(Maria Alves – BrasÃlia/DF) – âTire seu preconceito do meu caminho que eu quero passar com o meu cocar, que é esse cocar da sabedoria, da resistência, da paz e do amor que apenas quer lutar junto pelos nossos direitos, com as lideranças, com as nossas organizações.â A frase de Erisvan Guajajara, um dos criadores do Coletivo Tibira, uma organização LGBT+ indÃgena, é repleta de significados e recados, mas o que ela invoca, acima de tudo, é uma força ancestral para poder quebrar a violência, a transfobia e o racismo presente dentro e fora das aldeias.
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No dia 11 de abril, ocorreu a primeira plenária LGBT+ nos 18 anos da história Acampamento Terra Livre, em BrasÃlia. Erisvan Guajajara e duas dezenas de indÃgenas estavam lá. Sob uma vistosa bandeira projetada ao fundo do telão, os indÃgenas leram o manifesto âColorindo a vida em defesa do territórioâ. Empunhavam, ainda, cartazes de cartolina escritos à mão com dizeres como âOs indÃgenas LGBT+ estão nas ruas para fazer revoluçãoâ. Estavam orgulhosos de estarem lá e serem ouvidos.
O manifesto coletivo, lido durante a plenária LGBTQIA+, explicitou a importância do corpo dissidente dessa minoria, assim como a necessidade da incorporação de pautas e ampliação de iniciativas contra a transfobia e LGBTfobia nas ações e agendas do movimento indÃgena nacional. âO racismo é um obstáculo enfrentado pelos indÃgenas, isso é fato. Quando os indÃgenas pertencem à comunidade LGBTI+, outro marcador social, a estigmatização aumenta. O suicÃdio, por exemplo, é uma realidade presente entre muitos povos indÃgenas e entre a comunidade LGBTI+. Quando esses dois marcadores se entrelaçam, esse Ãndice pode ser ainda maiorâ, enfatiza o documento âColorindo a vida em defesa do territórioâ.
O ATL ocorreu entre 4 a 14 de abril de 2022 e, como em edições passadas, incorporou diversas pautas do movimento indÃgena, desde o combate ao governo Bolsonaro, à s pautas-bomba no Congresso e o lançamento de candidaturas indÃgenas. Ter uma plenária exclusiva para a luta dos indÃgenas LGBTQIA+ foi um marco e uma abertura de diálogo com as lideranças dos povos. O evento contou com a presença de Sônia Guajajara, coordenadora-geral da Articulação dos Povos IndÃgenas do Brasil (Apib), entidade organizadora do ATL.
Na plenária e no manifesto foram apresentadas ideias que clamam pela diversidade de interpretação e entendimento sobre a temática LGBT+ indÃgena, levando em consideração as culturas e cosmovisões de cada etnia. Esse movimento evidencia a necessidade de ações de formação e diálogo dentro das próprias comunidades indÃgenas, permitindo que essas minorias possuam liberdade de expressão e tenham protagonismo. âNós, enquanto movimento social, precisamos lidar de forma ética e justa com a diversidade existente em nossos corpos-territórios. Não podemos reproduzir a lógica de deslegitimação e violência dos não indÃgenas com a pluralidade de nosso povoâ, afirma outro trecho do manifesto.
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Veja o que já enviamosHistoricamente, os indÃgenas LGBT+ sofreram violências e estereótipos causados pelo projeto colonial no PaÃs do qual incide, direta e indiretamente, na reprodução das posturas e violações contemporâneas sobre as suas existências. A disposição dos movimentos indÃgenas em combater e discutir sexualidade colabora com esse revisionismo histórico, ou seja, potencializa as narrativas indÃgenas para documentar e reformular o olhar sobre a história.
O nome do Coletivo Tibira, criado em 2018, remete ao primeiro registro de caso de LGBTfobia no Brasil, documentado em estudos. Em 1614, um indÃgena Tupinambá, Tibira, foi âamarrado na boca de um canhão, que, com o estourar do pelouro, espalhou seu corpo pela BaÃa de São Marcosâ, registrou o pesquisador Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia. Tibira foi assassinado e considerado o âprimeiro mártir gay registrado na história do Brasilâ, escreveu Mott, citando Yves DâÃvreux, frade capuchinho, que produziu relatos, em seu diário Viagem ao Norte do Brasil, sobre os comportamentos dos tupinambá.
Segundo Erisvan, o movimento dos indÃgenas LGBT+ procurou, efetivamente, estudar, trocar saberes e repensar sobre as complexidades do sistema de dominação colonial pela própria comunidade indÃgena. As propostas para amenizar os sintomas das violências históricas, que afetam na permanência de preconceitos, foram pensadas com o objetivo de desenvolver polÃticas públicas, rodas de conversa, encontros e discussões que transcendem o 18° Acampamento Terra Livre.
âNós sempre estivemos aqui, sempre ocupamos as ruas, os territórios, as aldeias, as cidades, os movimentos. A gente nunca teve esse espaço e agora a gente está conseguindo. Com essa luta e com essa força coletiva de trazer para o movimento essas ideias novas e esse colorido que quer fortalecer cada vez mais a luta do movimento indÃgenaâ, enfatizou em entrevista à  Amazônia Real.
Essa luta passa pelo reforço da importância da retomada dos espaços polÃticos e intelectuais. E também pelo respeito à diversidade, a fim de unificar e ampliar a discussão dentro e fora das comunidades indÃgenas. Para Erisvan Guajajara, a luta pela visibilidade LGBT+ fortalece o movimento indÃgena como um todo.
Essa plenária no último ATL também foi uma importante oportunidade de evidenciar a considerável participação dos indÃgenas LGBT+ na linha de frente do movimento indÃgena em pautas que atingem a todos, como a demarcação de terras indÃgenas, a oposição ao garimpo em terras indÃgenas, a participação e integração dos indÃgenas na polÃtica e na universidade.
