A aviação é uma das indústrias que mais emite monóxido de carbono (CO2) em todo o mundo. Mas no inÃcio de 2021 surgem nos céus sinais de mudanças significativas além dos compromissos das companhias aéreas em neutralizar emissões. Em janeiro, a holandesa KLM realizou o primeiro voo comercial com passageiros usando 5% de querosene sintético, produzido a partir de fontes de energia renováveis. Quase simultaneamente, a British Airways assumiu o compromisso de testar etanol feito a partir de produtos agrÃcolas e de lixo urbano reciclado. As empresas fabricantes de avião também se movimentam. Tanto a americana Boeing quanto a europeia Airbus anunciaram recentemente investimentos em projetos de aeronaves que usariam 100% de combustÃvel de aviação sustentável (SAF, na sigla em inglês)
Dados da Agência Europeia do Ambiente mostram que, em 2017, o setor aéreo emitiu cerca de 3,7% dos gases de efeito estufa da União Europeia. Globalmente, a aviação responde por entre 2% e 3% das emissões de carbono. A meta é reduzir pela metade até 2050 as emissões de 2005. O voo é de longa distância. Segundo a Iata (International Air Transport Association), em 2019 as companhias usaram cerca de 340 bilhões de litros de combustÃvel fóssil convencional. Por enquanto, a produção de combustÃvel de aviação sustentável fica em torno de 50 milhões de litros. O setor vive a pior recessão da história, porém a pandemia também pode acelerar a pesquisa, a produção e o uso de combustÃveis sustentáveis.
Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosFabricantes de avião investem em combustÃvel de aviação sustentável
Em janeiro de 2021 a Boeing se comprometeu a fabricar até 2030 um avião comercial capaz de voar usando 100% de combustÃvel de aviação sustentável. A empresa começou a experimentar voos com menos emissões de carbono em 2008. Dez anos depois, realizou um primeiro teste usando combustÃvel sustentável em um 777 Freighter, avião de carga. Já a concorrente Airbus anunciou no final de 2020 que pretende entregar em 2035 o primeiro avião comercial que voará sem emitir carbono. A empresa trabalha em três protótipos diferentes de aeronaves que usariam hidrogênio verde, obtido de fontes de energia renováveis.
âO hidrogênio, tanto em combustÃveis sintéticos quanto como fonte de energia primária para aviões comerciais, pode reduzir significativamente o impacto da aviação na questão climáticaâ, disse o CEO da Airbus, Guillaume Faury, no anúncio do projeto.
Companhias aéreas apostam em combustÃveis sintéticos
Etanol é uma das apostas da British Airways, que apresentou no inÃcio de fevereiro uma parceria com a empresa americana de combustÃvel de aviação sustentável LanzaJet para investir em uma refinaria nos Estados Unidos. O etanol será produzido a partir da agricultura (milho, cana-de-açúcar) e de lixo urbano reciclado. A BA pretende fazer voos transatlânticos com uso parcial de combustÃvel de aviação sustentável já em 2022. Segundo a companhia, estes voos emitiriam 70% menos de carbono. Outra empresa britânica, a Virgin Atlantic, tem desde 2018 um acordo com a LanzaTech, empresa da qual saiu a LanzaJet. Mas, por enquanto, ainda não usou mais do que 5% de combustÃvel de aviação sustentável em voos de demonstração.
Este foi o mesmo percentual no avião da KLM que fez o primeiro voo comercial de passageiros com combustÃvel de aviação sustentável. Um Boeing 737 voou entre Amsterdã e Madri com 500 litros (5% do total utilizado) de querosene sintético produzido pela Shell a partir de fontes de energia renováveis.
âA transição do combustÃvel fóssil para alternativas sustentáveis é um dos maiores desafios do setor aéreo. A renovação da frota contribui para a redução das emissões de CO2, mas o combustÃvel de aviação sustentável fará mais diferença. Este primeiro voo com querosene sintético mostra que é possÃvelâ, disse o CEO da KLM, Pieter Elbers, no anúncio do voo.
A Holanda é um dos paÃses europeus que incentivam a pesquisa de combustÃveis para tornar o setor aéreo mais verde. A meta holandesa é que, até 2050, todas as companhias aéreas do continente usem combustÃvel de aviação sustentável.
âO querosene sintético é promissor e poderá ser de grande importância nas próximas décadas para reduzir as emissões de CO2 da aviação. Espero que seja também inspirador nestes tempos turbulentos da aviaçãoâ, disse Cora van Nieuwenhuizen, ministra de Infraestrutura e Gestão da Ãgua da Holanda, na apresentação do voo da KLM.
Já a aposta da Delta é em celulose. No inÃcio de 2020, a companhia aérea americana anunciou um acordo com a Northwest Advanced Bio-Fuels para compra de combustÃvel de aviação sustentável. Ainda em fase de estudos, o combustÃvel seria produzido em um refinaria no estado de Washington e usado nas operações da empresa na Costa Oeste dos Estados Unidos.
Bons ventos podem ser aliados da aviação mais sustentável
Os âtempos turbulentosâ abriram uma janela de oportunidade para a economia de combustÃvel convencional nos voos transatlânticos. Nas rotas entre a Europa e a América do Norte, um dos espaços aéreos mais movimentados do mundo, os voos seguem por aerovias pré-determinadas. Mas com a redução brutal do número de trajetos transatlânticos, controladores de voos começam a permitir que pilotos escolham seus próprios percursos. Por tempo indeterminado, controladores de voos responsáveis pelo espaço aéreo do Reino Unido e do Canadá estão autorizando que nos dias de baixo tráfego aéreo transatlântico (cerca de menos de 500 aviões no ar, e não os mais de 1.700 pré-pandemia) as companhias aéreas tracem rotas mais econômicas. O resultado é uma redução do uso de combustÃvel em cada voo e, consequentemente, das emissões de carbono.
Pesquisadores da Universidade de Reading, no Reino Unido, estudaram 35 mil voos transatlânticos realizados no inverno passado no Hemisfério Norte e concluÃram que os ventos poderiam ser mais bem aproveitados.
âAjustar a rota dos voos é muito mais barato e pode oferecer benefÃcios imediatos. A aviação precisa urgentemente baixar suas emissões para reduzir o impacto nas mudanças climáticasâ, disse a CNN Business Paul Williams, cientista atmosférico da Universidade de Reading.
Acertos nos trajetos para que as aeronaves aproveitem melhor os ventos podem proporcionar economia de combustÃvel de até 16% em cada voo. Este percentual é semelhante ao esperado quando se substitui uma aeronave por uma mais nova.
âEstimamos que cada nova geração de aeronaves de passageiros aumenta a eficiência de combustÃvel entre 15% e 20%â, disse a CNN Michael Gill, diretor de meio ambiente da Iata. âSeria bem-vinda a possibilidade de usar os ventos com mais frequência e de forma permanenteâ.
A Virgin Atlantic já anunciou mudanças nos trajetos de seus voos para melhor aproveitar o padrão de ventos. A United Airlines pretende fazer o mesmo para âviagens mais rápidas, confortáveis e sustentáveisâ usando menos combustÃvel convencional na travessia do Oceano Atlântico. Bons ventos aliados aos novos combustÃveis de aviação sustentáveis, que ainda não estão amplamente disponÃveis e custam mais caros que os combustÃveis fósseis, podem ser parte da solução para reduzir os danos ambientais causados pelos voos.
