Conflitos poderão ser desencadeados na região Sudeste devido à interrupção do abastecimento, causada, por sua vez, por longos perÃodos de estiagem. Soma-se a esse cenário, agravado pela crise climática, a baixa qualidade dos recursos hÃdricos disponÃveis
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Veja o que já enviamosEssas são algumas recomendações do Relatório Temático Ãgua – Biodiversidade, Serviços Ecossistêmicos e Bem-Estar Humano no Brasil, produzido por 17 pesquisadores brasileiros, por meio de uma parceria entre a Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, da sigla em inglês), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno). Essa compilação de dados, considerada pioneira no paÃs, foi divulgada nesta quinta-feira, 8 de agosto, durante o 17º Congresso Brasileiro de Limnologia, em Florianópolis, onde estudiosos se reuniram para discutir questões desafiadoras sobre as dinâmicas que envolvem os ecossistemas aquáticos.
 Atuante na coordenação do relatório temático, a pesquisadora Aliny Pires, da UERJ, explica que essa publicação é uma das primeiras no Brasil a destacar a importância da água ânão somente como recurso, mas também como fonte de biodiversidade e patrimônio culturalâ. Segundo ressalta, âessa abordagem mais integradora é fundamental para garantir uma gestão de longo prazo efetiva e conciliar os diferentes aspectos deste que é um dos principais ativos nacionaisâ. Ainda que importantes esforços de sÃntese já tenham sido empreendidos no caso dos relatórios da Agência Nacional de Ãguas (ANA), a pesquisadora considera que faltava no paÃs uma análise sobre a biodiversidade e a sua integração com outros aspectos relacionados ao tema.
Como exemplo para ilustrar a percepção da pesquisadora, o relatório destaca que a bioÂdiversidade aquática âé um ativo estratégico no contexto econômiÂcoâ. Cerca de um terço dos peixes pescados no Brasil são de água doce, tendo como grande contribuição a produção da região norte do paÃs. Também é ressaltado que, pelo menos 80% dos reservatórios hidrelétricos do paÃs recebem água de Unidades de Conservação, criadas para resguardar a biodiversidade e outros recursos naturais e culturais vitais para a sustentabilidade do paÃs. Nesse contexto há de se considerar que produção hidrelétrica responde por cerca de 65% da matriz energética brasileira.
 Ameaças poderão ser potencializadas
O Brasil continua sendo uma liderança global em termos de recursos hÃdricos, com 12% das reservas superficiais de água doce disponÃveis no mundo. Mas, segundo o relatório, um aspecto que não pode ser desconsiderado nesse debate é a distribuição desigual dessa oferta e da sua demanda no território nacional. âConsequentemente, a abundância da água e sua importância não garantem a segurança hÃdrica do Brasil, comprometendo a biodiversidade aquática, diversas atividades econômicas e o bem-estar da populaçãoâ, segundo o relatório.
Como extremos em termos de oferta e demanda hÃdrica no Brasil se destacam os exemplos das regiões Sudeste e Norte. Enquanto a região Sudeste abriga 58% da população brasileira e concentra 13% da disponibilidade de água, 68% das fontes de água doce nacionais estão na região Norte que conta com apenas 7% do contingente populacional do paÃs.
Diante desse desequilÃbrio, segundo o relatório, alguns conflitos poderão ser desencadeados na região Sudeste devido à interrupção do abastecimento, causada, por sua vez, por longos perÃodos de estiagem. Soma-se a esse cenário, agravado pela crise climática, a baixa qualidade dos recursos hÃdricos disponÃveis.
âA distribuição desigual dos recursos hÃdricos no paÃs tem e terá cada vez mais um forte impacto na gestão territorial da águaâ, alerta o documento. Para ilustrar as consequências do desequilÃbrio climático na oferta de água para as atividades econômicas, o relatório destaca que longos perÃodos de seca nas regiões Sudeste e Centro-Oeste já provocaram perdas estimadas em R$ 20 bilhões na receita agrÃcola em 2015.
Em relação à interferência da degradação ambiental na oferta hÃdrica, outro exemplo envolve a situação do estado do Rio de Janeiro, onde, segundo destacado no relatório, â48% dos rios monitorados são impróprios para tratamentos convencionais e 50% da água captada e distribuÃda no sistema de abastecimento do Guandu é utiliÂzada para tratar esgotosâ.
Embora a problemática seja complexa em termos regionais, a questão territorial vai além das fronteiras do paÃs, atinÂgindo escalas continentais que não podem ser desconsideradas na gestão dos recursos hÃdricos. Um exemplo ajuda a esclarecer esse desafio. O Brasil tanto recebe de outros paÃses cerca de 2,6 trilhões de metros cúbicos de água, por ano, como escoa, anualmente, aproximadamente 800 bilhões de metros cúbicos. âAs reservas nacionais possuem, portanto, dependência intrÃnseca dos paÃses vizinhosâ, segundo o relatório.
Soluções demandam investimentos, pesquisa e participação social
 Para a pesquisadora Aliny Pires é fundamental que sejam realizados os investimentos em infraestrutura destinada à melhoria das condições de saneamento e de segurança hÃdrica, previstos no Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) e no  Plano Nacional de Segurança HÃdrica (PNSH). âNo entanto, é importante ressaltar que essas estratégias podem ser custosas e que a sistematização da informação sobre os usos diversos dos corpos hÃdricos, assim como o mapeamento de dados sobre a biodiversidade e o planejamento espacial serão etapas fundamentais para definir os caminhos mais seguros a serem seguidosâ, afirma.
Os custos realmente são altos, mas estimativas sinalizam que os benefÃcios alcançados compensam. Nesse sentido, serão necessários investimentos de mais de R$ 70 bilhões anuais para reduzir os riscos econômicos associados à escassez hÃdrica, estimados em R$ 520 bilhões, em 2035, acima do dobro do valor observado em 2017.
Tendo em vista esse cenário de escassez prevista e seus impactos socioeconômicos e ambientais, o PNSH mencionado pela pesquisadora é destacado no relatório como mecanismo central à gestão dos recursos hÃdricos brasileiros. Estimativas apresentadas no documento indicam que para cada R$ 1 investido em infraestrutura destinada à segurança hÃdrica, são gerados mais de R$ 15 em benefÃcios relacionados à manutenção de inúmeras atividades produtivas no paÃs.
Com relação à universalização do saneamento básico, prevista no Plansab, até 2030 o tratamento de esgoto deverá atingir 93% do território brasileiro, ante 68,5%, em 2017. Estimativas apresentadas no relatório indicam que os benefÃcios com essas iniciativas são da ordem de R$ 1,5 trilhão, montante quatro vezes maior do que o gasto para sua implementação.
[g1_quote author_name=”Relatório Temático Ãgua” author_description=”BPBES” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]De acordo com o relatório, serão necessários investimentos de mais de R$ 70 bilhões anuais para reduzir os riscos econômicos associados à escassez hÃdrica, estimados em R$ 520 bilhões, em 2035, acima do dobro do valor observado em 2017
[/g1_quote]Também é ressaltado na publicação que o Brasil enfrenta grandes perdas na distribuição da água e que uma redução média desse prejuÃzo para valores próximos a 15% proporcionaria um ganho lÃquido de cerca de R$ 37 bilhões, até 2033.
Dentre outras recomendações discutidas no relatório, segundo a pesquisadora da UERJ, se destacam âa proteção e a restauração dos corpos aquáticos, o desenvolvimento de tecnologias para segurança hÃdrica, em especial soluções baseadas na Natureza, além da incorporação da dimensão ambiental no planejamento espacial e a melhoria da interface envolvendo ciência para a tomada de decisãoâ. O grande desafio nesse contexto envolve a articulação entre os diferentes atores neste processo.
No que se refere à restauração florestal e à conservação dos mananciais e da vegeÂtação ribeirinha, o relatório apresenta exemplos de como a mata nativa pode trazer benefÃcios para a qualidade da água, reduzindo os gastos com tratamento, já que atua na proteção do solo, do lençol freático e de áreas de recarga de aquÃferos, além de favorecer a biodiversiÂdade aquática. âNo sistema Cantareira, situado na região metropolitana da cidade de São Paulo, a recomposição da vegetação nativa pode reduzir em cerca de três vezes os custos com o tratamento da água, considerando-se os valores da restauraçãoâ, informa o documento.
Sob essa perspectiva benefÃcios podem ser alcançados com o cumprimento da Lei de Proteção à Vegetação Nativa (LPVN) que incorporou alterações ao Código Florestal, em 2012, e iniciativas com enfoque no pagamento por serviços ambientais (PSA) que têm remunerado produtores rurais que conservam as áreas florestais existentes nas suas propriedades, acarretando, assim, em melhoria da qualidade das fontes de água. São destacados como exemplos, no relatório, o programa Produtor de Ãgua, criado pela ANA para disseminação no paÃs, além do projeto Conservador das Ãguas, desenvolvido em Minas Gerais.
O relatório destaca a importância do setor privado no estabelecimento das soÂluções para a gestão da água no Brasil, por ser detentor de grande parte das áreas com remanescentes de vegetação nativa, além de ser amplamente afetado por alterações na disponibilidade hÃdrica. Nesse sentido, são mencionadas possibilidades de parcerias entre os setores público e privado. Segundo destacado, algumas iniciativas vêm sendo implementadas com esse objetivo, com base em Diretrizes Empresariais para a Valoração Econômica de Serviços Ecossistêmicos (Devese).
Para Aliny Pires, a sociedade tem papel fundamental rumo à s transformações necessárias mencionadas no relatório. Mesmo diante de inúmeros retrocessos na agenda socioambiental brasileira, a pesquisadora argumenta que âconsiderando a urgência do tema, é a mobilização popular que será capaz de atingir tomadores de decisão, o mercado e o estabelecimento de um valor que permeie toda a sociedadeâ. Mas para alcançar esses objetivos ela reconhece que será essencial âgarantir o acesso à informação de qualidade, com respaldo cientÃfico e associado à s polÃticas públicasâ, esforço que se traduz no trabalho que ela e outros 16 pesquisadores desenvolveram e começam a disseminar.

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