Enquanto o Brasil acompanha polarizado â e ativamente â os movimentos dos dois candidatos à presidência mais cotados na disputa, o silenciamento ronda a eleição para governadores. Só há duas mulheres com chances de chegar ao segundo turno no próximo domingo, de acordo com as mais recentes pesquisas do Ibope em 26 estados e o Distrito Federal: Fátima Bezerra, do PT, no Rio Grande do Norte, e Eliana Pedrosa, do (Pros), no Distrito Federal. A falta de representatividade feminina nas eleições majoritárias para os estados contrasta com o movimento #EleNão, que levou à s ruas milhares de mulheres em 40 cidades e 26 estados do paÃs contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) no sábado (29/9).
[g1_quote author_name=”Giovana Xavier” author_description=”Professora do Instituto de Educação da UFRJ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Hierarquicamente falando, deputadas estaduais e federais legislam (põem a mão na massa) ao passo que presidentes, prefeitos e governadores legitimam (executam). Assim, existe uma ideia de que execução é assunto de homem
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Veja o que já enviamosNos demais estados, à exceção do Maranhão, não há mulheres sequer em segundo lugar na disputa. Lá, Roseana Sarney (MDB) é a segunda colocada, com 32%, atrás de Flávio Dino (PCdoB), que tem chances de vencer ainda no primeiro turno: sua candidatura está em curva ascendente, foi de 43% para 49%. Independentemente do viés à esquerda, ao centro ou à direita das candidaturas, a questão que se coloca é: as mulheres continuam marginalizadas do protagonismo polÃtico, tendência que distoa da pauta do empoderamento feminino que vem ganhando destaque na sociedade nos últimos três anos.
Hashtags como #ChegaDeFiuFiu, #MeuPrimeiroAssédio, #MeToo e #MeuAmigoSecreto , entre outras, dominaram as redes sociais, arrastaram milhares de mulheres à s ruas e ocuparam a pauta da mÃdia, dando o recado de que os machistas não passarão. Portanto, não seria fustrante assistir à marginalização das mulheres na polÃtica? Especialistas em estudos de gênero apontam a estrutura patriarcal da sociedade como um dos motivos para a ausência de mulheres com chances de vencer as eleições para os governos. Mas estão otimistas quanto ao cenário futuro.
âHierarquicamente falando, deputadas estaduais e federais legislam (põem a mão na massa) ao passo que presidentes, prefeitos e governadores legitimam (executam). Assim, existe uma ideia de que execução é assunto de homemâ, aponta Giovana Xavier, professora do Instituto de Educação da UFRJ, coordenadora do Grupo Intelectuais Negras e colunista do Nexo Jornal. âVocê pode comparar isso com a distribuição de cargos nas universidades, por exemplo. Você tem muitas chefes de departamentos mulheres. Entretanto, pouquÃssimas pró-reitoras, coordenadoras de pós e reitoras mulheresâ, compara Giovana. âOu seja, por mais que a sociedade esteja se transformando e as mulheres avançando no domÃnio do mundo público, esse domÃnio segue se dando dentro da estrutura patriarcalâ, sustenta.
Doutora em Comunicação pela PUC-Rio e professora da Universidade Estadual do PiauÃ, Clarissa Carvalho concorda. âExiste uma cortina de fumaça em relação à lei que determina a cota de 30% de candidatas mulheresâ, sustenta a professora, dedicada aos estudos de gênero nos últimos oito anos. O número de mulheres concorrendo aumentou, aponta, mas sem chances reais. Isso sem falar das laranjas, lembra ela. âEm que momento as mulheres tiveram chances de construir uma carreira polÃtica a partir dos movimentos sociais e de suas práticas profissionais?â, questiona. âEnquanto os homens estão construindo suas carreiras polÃticas, as mulheres estão cuidando dos afazeres domésticos e dos filhos delesâ.
Clarissa também lamenta que existam muitas candidaturas de mulheres que herdaram o capital polÃtico de pais e maridos sem terem construÃdo uma agenda própria. âO que observo aqui no Nordeste e, principalmente no PiauÃ, onde eu moro, é que a maioria das candidatas não construÃram capital polÃtico para estarem  aliâ. Giovana também vê problemas no ensino de história: âEu acho que isso se relaciona ao fato de a polÃtica institucional ser tratada como um assunto para homens. Por exemplo, no ensino de história tradicional, conteúdos como o coronelismo são trabalhados apenas enfatizando a participação de homens na história polÃtica. Isso acaba sendo naturalizadoâ, enfatiza. Mas tanto Giovana quanto Clarissa veem sinais de mudança no horizonte. Apesar de a hashtag #EleNão sugerir uma posição reativa â contra uma candidatura â elas enxergam potência na mobilização.
âO movimento foi à s ruas com uma agenda aberta de defesa e fortalecimento de direitos humanos ligados ao gênero, à sexualidade, ao trabalho e, especialmente, à vida e à integridade da população brasileira, especialmente a pobreâ, ressalta Giovana. âNomear o movimento como âcontraâ não é a mesma coisa que dizer que seu propósito é apenas reativoâ, prossegue. âSer contra é se manifestar mostrando que temos voz e não somos passivasâ, reafirma a professora Clarissa. âEsses movimentos reativos ajudam a fomentar uma cultura polÃtica entre as mulheres. A partir disso, algumas pautas positivas surgemâ, sublinha. âQuero acreditar que, nos próximos pleitos, teremos mais mulheres participando efetivamenteâ, acrescenta.
Um dos sintomas de mudança, para Clarissa, estaria na postura da candidata a vice de Fernando Haddad, Manuela DâÃvila, do PCdoB, que leva a filha Laura, de dois anos, para vários atos de campanha. Em sua conta no Facebook, a candidata, antes de tornar-se candidata a vice pelo PT, quando ainda era candidata à presidência pelo PC doB, desabafou sobre as crÃticas que vinha recebendo: âNão me perguntem por que levo Laura. Perguntem quem cria os filhos dos candidatos de vocês, beleza?â. Ela escreveu o post depois de explicar que divide com o marido, o músico Duca Leindecker, as tarefas e os cuidados com a filha, e que leva a criança quando sabe que vai ficar muito tempo longe de casa
âA Manuela participou e participa de diversos atos de campanha com a filha. à impressionante como isso chamou a atenção porque a gente não está acostumado a crianças participarem das atividades polÃticas desta forma. As pessoas geralmente estranham as crianças na polÃticaâ, pontua Clarissa, enfatizando que tal atitude pode vir a incentivar a participação de mulheres futuramente na polÃtica.
Sobre o capital polÃtico herdado, esta reportagem seria omissa ao não relativizar inclusive a participação de caciques polÃticos em campanhas de mulheres com chances na eleição. A candidata no DF com fôlego para chegar ao segundo turno, por exemplo, tem o apoio da famÃlia do ex-governador Joaquim Roriz, que morreu recentemente. Roriz, que governou o DF por quatro vezes, protagonizou uma sucessão de escândalos na polÃtica. De acordo com as investigações da PolÃcia Civil na operação Aquarela, Roriz foi gravado ao telefone, com o ex-diretor do Banco de BrasÃlia (BRB) TarcÃsio Franklin de Moura, negociando a partilha de R$ 2,2 milhões sacados em uma agência da instituição. Em  2010, Joaquim Roriz chegou a lançar candidatura ao governo do Distrito Federal, buscando um quinto mandato no cargo. A tentativa foi vetada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) com base na lei da Ficha Limpa.
Já Fátima Bezerra, com chances de se eleger no Rio Grande do Norte, é senadora. No estado já existe o termo “surra de saias”, nascido das repetidas vitórias de mulheres na esfera estadual.  Entretanto, a novidade da chegada ao poder  estaria em uma candidatura de esquerda, diferentemente da eleição de Rosalba Ciarilini (DEM), em 2010, e dos triunfos da governadora Wilma de Farias, considerada uma polÃtica de centro, em 2002 e 2006. A conferir nas urnas.
