Há três anos, o mineiro Leonel Ferreira se tornou mais um brasileiro a inflar as estatÃsticas do desemprego. Ele vivia em Belo Horizonte, sua terra natal, e atuava em uma grande rede de supermercados da cidade. A notÃcia do desligamento, porém, causou-lhe efeito inverso, em relação à maioria dos trabalhadores que perdem sua fonte de sustento. O jovem poeta de 35 anos transformou o revés na motivação para realizar um sonho: pela via dos livros, aproximar-se das pessoas e colaborar para inspirar as suas vidas.
âOs livros são uma espécie de anzol que me permitem atrair pessoas que precisam de uma mensagem, uma luz, uma inspiraçãoâ, explica. âSempre tive a certeza de que a arte é a melhor maneira de chamar a atenção de todos para mostrar o real sentido da vida. Por isso, resolvi pôr a arte na rua e oferecer um pouco de mim para o bem-estar de todosâ, completa Leonel, que está diariamente numa calçada da Rua do Riachuelo, no Centro do Rio, de 9h à s 23h.
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O cansaço pelas longas horas ao relento fica invisÃveis, entre sorrisos frequentes. à sua esquerda, publicações com os mais variados temas, de filosofia a biografias de personalidades da História. Cada livro não custa mais do que R$ 10, que ele cobra apenas para assegurar o necessário a sua subsistência. O objetivo principal não é comércio. âTodos temos a ensinar e a aprender com os outros. Quando alguém para aqui em busca de um livro, não são raras as vezes em que a conversa descamba e rapidamente estamos falando sobre filosofia, espiritualidade, humanismoâ, comenta ele.
São pessoas das mais diversas idades e condições sociais. âTodas, à sua maneira, me ensinam demaisâ, garante, certo de que ajuda seus interlocutores a voltarem mais sorridentes para casa. âà uma troca de energia fundamental para notarmos que, apesar dessa vida louca da cidade grande, tudo o que nos cerca é belo, é poesiaâ.
A famÃlia Ferreira carrega a poesia no DNA – seus pais eram poetas nas horas vagas e Leonel se entregou cedo aos prazeres da leitura. âCom seis, sete anos de idade, já lia bula de remédio. Meu pai observou aquilo e passou a comprar livros no sebo para mim. Ele (Manoel) e minha mãe (Ivandra) tiveram muita influência pelo amor que adquiri pelas palavras, e minha paixão pela Educação acho que foi obra do meu avô, que escolheu o meu nome em homenagem ao ex-governador Brizolaâ, relata ele, que guarda na memória a primeira publicação que o encantou, presente do pai: âAntologia Poéticas, de VinÃcius de Moraes.
Aos nove anos, ao mesmo tempo em que aprendia com o pai o ofÃcio da capotaria, virou autor de poesias e declamava suas obras em casa. Mas era poucoEle queria mostrar sua arte para o povo e foi à luta.
Aos 17 anos, depois de uma oficia literária do poeta mineiro Vilmar Silva de Andrade, Leonel publicou de forma independente seu primeiro livro. âO tÃtulo é âRessonâncias do Ocasoâ. Consegui publicá-lo aos 19 anosâ, orgulha-se. âDepois vieram âExplosões do Ãntimoâ, uma  prosa poética erótica, e âPaisagens Polfônicasâ, uma antologia da obra de Leonel Ferreira, totalmente artesanalâ, enumera, aos risos.
A variedade de temas é uma constante na obra deste jovem poeta que luta por uma oportunidade no mercado editorial. Filosofia, erotismo, abstração⦠Mas um dos assuntos abordados fala mais alto no coração de Leonel: a metafÃsica, o transcendental. âGosto muito de filosofia, mas foi a metafÃsica que me atraiu para ela. Bebi muito em Spizona (Brauch Spinoza, filósofo holandês do século 17, que aproximou filosofia e espiritualidade), me aproximei de Fernando Pessoa e de Rainer Maria Rilke (poeta importante na Alemanha do fim do século 19)â, lista. âCom eles, vi que a arte não cumpre apenas uma função social. Representa um gatilho que nos faz enxergar além das barreiras do existirâ.
E, no que depender de Leonel, o público-alvo desta sua missão não ficará restrito ao estande de livros localizado em frente a uma árvore conhecida como Chapéu de Napoleão, na Riachuelo. Nos momentos em que não é solicitado, o poeta estuda para concorrer a uma vaga de professor da rede pública municipal. Quer levar sua missão para os jovens. âTomo como uma responsabilidade fazer chegar cultura, filosofia e informação aos mais jovens. à um absurdo o que fazem com o sistema educacional brasileiro, desvalorizando exatamente os instrumentos que não fazem pensar e melhorar nossa condição humanaâ. Logo um paÃs que bloqueia de todas as formas o acesso à cultura para quem não tem dinheiro. Minha parte eu vou fazer e tentar influir para que outros também façam a suaâ.

Que historia em…
Modelos de Quadro Magnético, Sao Paulo – SP