela come e lambe até o pratoâ, conta o indÃgena que enumera outras especialidades: a tradicional carne de bode, o feijão de corda e feijão de arranca, também conhecido como feijão mulatinho. Ãs vezes, conta ele, os colegas de trabalho fazem uma vaquinha e compram ingredientes para que ele prepare o almoço. âMeus colegas agora me chamam de Masterchefâ.Â
Como sua esposa assume a limpeza da casa e os cuidados com os filhos, Elineu considera fácil o trabalho na cozinha. âA importância desse meu trabalho é manter a alimentação saudável e não deixar morrer a tradição alimentar do meu povoâ, afirma, admitindo que, se precisasse acumular trabalho e as outras atividades domésticas além da cozinha como fazem tantas mulheres, seria bem mais complicado..
Joseane de Barros Souza, de 34 anos, mulher indÃgena Tuxá, mãe de três filhos, avalia que é bastante importante os homens assumirem o fogão na aldeia. âà uma forma de manter a tradição dos alimentos do nosso povo, mas também de livrar as mulheres um pouco do trabalho. Nem só as mulheres têm que cozinhar. Eu acho ótimo que eles cozinhemâ, avalia.Â
