Não é raro me ouvir dizendo que odeio futebol. Digo sempre que não me engajo com o ir e vir da bola pelo campo, que não entendo o apelo, mas não sei se é inteiramente verdade. Outra de minhas piadas recorrentes é que fui criada para ser vascaÃna, mas falhei (ou me rebelei, vario os verbos a depender do meu espÃrito no dia). Mas me lembro bem de ser muito menina e, como meu irmão, vibrar com as conquistas de um Vasco da Gama em boa fase (lá nos anos iniciais da década de 1990, muito tempo atrás).
Leu essa? E se o Arthur Aguiar fosse uma mulher?
Mas algo se passou entre a pequena Júlia torcedora e a adulta de hoje, avessa a tudo que se relacione ao universo futebolÃstico, e eu duvido que seja só desinteresse. O futebol não me quer lá: a mim ou a qualquer mulher. E tampouco quer homens que não exerçam um determinado tipo de masculidade. Pergunte a qualquer um que tenha sido o menino gay da turma na aula de Educação FÃsica.
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Veja o que já enviamosA masculinidade tóxica, violenta e opressora nos espaços de futebol e entre seus protagonistas é cada vez mais gritante. Do ambiente frequentemente inseguro para mulheres, do estádio ao bar que transmite jogos. De estupros cometidos por grandes astros do esporte à desigualdade (de patrocÃnio, de espaço midiático, de atenção popular) com o futebol de mulheres. Da traição de esposas grávidas ao desrespeito absoluto com repórteres, árbitras, jogadoras, narradoras, torcedoras e qualquer uma que tente furar a bolha machista em que a bola rola. De gritos de torcida homofóbicos ao dito direito inalienável do macho ao futebol, custe o que custar – ou a quem custar. Não se trata, óbvio, de comparar qualquer dessas ações com a outra – até porque algumas são crimes tipificados, inclusive basta digitar o tipo de infração com o verbete âjogadorâ no Google para ver exemplos de casos em julgamento.
Mas há algo de deplorável na maneira como o futebol vem ensinando gerações e gerações de meninos a se tornarem homens. Sim, porque é à s crianças que se ensina, conscientemente ou não, como é que se âé mulherâ ou se âé homemâ em sociedade, inclusive com essa restrição binária (mas isso é papo para outro dia). Para usar um clichê como exemplo, quando um menino chora e ouve que âisso não é coisa de homemâ ou que assim âparece uma mulherzinhaâ, ele aprende duas coisas. Uma é que chorar o afasta da masculinidade, e que o torna motivo de chacota, inferior, algo que ninguém deve querer ser: âmulherzinhaâ.
No Brasil, a sociabilidade de meninos na infância é muito permeada por peladas, escolinhas de futebol, álbuns de figurinhas de campeonatos, e outros desdobramentos da cultura futebolÃstica, mais ou menos acessÃveis dependendo do grupo de crianças. Mas uma bola e um campo são possibilidade para quase todo mundo. O esporte também tem um papel sociológico fundamental na identidade brasileira, seja na possibilidade de ascensão social e econômica de garotos pobres e pretos (em sua maioria), seja na suspensão temporária de desigualdades, hierarquias, problemas e dores sob a égide do âmeu (nosso) time está jogandoâ. Então não surpreende que ele seja uma parte significativa do processo de se fazer entender como homem na cultura brasileira e em várias outras.
Resta entender em que momento a misoginia entrou nessa conta, nesse processo de produzir-se homem, exercer a masculinidade. Dá pra encontrar pistas. Na maneira como entendemos gênero em nossa sociedade, a masculinidade é produzida em oposição à feminilidade, ao feminino. Em outras palavras e no limite, ser homem âde verdadeâ seria eliminar tudo que é âser mulherâ. Afinal, como pontua bell hooks em âTudo sobre o amorâ (Elefante, 2020), âa masculinidade patriarcal exige que meninos e homens não só se vejam como mais poderosos e superiores à s mulheres, mas que façam o que for preciso para manter sua posição de controleâ. Rejeitar. Ridicularizar. Desrespeitar. Subjugar. Objetificar. Apagar. Aniquilar. E como o futebol é um lugar construÃdo como privilegiado para se ser homem, ele se torna também, pelo menos potencialmente, em uma máquina de moer tudo aquilo entendido como âde mulherâ.
Só que neste percurso, ninguém sai ileso e, mesmo os homens autodeclarados e/ou reconhecidos como mais viris nestes termos do futebol e do patriarcado, são triturados. Ou melhor, trituram-se a si mesmos. à impossÃvel corresponder à s expectativas dessa masculinidade que não pode sentir, não pode vacilar e precisa se afirmar o tempo todo – sexualmente, financeiramente, no status, nos cabelos que não podem cair, na agressividade que é preciso expressar.
E na pressão das tentativas de adequação a esse modelo de masculinidade tão restrito e opressor, muitos que não se enquadram nele pagam com suas vidas por isso – por violência alheia ou contra si próprio. Um levantamento do Ministério da Saúde, com base nos dados de óbitos por suicÃdio registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) entre 2010 a 2019, e de notificações de violências autoprovocadas registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) de 2019, constatou que, no Brasil, homens cometem 3,8 vezes mais suicÃdios do que mulheres. Fazer uma ligação direta com o futebol seria forçar a barra? Sim. Mas não é errado supor que a maioria destes homens brasileiros tenha tido boa parte de sua vida social atrelada ao universo do esporte.
Há caminhos possÃveis para desmantelar essa cultura adoecida e essa maneira nociva de ser homem atrelada ao futebol? Os estádios, bares, vestiários, campos, casamentos e banheiros de casas noturnas refletem o que se vê na sociedade. Enquanto vivermos sob uma lógica machista e heteronormativa, é difÃcil vislumbrar alternativas ao estereótipo do macho futeboleiro opressor.
Mas, como sempre lembra Foucault, onde há poder, há resistência. Um levantamento feito em 2022, da Kantar Ibope, aponta que as mulheres representam 44% da base on-line de fãs de futebol no paÃs. à quase metade. Há torcidas e times com nÃtidas tomadas de posição contra o ambiente hostil que o futebol tem sido historicamente para mulheres e pessoas LGBTQIA+: a camisa do Vasco com as cores do arco-Ãris; o posicionamento abertamente antimachista, antirracista e anti-LGBTQIA+fobia da Fanfarra Festiva Tricolor (@fanfarrafestivatricolor, no Instagram), a incrÃvel torcida Resistência Coral (@resistenciacoral), do Ferroviário (CE), entre muitos outros exemplos. Dezenas de torcidas organizadas apenas com integrantes mulheres têm surgido pelo paÃs. Mais mulheres tornam-se dirigentes, árbitras, narradoras, comentaristas e outras figuras de poder e prestÃgio no cenário do futebol, antes restritas a homens. Marta, Formiga e Bárbara são nomes hoje muito mais amplamente conhecidos no cenário esportivo e no senso comum do que dez anos atrás. Ainda é um movimento tÃmido? Sim.
Mas são passos decisivos para que o futebol deixe de ser um lugar tornado sistematicamente perigoso e hostil por homens que se borram nas calças em resposta ao temor absoluto de (ser) âmulherzinhaâ.
