Eles são jovens e, em sua maioria, negros. Todos moradores de favela. Cresceram ouvindo os pais falarem mal dos polÃticos, porque eles só vão a uma comunidade para pedir votos e, invariavelmente, somem, ao final da votação, reaparecendo, quatro anos depois, à s vésperas de um novo pleito. De funkeiro a evangélico, passando por candomblecista, trabalhador, estudante, nem nem (que não estuda e nem trabalha), artista, gay, lésbica, travesti, negro, branco… não importa sexo, orientação religiosa, profissão. Com raras exceções, a juventude da periferia tem aversão à polÃtica. Acha o assunto muuuuuuuuuuito chato.
A descrença na polÃtica não é um fenômeno das favelas e muito menos circunscrita ao Brasil â parece que, ultimamente, nada consegue mobilizar os milhares atraÃdos à s ruas para as âJornadas de Junhoâ, em 2013, e durante o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O ceticismo com as instituições atingiu seu ápice com os sucessivos escândalos de corrupção que emergiram com o processo da Lava-Jato. A sensação é de que o establishment polÃtico está caindo de podre. A renovação da representação polÃtica virou a palavra de ordem da vez, e será, sem dúvida, uma das marcas das eleições de outubro próximo.
[g1_quote author_name=”Marcus Faustini” author_description=”diretor da Agência Redes para Juventude” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosUma das marcas mais perversas de nossa cultura polÃtica é a baixa circulação de ideias e a invisibilidade de opções de candidatura
[/g1_quote]âUma das marcas mais perversas de nossa cultura polÃtica é a baixa circulação de ideias e a invisibilidade de opções de candidaturaâ, escreveu o cineasta, escritor, produtor e diretor teatral Marcus Faustini, que, desde 2011, está à frente da Agência de Redes para Juventude. A ONG, que trabalha com jovens entre 15 e 29 anos, moradores de favelas e periferias, entrou no movimento de renovação na polÃtica. Só que no lugar de lançar candidaturas, engrossando a lista de novas siglas partidárias, Faustini e sua turma está apostando na possibilidade de a cidade do Rio de Janeiro ter um prefeito vindo da periferia em… 2036. à isso mesmo, só daqui a 18 anos. Parece uma eternidade. Só que não.
Prefeito da favela
O movimento “Todo Jovem é Rio”, lançado pela Redes, em 2017, está transformando casas nas favelas cariocas em Ãgoras, dando uma roupagem contemporânea à s praças públicas, onde, na Grécia Antiga, ocorriam as reuniões e assembleias. Nestes encontros, a pergunta feita pela Rede permeia a discussão e o objetivo é de longo prazo: eleger um prefeito de origem popular em 2036. O projeto inclui 40 encontros em casas de diferentes favelas do Rio. Se Londres pode ter um prefeito muçulmano – Sadiq Khan, eleito em 2016, é filho de um motorista de ônibus com uma costureira paquistaneses -, por que o Rio de Janeiro precisa perpetuar a prática polÃtica de eleger prefeitos oriundos das áreas nobres da cidade?
Para os jovens que se reuniram na Favela do Fumacê, em Realengo, na Zona Oeste do Rio, num inÃcio de noite, na última semana de janeiro, os principais pontos negativos de um prefeito vindo da favela são discriminação, inexperiência, falta de instrução, ser negro e ser favelado. Divergências à parte, eles convergem quando afirmam em unÃssono que, socialmente, “ser favelado é sinônimo de ladrão”. Usando uma metodologia de trabalho que estimula a discussão, o dançarino André Felipe, integrante do grupo Descolados, do Fumacê, e uma jovem liderança local descoberta pela Rede, pede aos jovens presentes no encontro para falarem sobre os pontos positivos de um prefeito favelado. Conhecer o território e saber quais são as reais necessidades dos moradores das favelas são as caracterÃsticas positivas apontadas.
Até o final do ano, cerca de 200 jovens de comunidades terão sido mobilizados para discutir polÃtica. à um trabalho de formiguinha. Se o objetivo será alcançado daqui a 18 anos ainda é prematuro afirmar, mas o fato é que discutir polÃtica ajuda a formar eleitores conscientes. Por enquanto, os jovens têm saÃdo dos encontros convencidos de que discutir polÃtica pode ser legal e, o mais importante, que a polÃtica não se restringe à esfera do Estado, do governo, dos polÃticos, de BrasÃlia. Aprendem que fazer polÃtica é um ato diário.
