A gente pensa em portaria e já se lembra do uniforme do porteiro: azul, calça preta e sapato preto. Ou então dos nomes: Severino, Gilson, Junior, Agnaldo, Reginaldo. Mas, no EdifÃcio Thedin Costa, é diferente. No lugar da roupa tradicional, uma blusa cinza clara, de manga curta, calça preta, sapatilha, penteado e maquiagem. Esse é o uniforme do time formado por cinco mulheres responsáveis pelo prédio da rua Barata Ribeiro, no inÃcio de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro.
âTécnicaâ dessa equipe feminina, a atual sÃndica Denise Costa conta que o edifÃcio teve sua primeira porteira-chefe em 2008, quando o resto do time, inclusive o sÃndico, era todo formado por homens.  âClaro que no inÃcio houve um estranhamento entre os moradores. Uns perguntavam sobre o fato de ser uma mulher na portaria, mas não houve objeçãoâ, recorda.
HeloÃsa Helena Barreto Ribeiro, de 52 anos, vai completar uma década de portaria. Moradora de Alcântara, bairro de São Gonçalo, trabalhou sete anos no turno da manhã e hoje, como porteira-chefe, cumpre seu horário à noite.  âNo começo alguns moradores, principalmente homens, não gostavam. Não achavam legal, pensavam que uma mulher não ia dar conta do recadoâ, disse. âSó que deu tão certo, funcionou tanto, que estou aqui até hoje. E, melhor ainda, somos todas mulheres. Agora somos elogiadas, os moradores notam a diferença e até falam que a organização e o cuidado são maioresâ, acrescenta HeloÃsa.
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Veja o que já enviamosSegundo a porteira-chefe do edifÃcio, o condomÃnio fornece cursos para os funcionários e sÃndicos. âEu fiz alguns cursos no Senac e na Secovi. Não é só tomar conta de prédio. A gente precisa estar pronta para qualquer coisa que aconteça, incêndio, como proceder com falta de energia e tudo maisâ, explica. âNão é porque somos mulheres que o prédio fica mais inseguro quando a questão é violência. Ninguém muda a cabeça do bandido. Se ele quiser assaltar, ele vai assaltar, independentemente de a pessoa que está cuidando do local ser homem ou mulherâ, completa.
Denise já estava no Conselho Fiscal quando Elis Regina Vale, de 38 anos, foi contratada como zeladora. âUm amigo do Rafael, que era o sÃndico, conhecia a Elis. Fui eu quem fiz a entrevista dela. Acreditei no seu perfil por ser mulher. Acho que somos mais caprichosasâ, argumenta a sÃndica do Thedin Costa. Encostada na escada, com um rodo na mão, Elis diz estar satisfeita de ter trocado o trabalho de diarista pelo de zeladora. âà bom participar de uma equipe unidaâ, garante. âGosto de fazer meu trabalho. Eu era doméstica antes de vir trabalhar aqui, então limpeza sempre foi meu forte. Eu capricho, tento deixar sempre tudo limpo. à a minha primeira vez como zeladora de um prédioâ, conta Elis Regina, que tem o nome em homenagem à cantora gaúcha.
Moradora no prédio desde que nasceu, Denise assumiu o lugar de sÃndica em 2015. âAos poucos fomos precisando de mais funcionários e as indicações eram de mulheres. Uma era trocadora de ônibus, outra já foi porteira em um prédio no Centro. Agora, somos cinco mulheres tomando conta de tudo por aquiâ, explica.
A portaria exala um cheiro de lavanda. No caminho até o elevador, algumas plantas, hortênsias de plástico em cima de uma mesa de vidro, com duas cadeiras pintadas de branco. âComprei a decoração toda em Petrópolis. Eu adoro enfeites, acho que dá outro toque na portariaâ, acrescenta Denise.
A sÃndica garante que o time está bem entrosado. âAqui nunca tivemos problemas com fofocas, como muita gente imagina, por ter só mulher na equipe. Pelo contrário, com homem acontecia muito mais. Nós prezamos conversar sempre, uma ajuda a outra. Tem a compreensão: se alguém precisa trazer filho para o trabalho, ou está com cólica, a gente vai entenderâ, pondera.
De acordo com Denise, a escolha apenas de mulheres para compor o quadro de funcionários do prédio não é proposital. âSe tiver algum homem que eu veja que se encaixa no que a gente procura, quando abrir vaga, não vejo por que não contratar. Acho que as mulheres têm que ocupar espaços sim, mas não fechamos a porta se um homem for bom profissionalâ, garante.
