Qual é a semelhança entre o estuprador formado em medicina que violentou uma parturiente anestesiada em plena cesárea e o homem que está mais perto de você neste momento (ou você, caso seja homem)? Para qualquer mulher – e para algumas, muito mais do que para outras -, ambos são um perigo, ao menos em potencial.
Todas as vezes em que dissemos e dizemos (e diremos!) que âtodo homem é um estuprador em potencialâ, não tarda a chegar o coro dos ofendidos rebatendo, nos acusando de radicalismo. Pois está aÃ, no que parece um daqueles exemplos esdrúxulos, só para forçar alguma compreensão: estuprada pelo anestesista de sua cesárea, desacordada.
Leu essa? Médica: ‘pratiquei muita violência obstétrica porque assim era ensinado’
Se uma mulher precisa temer ser vÃtima de estupro enquanto está parindo, anestesiada, dentro de uma sala de cirurgia, sob os cuidados de uma equipe médica⦠qual homem não pode ser um abusador? Quando DIABOS será possÃvel não ter esse medo?
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Veja o que já enviamosComo muito tem sido dito nos últimos dias, é preciso desconstruir essa ideia torta de que estupradores estão à nossa espreita em becos mal iluminados e ruas desertas, esperando que a vÃtima âdê bobeiraâ para as atacarem.
Nem com a morte. Não são raros casos de cadáveres de mulheres violados sexualmente e que inclusive viram piadas em grupos de necrofilia em redes sociais, como o intolerável âFesta no IMLâ, denunciado há alguns anos. Ao contrário do que se prega, a paz de se sentir acolhida de um estupro tampouco na busca por Deus, basta que a gente se lembre de tantas ocorrência de lÃderes religiosos que abusaram de seu poder para violar mulheres.
Essa segurança definitivamente também não está em casa, no cÃrculo de amizades, no casamento, no namoro, na famÃlia. De acordo com o Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2022, 8 em cada 10 casos de estupro registrados no ano passado foram de autoria de um conhecido.
âFoi estuprada pelo pai enquanto a mãe cuidava do bebê.â
âFoi estuprada pelo marido enquanto dormia.â
âFoi estuprada por um amigo da famÃlia durante um churrasco.â
âFoi estuprada pelo melhor amigo depois de uma festa.â
âFoi estuprada pelo patrão nos fundos da casa.â
âFoi estuprada pelo médico, anestesiada, enquanto passava por uma cesáreaâ.
Como muito tem sido dito nos últimos dias, é preciso desconstruir essa ideia torta de que estupradores estão à nossa espreita em becos mal iluminados e ruas desertas, esperando que a vÃtima âdê bobeiraâ para as atacarem. Como vimos diariamente e fomos relembradas incontáveis vezes nos últimos dias, quando se é mulher, o simples fato de existir é âdar bobeiraâ.
O perigo está em qualquer canto, a qualquer hora do dia, e não se escondendo sob a suposta maldade desviante de um âmonstroâ, âloucoâ ou âdoenteâ. O estuprador é o homem ao lado.Â
Somos estupradas também por ferrenhos defensores de direitos humanos, ávidos leitores de Gramsci, poetas que âamamâ e exaltam as mulheres. Essa máxima sim, é infalÃvel
E ao contrário do que acontece com alguns outros tipos de atrocidades, é impossÃvel cravar um ânão falha jamaisâ descobrindo as inclinações eleitorais do perpetrador. Somos estupradas também por ferrenhos defensores de direitos humanos, ávidos leitores de Gramsci, poetas que âamamâ e exaltam as mulheres. Essa máxima sim, é infalÃvel: ânada mais parecido com um abusador de direita do que um abusador de esquerdaâ.
Só por agora, enquanto o sangue ferve de raiva, quero me abster de pensar em soluções possÃveis, plausÃveis e urgentes para um futuro menos assustador para mulheres e meninas, nascidas e/ou tornadas. Hoje quero comer as palavras de Audre Lorde e lembrar que ter de ensinar o opressor sobre as violências a que ele nos submete é outro mecanismo de dominação.
à inegável, claro, que a repercussão midiática de casos de violência sexual mostra uma indignação massiva diante de qualquer caso de estupro. Mas também é incontestável que a própria revolta expõe outra ponta gravÃssima do problema. à como cobrir a cabeça e destampar os pés.
Deseja que o médico abusador vire âmenininhaâ ou âmulherzinhaâ na cadeia, querendo dizer que ele deve ser estuprado, é uma ilustração perfeita da cultura em estupro em pleno funcionamento. Virar mulher é se tornar âdisponÃvelâ para o estupro? Ser menina é ser estuprada? (No Brasil, aparentemente sim, crianças e adolescentes foram a maioria das vÃtimas de estupro de vulnerável em 2021.O grupo com maior percentual foi o de 10 a 13 anos, seguido das crianças de 5 a 9 anos.)
A cultura do estupro vai adiante, refinada em sua crueldade, procurando atribuir culpa, invariavelmente, Ã vÃtima, ao passo que desonera o perpetrador.
âMas que roupa ela estava usando?â
âMas o que ela estava fazendo ali à quela hora?â
âà criança, mas ela tem umas brincadeiras maduras.â
âBêbada daquele jeito, queria o quê?â
âAs meninas de hoje sabem mais que muita mulher.”
âCom certeza, ela estava provocando.â
Casos como o do abusador anestesista expõem, da forma mais abjeta possÃvel, que basta apenas uma coisa para um estupro aconteça. Qual é a semelhança entre a mulher estuprada pelo médico durante sua cesárea e qualquer outra vÃtima de violência sexual? Basta haver um estuprador – e ele pode ser absolutamente qualquer um.
