(Patrick Moore e FermÃn Koop*) – A América Latina pode desempenhar um papel cada vez mais influente na transição global para a energia limpa, diz um novo relatório da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). O Panorama Energético da América Latina, da IEA, ressalta os sucessos da região na geração de energia renovável e como seus abundantes recursos naturais poderiam acelerar as transições energéticas local e global.
Atualmente, os combustÃveis fósseis respondem por dois terços da matriz energética da América Latina â abaixo da média global de 80% â, e 60% da eletricidade provém de fontes renováveis. Isso coloca a região âna dianteiraâ para impulsionar a adoção de energias mais limpas no mundo, avalia o diretor-executivo da IEA, Fatih Birol.
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Lar de mais de um terço das reservas mundiais de cobre e lÃtio, essenciais para a transição energética, e com um potencial âenormeâ para o desenvolvimento das energias solar e eólica, a América Latina âpode desempenhar um papel descomunal na nova economia globalâ, acrescenta Birol.
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Veja o que já enviamosPor outro lado, o relatório também enfatiza o papel notório dos combustÃveis fósseis nas atuais economias latino-americanas. O documento alerta que ainda há lacunas de polÃticas públicas a serem preenchidas e investimentos necessários para que a região aproveite todo seu potencial de geração de energia limpa e conduza transições justas nos paÃses mais dependentes de combustÃveis fósseis.
Energias renováveis impulsionam a mudança
O relatório da IEA é o primeiro a avaliar em profundidade o contexto do setor energético na América Latina, apresentando também três cenários para o futuro: um que reflete as polÃticas atuais, com um aumento de 2,4 °C na temperatura média global até 2100 em relação aos nÃveis pré-industriais; outro que pressupõe o cumprimento das metas climáticas de cada paÃs, como os objetivos do Acordo de Paris e os compromissos de 16 dos 33 paÃses da região para zerar emissões lÃquidas de carbono; e um último cenário mais ambicioso, no qual as emissões lÃquidas são zeradas até 2050 e o aumento da temperatura média global se mantém em 1,5 °C até 2100.
A América Latina, diz o relatório, tem um dos setores elétricos mais limpos do mundo: as hidrelétricas compõem a maior parte (45%) da eletricidade gerada na região. Além disso, a participação das fontes renováveis na matriz elétrica deve se expandir nos três cenários, passando dos atuais 60% para 80% até 2050 mesmo com as polÃticas atuais.
A energia hidrelétrica está na base das redes elétricas de muitos paÃses latino-americanos, mas a IEA defende que sua expansão seja limitada daqui para frente, principalmente em razão dos conflitos socioambientais ligados à construção das barragens â com muitas áreas cobiçadas na vulnerável bacia amazônica. A agência também alerta para os riscos que mudanças nos padrões de chuva em um contexto de crise climática representam para a geração hidrelétrica.
Já o desenvolvimento das energias solar e eólica, tanto em terra firme quanto offshore, apresenta grandes oportunidades para a região, diz a IEA. Nos últimos anos, paÃses como o Brasil e o Chile têm aparecido na vanguarda dessa tendência e, junto a México, Colômbia e Peru, tiveram um aumento na capacidade de energia solar maior do que a Ãfrica, o Oriente Médio, a Rússia e a Ãsia Central juntos. Sozinho, o Brasil tem uma expansão mensal de um gigawatt de capacidade solar desde julho de 2022.
Esse potencial de energia renovável na América Latina também pode alavancar a produção de hidrogênio de baixa emissão a um custo menor do que em outras partes do mundo, projeta a IEA. Esse combustÃvel, muitas vezes obtido como subproduto de outros processos de geração de energia, pode ajudar a descarbonizar setores como a indústria e o transporte.
Alguns paÃses da região â como Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Panamá, Uruguai e Brasil â já se movimentam rumo ao novo mercado de hidrogênio verde. Porém, a história de outras formas de geração de energia se repete: comunidades e ambientalistas temem que esses projetos façam uso desmedido da água em áreas propensas ao estresse hÃdrico.
CombustÃveis fósseis seguem no comando
Apesar do progresso e do potencial da América Latina em relação à s energias renováveis, os combustÃveis fósseis ainda são a principal fonte energética na região, e o petróleo segue como o combustÃvel dominante em muitos paÃses, principalmente no transporte e na indústria.
O relatório da IEA diz que a região detém 15% das reservas globais de petróleo e gás natural e menos de 1% das de carvão. Entre esses recursos, há campos de gás de xisto, como os da Argentina, paÃs que já mira na exportação do gás.
O Brasil, a Venezuela e a Colômbia estão entre os principais exportadores de petróleo da América Latina. Já o Chile, a República Dominicana e o Panamá estão entre os mais dependentes das importações de petróleo e gás para suprir a demanda interna. A IEA observa que a produção de petróleo e gás na região aumentou 5% em 2022, e estima-se um novo crescimento este ano; até 2030, a produção de petróleo da região deve superar o crescimento da demanda interna, com um excedente voltado para a exportação.
Embora a demanda energética na América Latina aumente em todos os cenários apresentados pela IEA, a forma de supri-la varia muito. Com base nas polÃticas atuais, a agência projeta que os combustÃveis fósseis seguiriam atendendo à demanda de energia da região, embora com uma leve queda na participação da matriz energética, passando de 67% em 2022 para 63% em 2030.
Agora, se as metas climáticas forem cumpridas, o consumo de combustÃveis fósseis deve chegar ao seu auge em meados da década, com uma subsequente redução, atingindo 57% de participação da matriz energética. Já no cenário mais ambicioso, com zero emissões lÃquidas, a adoção mais rápida de energias renováveis e uma maior eficiência energética colocariam a participação dos combustÃveis fósseis em 50% até 2030.
Minérios latino-americanos: a nova fronteira
As projeções da IEA ressaltam o papel relevante que a América Latina pode desempenhar na transição energética por meio da produção de componentes essenciais para tecnologias de energia limpa, como baterias elétricas â a região tem metade das reservas globais de lÃtio e mais de um terço das reservas de cobre e prata.
A agência também vê um potencial na região para produzir um volume significativo de grafite, nÃquel, manganês e outros elementos conhecidos como terras raras, essenciais para a transição energética. O Brasil detém um quinto das reservas globais de cada um desses recursos, embora sua produção atual seja relativamente pequena. O paÃs também possui grandes reservas de bauxita, usadas na produção de alumÃnio, componente usado nas linhas de transmissão de energia.
A IEA pede ainda que os governos fiscalizem o cumprimento dos padrões socioambientais das empresas, reconhecendo o surgimento de um movimento âantimineraçãoâ após os desastres ambientais vistos na última década â entre eles, o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais. O relatório ainda cobrou mais diálogo entre as partes envolvidas, de investidores a comunidades.
A região também deve aumentar os esforços para ir além da extração mineral e garantir o refino de matérias-primas, um movimento importante para aumentar o valor agregado da indústria extrativista e garantir mais empregos. Alguns paÃses já exploram esse caminho na industrialização do lÃtio, aumentando o financiamento para a pesquisa e construindo instalações para produção local, como a nova fábrica de baterias de lÃtio perto de Buenos Aires, na Argentina.
Stephanie Bouckaert, principal autora do panorama da IEA, disse no lançamento do relatório, em 8 de novembro, que concentrar as cadeias de produção extrativistas na América Latina traz âuma oportunidade para o mundoâ, já que o processamento e o refino em uma região com eletricidade de baixa emissão de carbono significa que âos minerais essenciais serão mais verdesâ.
Desafios para a transição
Apesar do potencial enorme, a IEA observa que a América Latina ainda enfrenta enormes desafios em sua transição energética, principalmente devido à  falta de investimentos. A agência informa que a região apresentou um dos nÃveis mais baixos de investimento em energia proporcionais ao PIB, abaixo de 3% entre 2014 e 2022, inferiores aos da Rússia e da Ãsia Central (5%) e da Ãfrica Subsaariana (4%) no mesmo perÃodo.
Para cumprir as metas climáticas, o financiamento de energias renováveis na América Latina precisaria dobrar para chegar a US$ 150 bilhões ao ano até 2030 e quintuplicar até 2050, calcula a IEA. O relatório faz menção especial aos bancos de desenvolvimento chineses como uma fonte notável de financiamento no setor de energia para alguns governos da região, mas observa o rápido declÃnio desses empréstimos desde 2016.
A IEA destaca a necessidade de realizar transições energéticas âinclusivas e centradas nas pessoasâ que apresentem oportunidades de emprego em uma das regiões mais desiguais do mundo.
Estima-se que pelo menos 17 milhões de pessoas, 3% da população da região, ainda não tenham acesso à eletricidade. Além disso, 74 milhões não conseguem cozinhar com fontes limpas â fator que agrava a poluição e a saúde dos latino-americanos. âà preciso fazer mais para garantir o acesso universal em ambos os aspectosâ, diz o relatório. A IEA considera uma âquestão centralâ o fornecimento de energia acessÃvel e o apoio a populações pobres.
O documento também se concentra nas implicações da transformação da matriz energética no mercado de trabalho, aspecto vital das chamadas transições justas. A IEA observa que o setor de energia representa 2% da força de trabalho na América Latina e no Caribe, com seis milhões de empregos; caso as promessas se concretizem, esse número poderia aumentar 15% até 2030, com até quatro milhões de pessoas empregadas no mercado de energias limpas.
O setor de energia latino-americano pode, no entanto, se deparar com outros desafios decorrentes dos impactos das mudanças climáticas. Até 2050, segundo a IEA, mais de 70% da capacidade hidrelétrica instalada na região deverá enfrentar climas mais secos, sendo que os paÃses já sofreram graves quedas na produção durante as últimas secas. O aumento das temperaturas também é mencionado como uma preocupação, já que pode prejudicar a própria geração solar e eólica.
Isso poderia ser parcialmente sanado por uma maior integração regional das redes de energia, atualmente bastante limitada na América Latina, avalia o relatório. âA ligação entre a demanda e o fornecimento de eletricidade de diferentes zonas climáticas proporciona mais resiliência à s mudanças do climaâ, escreve a agência, observando que isso também poderia ajudar os paÃses a lidar com a intermitência da geração de energia renovável.
O relatório identifica quatro ações principais para reduzir as emissões de COâ no setor energético: acelerar a adoção de fontes renováveis; avançar na eletrificação da indústria e do transporte; aumentar a eficiência energética; e impulsionar o acesso a soluções para cozinhar sem poluir. Se as promessas anunciadas pelos paÃses forem cumpridas, a região verá as energias renováveis atenderem a uma nova demanda global nesta década.
A transição energética pode ser uma âsolução verde triplaâ para a região, avaliou José Manuel Salazar-Xirinachs, da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe, no lançamento do relatório: esse processo, diz, pode melhorar o bem-estar da população, construir economias sustentáveis e resilientes e impulsionar a descarbonização para proteger o meio ambiente.
âO relatório traz uma mensagem cristalina: a América Latina e o Caribe têm uma grande oportunidade ao seu alcanceâ, diz Fatih Biro, diretor-executivo da IEA. âNo entanto, a transição para a energia limpa precisa ser planejada. Não é possÃvel passar de economias baseadas em petróleo e gás para economias baseadas em energia limpa de um dia para o outro. Todos os segmentos da população precisam se beneficiar da transição, especialmente os economicamente mais vulneráveisâ.
*Patrick Moore é editor para a América Latina do Diálogo Chino e do China Dialogue; FermÃn Koop é editor do Diálogo Chino para o Cone Sul, com base em Buenos Aires
