Bernie Sanders é uma daquelas poucas figuras que perde mas sai ganhando. A campanha do senador socialista americano mobilizou, em 2016, centenas de milhões de voluntários em torno de ideias radicais para os padrões das campanhas americanas e deixou uma série de lições positivas para polÃticos do campo progressista de todo o mundo, inclusive para o Brasil de 2018, que esquenta os seus motores para a campanha presidencial de outubro.
[g1_quote author_name=”Zack Exley” author_description=”Ex-consultor polÃtico de Bernie Sanders” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]A revolução não será feita com pessoal pago. Nunca haverá dinheiro suficiente para pagar todos os organizadores que precisamos. A boa notÃcia é que há lÃderes voluntários mais do que suficientes
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Veja o que já enviamosVisto como carta fora do baralho desde o começo das primárias do Partido Democrata, Sanders surpreendeu e por pouco não venceu a disputa contra Hillary Clinton, a grande favorita inicial. Ela levou a indicação, mas engoliu uma derrota amarga para Donald Trump na corrida para a Casa Branca. Já Bernie Sanders deixou o campo de batalha de cabeça erguida, com o crédito de ter conseguiu mobilizar um verdadeiro exército de voluntários extremamente motivados pelas suas promessas de fazer uma revolução polÃtica e realizar mudanças radicais. Mais ainda: o voluntariado em campo, que desempenhou tarefas importantes, usou o que tinha de mais novo na tecnologia digital. Foi um casamento de sucesso.
A infraestrutura tecnológica chave da campanha de Sanders usou softwares gratuitos e livres como, Google Apps, grupos do Facebook e o Slack, este último um instrumento de conexão e colaboração para grupos muito usado por empresas. E tudo isso gerenciado por milhares de apoiadores que trabalhavam para organizar eventos e reuniões decisivas, presenciais ou virtuais. Os voluntários atuavam sob a liderança de poucos funcionários pagos da campanha. Â
Zack Exley, ex-consultor polÃtico e tecnológico de Sanders que esteve recentemente no Brasil, explicou – em uma entrevista ao #Colabora – como esse tipo de mobilização pode ser poderosa se aplicada ao ativismo social e a campanhas polÃticas locais ou nacionais. Mesmo sem dinheiro, como foi o caso da do senador de Vermont. Especialista em mobilizações e em internet, Exley lançou – juntamente com a colega Becky Bond – um livro que detalha as lições de ouro da ousada campanha de Bernie Sanders: âRules for Revolutionaries: How Big Organizing Can Change Everythingâ. Em tradução livre, Regras para Revolucionários: como a grande organização pode mudar tudo. A obra faz parte de uma onda recente de livros que trazem ensinamentos de organização de movimentos como Occupy Wall Street.
âAté o fim de nossa campanha cerca de 100 mil voluntários fizeram mais de 75 milhões de ligações para eleitores, deslancharam oito milhões de mensagens de texto, e realizaram mais de 100 mil reuniões públicas e comÃcios. Muitas tecnologias que usamos não existiam seis meses antes de começarmosâ, conta o ex-assessor do senador socialista. Exley lembra que os movimentos sociais demoram para utilizar as tecnologias disponÃveis: levaram anos para usar as ferrovias em suas atividades, por exemplo. O telefone já existia há décadas até ser utilizado em campanhas polÃticas. âHoje, com a internet, pode-se construir ferramentas, costurá-las, unir um imenso grupo de pessoas. E estamos apenas iniciando esse caminho, estamos arranhando a superfÃcie. O potencial do uso dessas tecnologias para a mobilização polÃtica e social será ilimitado no futuroâ, aposta.
âA Grande Organização (Big Organizing) foi um nome que nós demos para a nossa tentativa de unificar essa vasta massa de voluntários distribuÃda pelo paÃs e uni-la em um grupo que pudesse ganhar votosâ, disse. Em uma grande organização como aquela, os lÃderes entre voluntários salpicavam aos milhares em salas de aula, prisões, escritórios e comunidades. âAprendemos que os voluntários estavam só esperando receber tarefas grandes. Se você pedir a eles que façam pequenas coisas, eles não vão participar, terão coisas melhores para fazer com o seu tempoâ, contou.
Das 22 regras do livro, uma das mais importantes é: a Revolução não será feita com pessoal pago. âNunca haverá dinheiro suficiente para pagar todos os organizadores que precisamos. A boa notÃcia é que há lÃderes voluntários mais do que suficientesâ, disse. Outra lição fundamental, especialmente para jovens organizadores que cresceram com a internet: telefonar. âFoi incrivelmente difÃcil fazer os jovens pegar nos telefones e estabelecer relacionamentos pessoais com os lÃderesâ, lembra Exley.
Uma lição que segundo o consultor de Sanders não pode ser esquecida é a de que não se consegue fazer uma revolução se você não pedir por uma. E foi o que o senador fez, propondo mudanças profundas do alto de sua credibilidade. âBernie Sanders se auto-identifica como socialista desde os anos 70 e isso o beneficiou porque lhe deu credibilidade. Um imenso número de americanos estava pronto para uma polÃtica mais radical do que o Partido Democrata oferecia.
Sanders – que segundo as últimas pesquisas é o polÃtico mais popular do paÃs e derrotaria Trump em uma eventual disputa – prometeu lutar por ensino gratuito, saúde pública universal, acabar com o aprisionamento em massa de negros. âA grande organização raramente trabalha em torno de uma única questão. Nossas lutas estão todas conectadas. Precisamos dialogar com todos sobre nossos grandes ideais e por isso é preciso usar a tecnologia de ponta para atingir muitos e permitir que milhares de pessoas desempenhem papéis de liderançaâ, disse Exley.
Com 74 anos em 2016 o senador atraiu milhões de jovens para sua proposta de revolução polÃtica (não armada, claro), que ele repetia há anos. Mais jovens votaram neste senador septuagenário nas primárias do que na ex-secretária de Estado Hillary Clinton e em Donald Trump juntos. Os progressistas – diz Exley – têm que exigir as mudanças que querem ver acontecer e que vão fazer diferença para a vida da maioria, e não se limitar apenas à s promessas de mudanças que o sistema diz ser possÃvel. A ousadia é um ingrediente precioso na arte de se conquistar um exército de voluntários para uma campanha polÃtica ou social.
