Algumas coincidências cercam o mundo do esporte multimilionário â e parecem espreitar o colapso de seu modelo. O inventor do formato, o brasileiro João Havelange, passou décadas no poder até cair em desgraça e morrer durante o evento que iniciou os questionamentos ao conceito vigente há pelo menos um quarto de século. Os escândalos de corrupção em torno de dois discÃpulos do capo da Fifa â o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira e, mais recentemente, o eterno presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman â transformam-se em contundente sÃmbolo da decadência.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]No Rio, o Parque OlÃmpico jaz como depósito de entulho e objetos usados nas competições; a Vila dos Atletas transformou-se num mico, tragada pela crise que inviabiliza a venda dos apartamentos. O Comitê Organizador â do qual Nuzman foi o presidente â ainda toureia dÃvida de R$ 117 milhões, que deve cair no colo da prefeitura e do governo do estado
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Veja o que já enviamosO desembarque do czar olÃmpico na Operação Lava Jato serve de cereja para o bolo de equÃvocos que domina o pós-Jogos de 2016. Nuzman, preso junto com seu braço-direito Leonardo Gryner nesta quinta (5/10), está metido na denúncia que mancha a escolha do Rio como sede do megaevento â teria sido o intermediário da propina paga a um dos eleitores do Comitê OlÃmpico Internacional. A fonte do dinheiro (US$ 2 milhões) seria Arthur Cesar de Menezes Soares Filho, o âRei Arthurâ, ligado ao presidiário (e ex-governador) Sérgio Cabral.
Ainda que mais barulhenta, a bandalheira é apenas a ponta de um processo decrépito. Copas do Mundo e OlimpÃadas andam fazendo água mundo afora, por produzirem desperdÃcio, prejuÃzos e elefantes brancos nos seus passeios pela Terra. A cobiça por abrigar tais eventos encolhe velozmente, também devido à torrente de denúncias.
A viagem pelos Ãcones do abandono â à custa, quase sempre, de algumas montanhas de dinheiro público â tem como ponto de partida o Brasil da Copa de 2014. Aqui, a Fifa pode até alegar inocência â queria oito sedes, mas a grandiloquência inconsequente de Ricardo Teixeira (com o patrocÃnio empolgado do então presidente Lula) impôs 12, materializando barbaridades como a reforma do Estádio Mané Garrincha, em BrasÃlia, sorvedouro de R$ 1,8 bilhão.
Entre os campos da competição famosa pelo 7 a 1, há outros casos bizarros. Na Arena Pantanal, em Cuiabá, foram enterrados R$ 646 milhões, e em 2015, houve 48 jogos (três deles de clubes da primeira divisão) por lá, nos quais se faturou… zero. Fechou o ano com prejuÃzo de R$ 4,2 milhões. Em 2016 e 2017, problemas com laudos de manutenção obrigaram a partidas com portões fechados. O maior público pós-Mundial foi no confronto entre Luverdense e Corinthians, pela Copa do Brasil: 16 mil dos mais 41 mil lugares ocupados. Neste Sete de Setembro, a arena padrão Fifa abrigou o Desfile da Independência. No mais, abre para um ou outro jogo do brioso Cuiabá, integrante da Série C do Campeonato Brasileiro.
Os estádios das duas maiores cidades do paÃs usados na Copa também enfrentam problemas. Endereço da final, o Maracanã está praticamente sem uso, metido num imbróglio da crise do governo do Rio com a Odebrecht, concessionária do estádio mÃtico, hoje desfigurado por uma reforma que engoliu R$ 1,2 bilhão e, segundo o Tribunal de Contas do Estado, foi superfaturada em R$ 211 milhões.
Sede da abertura, o Itaquerão, arena do Corinthians, afunda numa dÃvida impagável, que alcança R$ 2 bilhões. O clube renegocia de tempos em tempos â atualmente paga R$ 3 milhões mensais â, mas um calote e a consequente devolução à Odebrecht (construtora do estádio, a pedido, mais uma vez, de Lula) não podem ser descartados.
Todos, aqui e nos outros paÃses, obedientes ao âPadrão Fifaâ, expresso em estádios faraônicos e, claro, caminho para a corrupção endêmica nas grandes obras. Os cadernos de encargos exigidos pelos donos de Copas e OlimpÃadas são as bulas do descalabro.
O Rio pagou em dobro, por causa dos Jogos de 2016. O Parque OlÃmpico jaz como depósito de entulho e objetos usados nas competições; a Vila dos Atletas transformou-se num mico, tragada pela crise que inviabiliza a venda dos apartamentos. O Comitê Organizador â do qual Nuzman foi o presidente â ainda toureia dÃvida de R$ 117 milhões, que deve cair no colo da prefeitura e do governo do estado, como reza o contrato assinado entre o COI e as três esferas de poder, após a eleição agora maculada.
Todo este modelo de construções gigantes nasce da formulação de Havelange. Eleito presidente da Fifa em 1974, ele enxergou e turbinou a força polÃtica e econômica do esporte. As competições conjugam emoção e beleza, forjam heróis, testam os limites da espécie humana, sedimentam alegrias e tristezas, semeiam paixões. Assim, âlavamâ tudo.
Para dar exemplo atual, haverá sequer um torcedor do Paris Saint-Germain preocupado com a procedência dos 222 bilhões de euros pagos ao Barcelona por Neymar? (O craque embolsa 30 milhões de euros por ano.) A fortuna veio de um fundo controlado pelo governo do Catar, também dono do clube francês â e, desde que o brasileiro faça suas diabruras em campo, tudo certo.
A visão de Havelange agigantou a Copa do Mundo e as OlimpÃadas (ele também era conselheiro influente do COI). A competição poliesportiva teve seu ponto de virada em Barcelona/1992, quando consolidou-se a ideia de legado â promessa central para os Jogos do Rio, que desmanchou-se em desalento.
A terra carioca não está sozinha na ressaca pós-evento. Nos últimos anos, multiplicam-se os casos de desperdÃcio mundo afora, nas sedes dos eventos esportivos. A aventura da Fifa nas savanas dâÃfrica deixou diversos elefantes brancos erguidos para a Copa de 2010. O mais reluzente deles, o Green Point, fica na Cidade do Cabo, custou o equivalente a R$ 1 bilhão e sangra num prejuÃzo de R$ 10 milhões mensais só em manutenção.
Dois emblemas dos Jogos de Pequim-2008 servem de contribuição asiática à viagem do desperdÃcio esportivo. O Estádio OlÃmpico, famoso como Ninho do Pássaro, e o Cubo DâÃgua, o centro aquático, viraram estorvos para a prefeitura da capital chinesa. ConstruÃdos a um preço de, respectivamente, US$ 430 milhões e US$ 530 milhões, jazem praticamente sem uso.
Conservar o Ninho do Pássaro sai por US$ 21,9 milhões anuais, segundo a agência estatal de notÃcias Xinhua. A arena de 80 mil lugares não pode ser usada para shows â grandes concentrações humanas são praticamente proibidas na China â e é um despropósito para o Beijing GuoâAn, que disputa o campeonato de futebol local (com o meia brasileiro Renato Augusto, titular da seleção de Tite, como estrela). O time manda suas partidas no Estádio dos Trabalhadores, com capacidade para 60 mil pessoas e teve como média de público, em 2016, pouco menos da metade disso â 38.114 espectadores.
A escolha do Rio como endereço olÃmpico marca o ocaso da cobiça de cidades e paÃses por abrigar os megaeventos. A vitória sobre Chicago e Madri, trazendo os Jogos à América do Sul pela primeira vez, tem a sombra da corrupção para ratificar o que os jornalistas britânicos Vyv Simson e Andrew Jennings denunciaram no clássico livro âOs senhores dos anéis â Poder, dinheiro e drogas nas OlimpÃadas modernasâ (Editora Best-Seller, 1992). Eles passeiam pelos muitos episódios suspeitos envolvendo cartolas olÃmpicos.
O escocês Jennings fez o mesmo com o futebol em âJogo sujo: o mundo secreto da Fifaâ (Panda Books, 2011), desnudando esquemas fraudulentos nos pagamentos dos valiosos direitos de transmissão dos eventos pela TV. âAs coisas que descobri são tão estarrecedoras que até eu mesmo fiquei chocadoâ, escreveu o jornalista, que teve sua credencial negada pela Fifa para cobrir Copas do Mundo.
Mas a casa está caindo â e bem antes de Nuzman, arrastou poderosos do futebol, quando, em 2015, o FBI saiu prendendo mundo afora, num escândalo nunca visto no esporte. Lavagem de dinheiro, corrupção, extorsão e fraude eletrônica estão entre os crimes apurados pela polÃcia americana, praticados por cartolas como o então presidente da CBF, José Maria MarÃn, até hoje em prisão domiciliar, em Nova York. Seu sucessor no posto, Marco Polo del Nero, não bota o pé fora do Brasil desde então, com medo de ser engaiolado.
As prisões e as denúncias em torno de um setor que tem alergia a transparência e democracia acabaram por desvalorizá-lo. A ponto de praticamente não haver candidatos a abrigar as OlimpÃadas seguintes aos Jogos de Tóquio-2020. Apenas Paris e Los Angeles botaram a cara e levaram automaticamente. O COI até deixou que as cidades decidissem entre si as datas de preferência â a capital francesa ficou com 2024 e os californianos com 2028.
Jamais por acaso, as duas entidades gostam de se denominar âfamÃliasâ â âFamÃlia Fifaâ e âFamÃlia OlÃmpicaâ. âNunca deixe que ninguém de fora da famÃlia saiba o que você está pensandoâ, ensina Dom Corleone, na magistral interpretação de Marlon Brando em âO poderoso chefãoâ. O filme real dos manda-chuvas esportivos parece ter chegado ao epÃlogo.
