(Colaboraram Manuela Andreoni e Adriano Belisário) – Cientistas polÃticos, marqueteiros e estatÃsticos ficaram sem ar. As eleições de 2018 mudaram todos os paradigmas. O pleito foi soterrado por notÃcias falsas e conduzido por uma volumosa e rápida circulação de informações pelos submundos do Whatsapp. Em um mundo de manipulação das redes, em campanhas como as de Donald Trump e do Brexit, em que russos são acusados de hackear eleições, não faltaram especulações sobre influências estrangeiras nas eleições brasileiras. No topo da lista de conspirações estava a possÃvel interferência da empresa britânica de dados e análise polÃtica Cambridge Analytica (CA) e de seu ex-conselheiro Steve Bannon, ex-estrategista do governo americano.
[g1_quote author_name=”André Torretta” author_description=”Dono da Ponte Estratégia” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Bolsonaro buscou a Cambridge, mas a empresa não o quis como cliente. Eles acharam que não seria propÃcio porque ele é de extrema-direita e poderiam ser feitas associações com o Trump
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Veja o que já enviamosUm escândalo que explodiu em março deste ano mostrou como a CA roubou informações de 50 milhões de usuários do Facebook para serem usadas no direcionamento de mensagens polÃticas nos EUA, Reino Unido, Quênia, Ãndia, entre outros paÃses. Diante das revelações, a CA, ligada ao grupo SCL (Strategic Communication Laboratories), fechou as portas. Seus executivos criaram novas companhias ou assumiram cargos em outras empresas.
Enquanto isto, o ex-parceiro da Cambridge Analytica no paÃs, André Torretta, fechou contratos com três campanhas estaduais para as eleições de 2018, inclusive a da reeleição do atual governador do Amapá, Waldez Góes. Torretta também atuou no Maranhão e afirma ter feito consultorias em outros estados. E a campanha do Bolsonaro? Em entrevista para a BBC News Brasil, Bannon elogiou o candidato do PSL, declarou apoio, mas negou ter participado das eleições no paÃs. Torreta, por sua vez, confirma que Bolsonaro tentou fazer um contrato com a Cambridge Analytica, mas a empresa teria recusado trabalhar com a extrema-direita no Brasil.
Confira abaixo o que é fato sobre a relação entre a CA e as eleições de 2018 no Brasil:
1 – A CA tinha um parceiro no Brasil e pretensões eleitorais
Em meados de 2017, o marqueteiro André Torretta alega ter feito um memorando de entendimento (MOU – Memorandum of understanding) com a Cambridge Analytica, firmando uma parceria que ele acredita ter sido exclusiva para operação da empresa estrangeira no Brasil. à época, antes do escândalo sobre o uso indevido de dados do Facebook vir à tona, o plano era que a Ponte Estratégia – empresa de Torretta, que existe desde novembro de 2007 – seria uma espécie de âbraço brasileiroâ da Cambridge.
Há referências a uma empresa chamada âCA Ponteâ, que seria resultado desta parceria. No entanto, não foram encontradas pessoas jurÃdicas com este nome, tampouco a Ponte Estratégia alterou sua razão social neste perÃodo. Torretta também garante que não houve institucionalização da parceria para além do memorando.
As primeiras conversas com a CA começaram pelo menos dois anos antes, afirmou Torretta. Seu principal contato na empresa britânica era Mark Turnbull, o mesmo executivo flagrado revelando métodos antiéticos de manipulação polÃtica, como suborno, armadilhas com prostitutas e disseminação de mensagens pela internet. No vÃdeo, inclusive, ele conta a um potencial cliente que a empresa atuaria no Brasil. O vÃdeo foi gravado em um encontro de empresários realizado entre o novembro de 2017 e o janeiro de 2018.
Torretta garante que a parceria entre a Ponte e a CA foi cancelada após a explosão do escândalo. âMe senti como o homem casado que descobre que a mulher roubou metade dos dados do mundoâ, compara. âNão sabia de nada do que estava acontecendoâ.
2 – A Ponte trabalhou em pelo menos três campanhas eleitorais
O rompimento da parceria com a CA não afastou André Torretta das eleições em 2018. Três candidaturas do Norte e Nordeste contrataram seus serviços este ano, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em entrevista, Torretta também admitiu ter realizado consultorias em outros estados, mas não especificou quais.
O governador Waldez Góes, candidato à reeleição pelo PDT, e Fátima Pelaes, ao Senado pelo MDB, ambos do Amapá, declaram terem pago à Ponte Estratégia e Planejamento R$ 480 mil e R$ 75 mil, respectivamente. Já o deputado federal do PSDB pelo Maranhão, José Reinaldo Carneiro Tavares, contratou a McMann & Tate Pesquisas e Eventos, outra empresa de Torretta, por R$ 80 mil.
Torretta alega não poder detalhar os serviços prestados por sigilo do contrato, mas nega ter usado o WhatsApp em campanhas eleitorais. Segundo os dados declarados ao TSE, os serviços envolveriam produtos audiovisuais e pesquisas.
Fátima Pelaes, uma liderança da ala feminina do PMDB que assumiu a Secretaria Especial de PolÃticas para as Mulheres no Governo Temer, afirmou que Torretta prestou serviços de consultoria e marketing polÃtico, mas o trabalho não incluÃa redes sociais ou uso de outras tecnologias. Fátima e Tavares não se reelegeram.
Em outubro de 2017, Torretta deu entrevista sobre um projeto-piloto no Amapá para testar estratégias de convencimento de eleitores brasileiros através de um aplicativo de mensagens criado por ele, similar ao Whatsapp. Ele organizou ali um laboratório, que consistia em uma campanha de posicionamento de imagem para uma deputada estadual. Torretta nega que o projeto tivesse propósitos eleitorais. Segundo ele, era uma ação de âcunho filantrópicoâ.
Segundo o calendário eleitoral, candidatos que concorrem no segundo turno devem entregar suas prestações de contas completas até 17 de novembro, portanto, é possÃvel que existam mais campanhas que contratam serviços da Ponte, mas ainda não declararam as despesas oficialmente. José Reinaldo Tavares e o governador Waldez Góes não responderam aos questionamentos do Projeto #Colabora.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Em março, os promotores Frederico Meinberg Ceroy e Paulo Roberto Binicheski instauraram um inquérito civil público para apurar se Facebook, Cambridge Analytica e Ponte Estratégia haviam feito uso ilegal de dados de brasileiros. à fato que a investigação continua em curso, sob sigilo
[/g1_quote]3 – Torretta diz que intermediou contato da Ponte com a Serasa, mas acordo fracassou
Antes de o escândalo da CA estourar, André Torretta defendia a aplicação de bancos de dados gigantes (Big Data) em estratégias eleitorais. Em finais de 2017 e inÃcio de 2018, no momento de prospectar clientes, ele explicava que o pulo do gato da técnica era empregar dados especÃficos de potenciais eleitores aliado à s redes sociais. âDá para eleger um deputado federal ou estadual quase 100% pelas redesâ, chegou a comentar.
No Congresso, Torretta explicou como usar dados pessoais para persuadir a opinião pública; e a jornalistas da Folha de S. Paulo e El PaÃs garantiu já ter coletado dados de 80 milhões de brasileiros com caracterÃsticas geolocalizadas, a partir de informações do Serasa Experian e IBGE, por exemplo. Ao Projeto #Colabora, Torretta explicou que foi tentado um âacordo operacionalâ entre a Cambridge Analytica e a Serasa via Ponte há dois anos, mas ânão deu certoâ.
Em nenhuma entrevista, o ex-parceiro da CA citou o uso de informações do Facebook. E após a revelação das ações questionáveis da CA em março deste ano, não só se antecipou em cortar as relações com a empresa estrangeira como amenizou o tom do alcance da técnica que antes propagandeava.
Ao Projeto #Colabora, Torretta afirmou que, no Brasil, não terÃamos ânem tecnologia, nem informação suficienteâ para ter o impacto da metodologia da CA.
4 – Método que trouxe fama à Cambridge era baseado no Facebook, não no Whatsapp
 Com 120 milhões de usuários, o WhatsApp acabou se tornando um canal decisivo nestas eleições e ficou no centro das investigações da PolÃcia Federal sobre o disparo irregular de mensagens pela plataforma. Os famigerados métodos usados pela Cambridge Analytica ocorreram essencialmente no Facebook, que também detém o WhatsApp, mas não há evidências de que este último tenha sido usado pela companhia britânica.
Torretta já pretendia âtropicalizarâ a estratégia da CA no Brasil e comentou, em 2017, que usaria bancos de dados com informações sobre eleitores para âtransformar os usuários de Whatsapp em cabos eleitorais virtuaisâ. Na conversa com o #Colabora ele voltou atrás e disse que a técnica usada no Facebook não serviria para o contexto brasileiro do WhatsApp. âà um engano muito grande do Brasil achar que a tecnologia da Cambridge poderia ser importadaâ, afirmou. Ele nega ainda que a Ponte tenha usado o Whatsapp nas campanhas no Amapá e no Maranhão em 2018. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral só permite uso de dados de eleitores que os ofereceram conscientemente para este fim a campanhas polÃticas.
Em nota, o WhatsApp explicou que tem banido centenas de milhares de contas durante o perÃodo das eleições e listou outras iniciativas em resposta à s investigações da PF. Mas não comentou se havia indÃcios de que outras campanhas fizeram mau uso da plataforma ou se aplicaram métodos semelhantes aos da CA.
5 – A Ponte e a Cambridge são investigadas pelo Ministério Público
Em março deste ano, foi aberta a caixa preta. Uma investigação do New York Times e dos jornais londrinos The Observer e The Guardian revelou documentos que provavam que a empresa usou dados obtidos irregularmente por meio do Facebook para construir perfis de eleitores nos Estados Unidos e no Reino Unido, e assim tentar influenciá-los. Os resultados foram avassaladores para a empresa, que declarou falência apenas dois meses depois.
No Brasil, o Ministério Público do Distrito Federal não perdeu tempo. Ainda em março, os promotores Frederico Meinberg Ceroy e Paulo Roberto Binicheski instauraram um inquérito civil público para apurar se Facebook, Cambridge Analytica e Ponte Estratégia haviam feito uso ilegal de dados de brasileiros. Procurados, três ex-funcionários da Cambridge e dois promotores não quiseram se manifestar. Outros 21 ex-funcionários da empresa também não responderam a pedidos de entrevista.
Mas é fato que a investigação continua em curso, sob sigilo. Segundo reportagem da Veja, investigadores já descobriram indÃcios de que o plano era, em vez de usar dados do Facebook, ganhar acesso a bancos de dados do governo com informações sobre quase 80 milhões de brasileiros. Torretta criticou a reportagem e nega qualquer irregularidade.
6 – Eduardo Bolsonaro e Steve Bannon se encontram em um polêmico hotel de luxo em Nova York
No dia 3 de agosto deste ano, Bolsonaro postou uma foto nas redes sociais, ao lado de Steve Bannon. A imagem gerou repercussão e especulações sobre a possÃvel parceria. Com o apoio de Aliaume Leroy, investigador do Bellingcat, verificamos que Eduardo Bolsonaro e Bannon estavam em um quarto de frente do Hotel Loews Regency em Nova York.
O Loews Regency é conhecido da imprensa americana por seus muitos escândalos. Em abril deste ano, o FBI (PolÃcia Federal americana) fez uma operação de busca e apreensão no hotel. O alvo era o quarto de Michael Cohen, advogado de longa data do presidente americano Donald Trump. Aliados de Trump, como Cohen e o próprio Bannon, são figurinhas conhecidas no Loews.
7 – Bolsonaro buscou a Cambridge, mas empresa não o quis como cliente
A Cambridge Analytica ficou famosa ao ajudar em dois feitos eleitorais que deixaram analistas sem ar. O primeiro foi a vitória do Brexit, em que britânicos votaram para sair da União Europeia, em junho de 2016. Depois, em novembro do mesmo ano, os americanos elegeram Donald Trump. Ambas importantes para a extrema direita global. Mas outros paÃses onde o vento direitista soprou também viram sinais da obscura empresa britânica.
Nas Filipinas, por exemplo, publicações no site do SCL Group, a empresa-mãe da Cambridge Analytica, mencionam o trabalho na transformação da imagem de um candidato para alguém de âdurão e decididoâ, segundo o jornal South China Morning Post. Especula-se se o candidato em questão seja Rodrigo Duterte, o presidente que deu poder a esquadrões da morte, iniciando a guerra à s drogas mais sanguinária de que se tem notÃcia. Membros da campanha de Duterte disseram à imprensa local que a Cambridge apenas influenciou seu trabalho.
No Brasil, não há evidências de que a empresa tenha ajudado o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro. NotÃcias de janeiro deste ano afirmam que Bolsonaro foi renegado pela Cambridge Analytica ao tentar contratá-los e, mais recentemente, Bannon confirmou a informação à BBC News Brasil.
Ao ser questionado, Torretta também confirmou que houve conversas de Bolsonaro e integrantes da CA em Nova York. Apesar de ser um parceiro da CA no Brasil à época, Torretta nega que a aproximação entre Bolsonaro e Bannon tenha passado por ele.
Torretta também confirmou que Bolsonaro buscou a Cambridge e a empresa não o quis como cliente. Segundo ele, a Cambridge Analytica ânão achou que seria propÃcio tê-lo como cliente porque ele é de extrema-direitaâ e poderiam ser feitas associações com Trump. âAchei que tinha certa lógicaâ, comentou Torretta ao #Colabora.
Até o momento, não foram encontrados registros de nenhum pagamento da campanha de Bolsonaro a empresas ligadas à Torretta ou à Cambridge Analytica no Tribunal Superior Eleitoral. Torreta negou ter participado de sua campanha ou da campanha de seus filhos.

Não há como comprovar a associação da CA e a campanha, e acho bem provável que a CA realmente não foi contratada. Porém é certo que foram usados esquemas de publicação e compartilhamento de notÃcias falsas em massa, que beneficiaram muito mais B. Consultorias anti notÃcias falsas expuseram vários dados que comprovam isso. Sempre a maioria esmagadora das noticias falsas são pró-bolsonaro.
E é engraçado como seu eleitorado é afetado pelo que chamo de uma mistura de pós-verdade com duplipensamento: A notÃcia comprovadamente falsa só é falsa mesmo se beneficiar H. Se beneficiar B, é, no máximo, uma manifestação da liberdade de expressão. E também, toda a mÃdia é anti B, B é o maior alvo das notÃcias falsas, bem como o homem é alvo das feministas radicais, os brancos são alvos de racismo e por aà vai…
Me parece claro que esse fenômeno só ocorreu pelo pouco nÃvel de instrução da classe média / pobre.
Concordo plenamente com Mauro