Precisa apurar os ouvidos â tão curtidos eles estão no caldo de intolerância â para entender a mensagem preciosa do movimento criado pelo pastor José Barbosa Júnior: Jesus Cura Homofobia. Preste atenção: HO-MO-FO-BIA. Na contramão da imensa maioria (quase totalidade) de seus pares evangélicos, o religioso prega a tolerância pela via da fé. Inventou sua cruzada há dois anos e, no extremo oposto dos malafaias da vida, tem representantes em seis estados brasileiros. Uma bênção, nesses dias de cura gay.
[g1_quote author_name=”José Barbosa Júnior” author_description=”Pastor batista” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Jesus não fala absolutamente nada sobre homossexualidade. Não trata do tema. Quem disser o contrário está mentindo. Nas narrativas dos evangelhos, não há uma palavra sobre o assunto,
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Veja o que já enviamosA cruzada surgiu em 2015, na Parada Gay de São Paulo. Ele e uns amigos levaram a faixa com a frase-tÃtulo, como um pedido de desculpas, pela forma como a igreja tratou o assunto ao longo dos anos. âE querÃamos fazer o contraponto da cura gay, que também estava muito falada na épocaâ, relembra. A repercussão foi um espetáculo. âEm uma semana, recebemos mais de 700 mensagens no grupo de gays cristãos do Facebookâ, contabiliza.
à época, ele desenvolvia trabalho em defesa da tolerância na Igreja Batista da Vila Maria, na Zona Norte de São Paulo. A pressão dos fiéis e de outros pastores contra a iniciativa cresceu a ponto de inviabilizá-la. âO titular da igreja ficou do meu lado, porque entendeu o valor daquiloâ, relembra. âMas muitas pessoas conservadoras começaram a me questionar ferozmente, pressionando para que eu fosse expulsoâ.
O preceito batista dá mais autonomia a seus pastores e não tem a estrutura hierarquizada dos católicos. Assim, cada comunidade decide sobre como será e quem vai liderar sua igreja. Barbosa recebeu o apoio discreto de muitos pares. âEncontrei três tipos de reação: os que eram contra, sem saber argumentar; uns poucos a favor; e muitos, que concordam mas evitam se posicionarâ, descreve. âSão pastores que precisam sair do armárioâ, brinca, rindo.
Sempre com um sorriso tatuado no rosto, José Barbosa Júnior, 46 anos, divorciado, uma filha, tempera com voz alegre a firmeza de sua pregação. Nele, inexistem as carrancas e caretas comuns aos colegas repressores. Mas sobra solidez na argumentação. Na verdade, a rebeldia contra a ordem unida dos evangélicos surgiu na convivência com gente cristã e LGBT. âAs pessoas me falavam de experiências com Deus e a sexualidadeâ, relata. âPassei a ouvir e acreditar. DaÃ, começou o meu questionamentoâ.
Ele, então, iniciou seu combate à intolerância, baseando-se nos testemunhos que ouvia mas, num dado momento, incomodou-se por repetir ideias alheias. Para ir adiante, decidiu mergulhar fundo na História. Formado em teologia, fluente em grego antigo, uma das lÃnguas originais da BÃblia (as outras são aramaico e hebraico), caçou os versÃculos-base dos homofóbicos – Primeira Carta de São Paulo aos CorÃntios, capÃtulo 6, versÃculos 9 e 10 â e encontrou uma fraude.
O discurso da intolerância reza sobre a sentença âNão se deixem enganar: nem imorais, nem efeminados, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deusâ. Barbosa descobriu, ao visitar a fonte, que o significado se perdeu nas incontáveis traduções. âA palavra que virou âefeminadoâ quer dizer macio. E a transformada em âhomossexualâ é, na verdade, um neologismo criado por Paulo, do qual rigorosamente ninguém sabe o significado exatoâ, ensina. âO que mais se aproxima é âcoito do homemââ.
Além disso, não se pode pegar o texto bÃblico, escrito há milhares de anos, e aplicá-lo nos dias de hoje, âna secaâ. âà preciso usar o método histórico-crÃtico, estudar no contexto em que foi formulado. Não dá para pegar algo escrito há quatro mil anos e aplicar hojeâ, ensina, falando em âmá féâ de quem faz assim. âJesus não fala absolutamente nada sobre homossexualidade. Não trata do tema. Quem disser o contrário está mentindo. Nas narrativas dos evangelhos, não há uma palavra sobre o assuntoâ, arremata.
A opção pela tolerância levou o pastor José Barbosa Júnior a se aproximar de outros oprimidos, como os seguidores das religiões de matriz africana. Domingo (17), ele participou da 10ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, confraternizando com pais e mães de santo. (Havia gente de todos os credos no evento, inclusive outros evangélicos; mas Barbosa se sente em casa.) Na véspera, foi à quadra da Mangueira, acompanhar uma etapa da escolha do hino para o Carnaval 2018. âGosto do samba do Tantinhoâ, avisa.
Pesada mesmo é a batalha com o outro lado. Quando confrontados pelos argumentos do Jesus Cura Homofobia, os pastores da intolerância partem para o ataque. Barbosa coleciona impropérios como âdevassoâ e âdesviadoâ, além de ouvir que âquer aparecerâ, âficar bem com todo mundoâ e âestar virando gayâ. âSou paciente, entendo o lado deles. Comigo, foi um projeto, uma doutrinaçãoâ, explica, minimizando a cantilena do outro lado. âO Malafaia é só gritoâ.
Contribuiu para a atitude o engajamento em movimentos sociais, participando de manifestações contra a violência, a corrupção e, claro, a intolerância. âSou de esquerdaâ, assume, consciente de que a luta é pesada. Tanto que ele reduz a distinção entre evangélicos e neopentecostais, quando o assunto é homofobia e repressão à diversidade religiosa. âAs igrejas tradicionais repetem veladamente o que as mais novas gritam de maneira extremadaâ, constata. âA diferença está na coragem de falarâ.
Sobra até para a própria igreja Batista, que, no Brasil, tem sua base nos brancos do sul dos Estados Unidos, e não nos negros que bombaram o gospel. âNas igrejas daqui, é impossÃvel achar aqui um atabaqueâ, argumenta ele. Mas a luta continua â e o Jesus Cura Homofobia aproveita a diáspora brasileira para se espalhar. Hoje está presente em Minas Gerais, Rio, São Paulo, Ceará, Maranhão e Paraná. âTemos núcleos estruturados e vamos crescerâ, avisa o apóstolo da tolerância.
Eu ouvi amém?
