O Brasil é o único paÃs que participou de todas as copas do mundo de futebol e quase sempre ocupou um lugar no alto do ranking das melhores seleções do planeta. Mas esse não é o único destaque do paÃs, pois, também no campo da concentração de renda, o Brasil nunca deixou de estar presente no pódio das nações mais desiguais do globo.
Assim como no futebol, onde temos rivais poderosos em nossas fronteiras, a excepcionalidade brasileira na distribuição de renda é compartilhada pelos vizinhos da América Latina e Caribe (ALC), reconhecidamente, o continente mais desigual do mundo. O gráfico abaixo, disponibilizado no site âOur World in Dataâ, mostra que a ALC é a região do mundo com os maiores Ãndices de desigualdade de renda, quando medido pelo Ãndice de Gini, que varia entre zero (nenhuma desigualdade) e um (desigualdade total).
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Veja o que já enviamosNos próximos anos, com os efeitos indesejáveis da crise econômica, o Brasil pode subir ainda mais neste ranking e ocupar, juntamente com a Ãfrica do Sul, a lamentável posição de finalista do campeonato mundial de desigualdade
[/g1_quote]Nota-se que a América Latina, com Gini em torno de 0,50, está no topo da má distribuição de renda durante todo o perÃodo compreendido entre 1988 e 2013. A Ãfrica Subsaariana vem em segundo lugar com o Gini oscilando em torno de 0,45 durante os 25 anos em questão. Os paÃses do Leste Asiático e PacÃfico (com alto peso da China) apresentam um Gini em torno de 0,40. Os paÃses do Oriente Médio e Norte da Ãfrica tinham Gini em torno de 0,40 em 1988, caindo para algo em torno de 0,35 em 2013, enquanto os paÃses do Sul da Ãsia (com alto peso da Ãndia) tinham Gini ao redor de 0,30 em 1988, subindo para 0,35 em 2013. Ou seja, a desigualdade está caindo ligeiramente na região do Oriente Médio e Norte da Ãfrica e subindo no Sul da Ãsia. Nos paÃses da Europa Oriental e da Ãsia Central o Gini estava em torno de 0,25 em 1988 e subiu para a casa dos 0,30 em 2013. Nos paÃses industrializados, o Gini ficou em torno de 0,30 durante todo o perÃodo, mas com uma leve tendência de alta.
Olhando para dentro do continente mais dÃspar do planeta, observa-se que o Brasil é um dos paÃses mais desiguais entre os desiguais da ALC. O Ãndice de Gini no Brasil estava em 0,553 em 1981, diminuiu para 0,532 na época do congelamento de preços do Plano Cruzado, subiu para 0,613 na hiperinflação do governo Sarney e caiu para algo em torno de 0,570 nos primeiros anos do Plano Real. No inÃcio dos anos 2000 o Gini brasileiro começou a declinar consistentemente e chegou a 0,505 em 2012, próximo da média da ALC. Portanto, a desigualdade da renda pessoal (medida pelas pesquisas domiciliares) caiu nos primeiros anos do século XXI no Brasil, mas ainda assim, continua uma das maiores da ALC e uma das maiores do mundo.
As estimativas de desigualdade de renda geralmente não são perfeitamente comparáveis entre os paÃses e as diferentes regiões do mundo. Mas a despeito das limitações e da comparabilidade das informações estatÃsticas, o mapa abaixo fornece um rico panorama das heterogeneidades globais. Os dados mostram que a ALC e a Ãfrica Subsaariana se destacam como as regiões mais desiguais do mundo, enquanto o sudeste asiático e os paÃses mais ricos, têm nÃveis de renda, consistentemente, mais igualitários.
O mapa abaixo mostra um padrão de heterogeneidade semelhante ao anterior, mas usando uma medida alternativa de desigualdade: a parcela da renda total apropriada pelo topo dos 10% mais ricos da população. O Brasil, Ãfrica do Sul, Ruanda e Zâmbia aparecem com bastante destaque como os quatro paÃses onde os 10% mais ricos da população disputam as semifinais do campeonato mundial da concentração de renda.
Segundo dados do Banco Mundial, considerando o Ãndice de Gini captado pelas pesquisas domiciliares, entre 2014 e 2015, os dez paÃses mais desiguais do mundo são estes apresentados na tabela abaixo. Nota-se que o Brasil, mesmo com a redução do Ãndice de Gini nos últimos anos ainda continua participando com destaque do seleto clube dos paÃses com maior concentração de renda.
A tabela, os gráficos e os mapas acima mostram que o Brasil, sempre no topo, é uma espécie de âReal Madridâ da concentração de renda global. No perÃodo do superciclo das commodities, entre 2003 e 2013, quando os preços favoráveis dos produtos exportados possibilitaram o crescimento da economia, do emprego e da renda, parecia que o paÃs estaria virando o jogo e reduzindo seus nÃveis extremos de desigualdade, pelo menos como indicavam as pesquisas domiciliares.
Todavia, as pesquisas amostrais realizadas nas residências têm limitações bem conhecidas, especialmente no que diz respeito à s informações sobre os rendimentos dos mais ricos. Artigo de Pedro Souza e Marcelo Medeiros, publicado pelo IPEA, em 2017, com base nos dados do imposto de renda de pessoas fÃsicas e aplicando uma metodologia semelhante à utilizada no projeto âWorld Inequality Databaseâ, liderado pelo economista francês Thomas Piketty, mostra que os dados da Pesquisa Domiciliar por Amostra de DomicÃlios (PNAD), do IBGE, tendem a subestimar as desigualdades de renda e podem ter acentuado a queda do Ãndice de Gini brasileiro nos anos 2000.
Assim, o trabalho realizado pelos autores conclui que a concentração de renda entre os mais ricos é superior à quela apontada pelos dados da PNAD. Enquanto as pesquisas domiciliares indicavam que a fração recebida pelo 1% mais rico na pirâmide de renda brasileira caiu de 14,8% para 12,9%, entre 2006 e 2014, as estimativas fundamentadas nos dados tributários mostram percentuais mais altos e mais estáveis: de 22,4%, tanto no inÃcio quanto no fim do perÃodo.
Desta forma, com estabilidade ou com uma pequena queda no Ãndice de Gini, o fato é que o Brasil continua com uma escandalosa concentração de renda. E a desigualdade não é uma boa base para o desenvolvimento e a segurança pública. Como disse o sociólogo Wright Mills, em 1956, âa renda fornece poder e o poder proporciona liberdadeâ. Portanto, o alto Ãndice de Gini é um inimigo da justiça social, do bem-estar e da democracia.
O Brasil, mesmo convivendo com alta iniquidade pública e privada, se orgulha de estar na liderança das oito nações que já venceram pelo menos uma Copa do Mundo de Futebol e entra em campo para disputar o hexa campeonato na Copa de 2018. Mas, com os efeitos indesejáveis da crise econômica contemporânea, se não tomar cuidado, pode subir ainda mais neste ranking e ocupar, juntamente com a Ãfrica do Sul, a lamentável posição de finalista do campeonato mundial de desigualdade.
