Desde a época em que estudava na Escola Logos, em São Paulo, a professora Ynaê Lopes dos Santos já se incomodava com o silêncio em torno da Ãfrica e da cultura afro-brasileira nas salas de aula. Depois que começou a lecionar, em 2001, seu desconforto com a desinformação sobre o continente só aumentou. Foi diante desse cenário que ela resolveu usar o seu conhecimento para ajudar a revolucionar o padrão da educação no Brasil. Doutora em História Social pela USP, e filha de militantes do movimento negro, Ynaê lançou, no fim de 2017, História da Ãfrica e do Brasil Afrodescendente (Pallas Editora). O livro de conteúdo paradidático tem proposta ambiciosa e necessária: deslocar o foco eurocêntrico tradicional do ensino de História no Brasil e mostrar a importância da contribuição africana na formação da identidade nacional.
De acordo com dados do IBGE, 54% dos brasileiros se identificam como negros ou pardos, mas essa maioria não está representada nos livros didáticos ou nas discussões em classe. âà preciso tirar essas pessoas da invisibilidade, falar da história delas e de onde elas vêm. Tem que saber que Ãfrica é essa para podermos formar cidadãos brasileirosâ, defende Ynaê. Trata-se de um árduo trabalho de desconstrução. Por séculos o Ocidente difundiu a falsa ideia de que a Ãfrica é uma unidade desprovida de diferenças. âNa Ãfrica contemporânea são faladas mais de 2 mil lÃnguas, existem diversas religiões e as diferenças fÃsicas encontradas entre um queniano e um egÃpcio são tão grandes como as encontradas entre um português e um dinamarquêsâ, compara.
E no Brasil? Em 350 anos, desembarcaram aqui 5 milhões de escravos, numa estimativa conservadora. No final do século XIX, éramos o último paÃs das Américas a usar esta mão de obra. Ainda hoje, todo esse contingente é tratado como uma massa amorfa e sem individualidade, que foi libertada por uma princesa branca. Figuras históricas como Tereza de Benguela â que liderou um quilombo no Mato Grosso, no século XVIII â nunca são mencionadas. âà como se não tivessem existido. O escravo precisa ser visto como um sujeito histórico, que se rebelava não apenas nos quilombos, mas no seu cotidianoâ, resume a autora.
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Veja o que já enviamosNum paÃs em que a grande maioria da população carcerária ou que mora em favelas é negra ou parda, discutir esses temas com profundidade é a melhor forma de combater a discriminação racial.  âO aluno que amplia o seu olhar percebe que a lógica eurocêntrica não é a única narrativa possÃvel. Essa pluralidade de pontos de vista ajuda a enfrentar preconceitos e promover a tolerânciaâ, diz Ynaê.
Mas são muitos os desafios. Há quinze anos foi promulgada a Lei 10.639/03, que estabelece obrigatoriedade do ensino de História da Ãfrica e da cultura afro-brasileira no currÃculo da educação básica. Isso não foi o suficiente para reverter a situação, porque ainda há muita resistência por parte das escolas, das famÃlias dos alunos, da bancada evangélica e até de alguns professores, que estão assoberbados trabalhando em condições precárias. âUma das ideias é que os livros paradidáticos sirvam de ferramenta para o professor incluir esse conteúdo no currÃculo. Se você está falando sobre as origens do Cristianismo, por exemplo, porque não mencionar o Império Axum (originário do planalto EtÃope, nordeste da Ãfrica), que se converteu à religião?â, questiona.
O debate público promovido nas redes sociais e o ativismo identitário fomentam o interesse do leitor pelas tradições afro-brasileiras. âSem dúvida nenhuma, há uma forte questão de representatividade para a população negra, mas não apenas ela, que faz com que muitos tÃtulos e autores alcancem ótimas marcas. E esse leitor não está apenas interessado no resgate das tradições afro-brasileras, mas há um forte interesse sobre as expressões da afro-brasilidade atual, viva e em construçãoâ, pondera a historiadora Cristina Warth, diretora da Pallas Editora. Outros autores que percebem esse nicho de mercado se debruçaram em projetos de livro semelhantes â como a historiadora Marina Mello e Souza, autora de Ãfrica e Brasil Africano (Ãtica), vencedor do Prêmio Jabuti 2007, na categoria Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino Fundamental ou Médio.
A maior resistência à aplicação da lei vem da bancada evangélica, responsável pelo projeto de escola sem partido, que tramita na Câmara. A polêmica gira em torno da crença de que certos temas, como o ensino de religiões de matriz africana, impõem determinados princÃpios religiosos nas escolas. Ynaê acredita que seu livro ajuda a promover a pluralidade na educação em um Estado laico. âQuero colocar a Ãfrica no mapa da história, pensar com seriedade em temáticas apagadas e, com isso, permitir que tenhamos algum repertório sobre os africanos que ajudaram a construir o Brasilâ, conclui a autora.
