Em pleno novembro da Consciência Negra, o Brasil soube da existência de mercados de escravos na LÃbia, paÃs mergulhado no caos institucional desde a queda do lÃder Muamar Khadafi, em 2011. A denúncia não é nova; há anos organizações da sociedade civil documentam maus-tratos e negociações de migrantes e refugiados em território lÃbio. Mas uma reportagem da rede americana CNN, iniciada após a divulgação de um vÃdeo de dois homens, um deles nigeriano, sendo leiloados por US$ 800, causou indignação planeta afora, no mês passado. O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou-se horrorizado. Por aqui, foi imediata a empatia com a militância afrodescendente, porque escravidão, condições degradantes e violações a direitos constituÃram o paÃs.
[g1_quote author_name=”Anistia Internacional Brasil” author_description=”Trecho da carta ao primeiro-ministro da LÃbia” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]âEstão presas em condições horrÃveis, sem acesso a alimentos, água ou medicamentos. Além disso, estão expostas aos abusos mais terrÃveis, incluindo tortura, extorsão, mão-de-obra limitada e abusos sexuaisâ, denuncia o documento.
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Veja o que já enviamosO vÃdeo varreu as redes sociais e causou comoção. O governo federal não se pronunciou, mas no Congresso Nacional há articulações para aprovar uma moção de repúdio ao escravismo e ao tráfico de pessoas. Na semana passada, duas instituições da sociedade civil agiram para cobrar providências. Quinta-feira, a Anistia Internacional Brasil iniciou ação urgente para enviar a lÃderes lÃbios e europeus uma enxurrada de e-mails reivindicando que trabalhem em conjunto para libertar os detidos em campos de retenção, investigar ocorrências de tortura e maus-tratos, revisar polÃticas de migração, reconhecer formalmente e permitir o trabalho do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
No texto, endereçado ao primeiro-ministro lÃbio Fayez Al-Sarraj e ao presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, a organização afirma que, atualmente, mais de 20 mil migrantes e pessoas refugiadas estão presas em centros de detenção oficiais dirigidos por milÃcias e grupos armados ligados ao governo. âEstão presas em condições horrÃveis, sem acesso a alimentos, água ou medicamentos. Além disso, estão expostas aos abusos mais terrÃveis, incluindo tortura, extorsão, mão-de-obra limitada e abusos sexuaisâ, denuncia o documento.
Terça-feira, Merced Guimarães dos Anjos, presidente do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), apelou a Ali Moussa, responsável pelo projeto Rota do Escravo da Unesco. Em carta pede o fim da mercantilização de humanos na LÃbia:
âVimos expressar o nosso mais absoluto horror pelas imagens que viralizaram nas redes sociais, com chocantes registros em vÃdeo de um escancarado leilão de escravos africanos, ocorrido na LÃbia. As cenas são tão impactantes, que trazem os horrores do passado à nossa porta. Não podemos simplesmente ter contato com esta informação e sonegarmos apoio para que algo muito eficaz seja feito para acabar com o tráfico e a mercantilização de seres humanos na LÃbiaâ.
O IPN abriga o SÃtio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, na área portuária do Rio. Ali, entre o fim do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, eram enterrados os africanos recém-desembarcados e ainda não comercializados para o trabalho escravo. Daà a expressão pretos novos. O memorial fica na chamada Pequena Ãfrica carioca, que engloba também o Cais do Valongo, declarado este ano patrimônio mundial pela Unesco. O Centro do Rio foi o mais importante porto de desembarque de africanos do Brasil e do mundo. Os que sobreviviam à travessia atlântica eram vendidos em mercados nas redondezas.
Por isso, as notÃcias sobre a comercialização de migrantes e refugiados na LÃbia assombrou brasileiros. Oriundas da Ãfrica subsaariana, as vÃtimas são vendidas por traficantes que supostamente as levariam para a Europa. Na LÃbia permanecem em locais fechados, sem água ou alimentação digna. Quando não negociam as pessoas para o trabalho forçado, os mercadores de humanos exigem resgate das famÃlias para liberar os aprisionados.
à rede britânica BBC, o etÃope Harun Ahmed, de 27 anos, contou que foi vendido três vezes por mercadores de escravos. Ele deixou Agarfa, onde nasceu, para tentar a vida no Sudão. Depois de um ano e meio migrou para LÃbia, na intenção de cruzar o Mar Mediterrâneo e chegar à Europa. Até chegar à Alemanha, onde vive hoje, Harun sobreviveu a meses de tortura, fome e trabalho pesado. São evidências de que a brutalidade do passado vive em pleno século XXI.
