Como ampliar audiência? Ouça e entenda seu público

No Festival 3i, jornalistas explicam a necessidade de entender as características da audiência e as tendências de mercado para distribuir conteúdos

Por Festival 3i | ODS 16ODS 9 • Publicada em 21 de março de 2022 - 08:12 • Atualizada em 1 de abril de 2022 - 11:08

Compartilhe

(Texto: Mariana Assis / Edição: Giulia Afiune / Ilustração: Camila Araujo*) – Estudar e conhecer a audiência do veículo é a base para construir estratégias de distribuição de conteúdo. Mas não basta conhecer os dados demográficos sobre aquele público. Na avaliação de Ronaldo Matos, co-fundador e editor do portal Desenrola e Não Me Enrola, as características do território daquela audiência também devem ser levadas em conta. “É muito louco a gente, às vezes, adaptar a nossa narrativa a uma demanda, à hashtag nas redes sociais, mas não reproduzir as hashtags da quebrada, da favela, do morro, do território indígena, do território quilombola”, considera Matos. “Qual é o assunto mais comentado nesses territórios que têm relevância estadual e nacional?”

Confira a programação completa do Festival 3i

O jornalista participou da mesa “Se ninguém lê/vê/ouve, não existe: o foco na distribuição”, que abriu a programação da tarde deste sábado (19) do Festival 3i, com uma discussão sobre a distribuição de conteúdos jornalísticos. A tarefa vem se tornando mais complexa com o rápido surgimento de novas linguagens, o advento de novas redes sociais, e as mudanças constantes nos algoritmos dessas plataformas, que fazem com que as estratégias de distribuição fiquem frequentemente desatualizadas.

Leu essa? Atlas da Notícia mostra redução dos desertos jornalísticos no Brasil

Além de Matos, participaram da mesa Lorena Morgana, community manager do Canal Reload, e Ale Higareda, fundadora e diretora do portal mexicano Malvestida.com, com a mediação de Filipe Speck, diretor executivo do Matinal Jornalismo. Os jornalistas também explicaram as estratégias que seus veículos utilizam para fortalecer a relação com a audiência, travar contato cada vez mais próximo com o leitor e promover a sustentabilidade financeira do negócio.

“O jornalismo digital no Brasil precisa trabalhar muito para conseguir desenvolver produtos e serviços para superar esse contexto das desigualdades digitais”, defende Matos. O jornalista refere-se a redes precárias de internet que, consequentemente, limitam o acesso de navegação para pessoas que moram em periferias.

Uma das propostas para solucionar este entrave foi o desenvolvimento do Território da Notícia, que distribui conteúdos jornalísticos em 25 telas de sinalização digital instaladas em supermercados e estabelecimentos comerciais nas periferias e favelas de São Paulo. A iniciativa foi criada em 2019 por cinco coletivos de comunicação que atuam nestes territórios: Alma Preta, Desenrola e Não me Enrola, Embarque no direito, Periferia em Movimento e Preto Império.

Outro desafio na distribuição é adaptar a linguagem a cada rede social, de modo que o conteúdo seja interessante e alinhado às expectativas do público. Na prática, significa estar constantemente realizando estudos de tendências e entendendo onde está sua audiência e como ela está consumindo o conteúdo do veículo.

O Canal Reload foi criado em 2020 com o objetivo de “descomplicar a notícia”. Nele, as reportagens de 10 veículos jornalísticos são adaptadas para linguagens e formatos mais alinhadas às redes sociais e aderentes ao público jovem. Segundo Lorena Morgana, o site do Reload cumpre o papel de “cartão de visitas”, cabendo às redes sociais a função de disseminar os conteúdos.

“A grande sacada é testar”, aconselha Morgana. Ela explicou que, à época do lançamento do Reload, embora a curva de crescimento do Facebook estivesse caindo vertiginosamente, havia a expectativa de criar uma comunidade nos grupos naquela plataforma e assim estreitar o relacionamento com o público. No entanto, isso fracassou.

Após sucessivas frustrações, veio a virada de chave. “Por que estamos gastando energia no Facebook e por que não estamos gastando energia no Tik Tok, cuja curva de crescimento estava subindo e cuja linguagem tinha 100% a ver com o Reload?”, se perguntaram. Enquanto o público do Facebook era mais velho e pouco engajado, o do Tik Tok era jovem. “Com o passar do tempo, entendemos que como o nosso público já não estava mais naquela rede, não fazia mais sentido continuar ali.”

O Reload então substituiu o Facebook pelo TikTok. “Arriscamos”, admite Morgana, ao mesmo tempo em que comemora o sucesso do veículo no TikTok, onde o perfil do Reload tem atualmente mais de 25 mil seguidores. A interatividade que não aconteceu no Facebook encontra espaço em redes como Instagram e Telegram, onde o público do Reload envia mensagens constantemente.

Foi justamente por meio dessa interação com o público que o portal Malvestida.com, veículo baseado no México e dirigido por Ale Higareda, descobriu uma nova forma de servir sua audiência, composta majoritariamente por mulheres. Após notarem que estavam recebendo muitas mensagens similares e frequentes de leitoras sobre situações de violência sexual e questões de saúde mental, o veículo decidiu criar guias sistematizando os serviços de apoio disponíveis e orientando o público para as principais dúvidas que chegavam.

“Recebíamos mensagens de pessoas relatando que, se não fossem vocês [o veículo], não teríamos ninguém a quem recorrer. Elas sentiam que não podiam contar nem com amigas, nem com as famílias. Entendemos que nosso meio é muito mais que comunicação, porque a comunidade de Malvestida a percebe como um meio seguro para falar”, contou Higareda.

Ronaldo Matos ressaltou que a informação precisa chegar especialmente para quem precisa dela. O jornalista encerrou sua fala com uma provocação: “Nós estávamos informando os mais de 110 milhões de brasileiros que estavam passando fome e continuam passando fome durante a pandemia de Covid-19? Essas pessoas estão sendo informadas por nós, com os nossos objetivos, com as nossas linhas editoriais? Se a gente não tiver informando essas pessoas, a gente precisa profundamente repensar qual é o nosso propósito histórico.”

*Texto produzido pela redação-laboratório do Projeto Repórter do Futuro para o Festival 3i 2022 como parte da Cobertura Colaborativa #FocaNo3i

Festival 3i

Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente reúne os maiores nomes do jornalismo nacional e internacional para debater o futuro da profissão e inspirando estudantes, empreendedores e jornalistas

Newsletter do Colabora

Nossa newsletter é enviada de segunda a sexta pela manhã, com uma análise do que está acontecendo no Brasil e no mundo, com conteúdo publicado no #Colabora e em outros sites.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sair da versão mobile