Segundo os critérios estabelecidos pela Unesco, uma lÃngua corre o risco de desaparecer quando é falada por menos de 1 milhão de pessoas.  O português, portanto, não está ameaçado. Só no Brasil são mais de 200 milhões de pessoas, com diferentes sotaques, usando a lÃngua de Camões. No entanto, nem só de âbom diaâ, âtudo bemâ e âobrigadoâ vivem os brasileiros. Antes da chegada de Cabral por aqui, os antigos habitantes já falavam mais de 1.200 dialetos diferentes. Hoje, sobrevivem no paÃs, com muito custo, apenas 160 lÃnguas indÃgenas. Se considerarmos que existem aproximadamente 800 mil Ãndios espalhados pelo território nacional, distribuÃdos em cerca de 200 etnias, toda essa rica diversidade corre um sério risco de extinção.
[g1_quote author_name=”José Carlos Levinho” author_description=”Diretor do Museu do Ãndio” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Perto de 40% dos povos indÃgenas têm menos de 500 indivÃduos, então a viabilidade de reprodução dessas lÃnguas é mÃnima. Quase metade dos idiomas indÃgenas está em altÃssima situação de risco, podem sumir em 10 ou 15 anos
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Veja o que já enviamosPensando na preservação e revitalização dos idiomas originais do território que hoje chamamos de Brasil, o Museu do Ãndio coordena, desde 2009, um projeto de preservação da cultura e das lÃnguas indÃgenas. Como resultado, foi produzido um vasto material: livros, gramáticas, dicionários, arquivos sonoros, exposições, fotos e filmes – muitos premiados em diversos festivais.
“Perto de 40% dos povos indÃgenas têm menos de 500 indivÃduos, então a viabilidade de reprodução dessas lÃnguas é mÃnima. Quase metade dos idiomas indÃgenas está em altÃssima situação de risco, podem sumir em 10 ou 15 anos”, afirma o diretor do Museu do Ãndio, José Carlos Levinho.
Novas tecnologias a serviço da tradição
A primeira etapa, batizada de Programa de Documentação de LÃnguas e Culturas IndÃgenas (ProgDoc), realizada até 2015, foi uma parceria entre o Museu do Ãndio, a Fundação Nacional do Ãndio (Funai) e a Unesco. Com orçamento de cerca de R$ 9 milhões, o projeto atuou em 135 aldeias de norte a sul do paÃs, beneficiando 35 mil pessoas. O material está reunido na instituição, mas alguns povos também contam com parte do acervo em suas aldeias.
Levinho afirma que a âglobalização, com acesso a televisão, rádio, telefonia celular e internet, resulta em perdas culturais para os indÃgenasâ. Apesar disso, ressalta que eles trocam influências como qualquer civilização.
Um dos pilares do programa é a participação direta dos Ãndios, boa parte deles jovens. Eles realizaram oficinas no museu, no Rio de Janeiro, e em suas aldeias, para aprender a utilizar novas tecnologias como câmeras, celulares e computadores. Assim, puderam registrar aspectos relevantes de sua lÃngua e cultura.
“Os Ãndios ganharam bolsas e passaram por um processo de formação de uso de softwares de documentação linguÃstica e cultural, criados pelo Instituto Max Plank, da Alemanha. A decisão do que seria registrado foi deles”, diz Levinho. Foram formados 95 pesquisadores indÃgenas em documentação linguÃstica, pesquisa e registro de culturas.
Ãltimo falante da lÃngua Apiaká morreu
As lÃnguas mais ameaçadas são as dos povos com menor população. Para se ter ideia do desafio, durante a execução do programa, o único falante que se tinha notÃcia do idioma Apiaká, etnia que habita o Mato Grosso, morreu – após ter dado um depoimento em vÃdeo. Situação semelhante ocorreu com o Umutina, povo que também vive no Mato Grosso. Por outro lado, o idioma dos pataxós estava em vias de extinção, mas esforços liderados pelos próprios Ãndios, principalmente mulheres professoras, fez com que a etnia voltasse a usá-lo.
A lÃngua dos grupos Guarani, Tikuna, Terena, Macuxi e Kaigang contam com mais de 20 mil falantes. Nenhuma, no entanto, pode ser considerada segura. Os idiomas indÃgenas são ricos e diversificados. Alguns têm semelhanças entre si, mas outros são tão distintos quanto o japonês é do português.
Lolawenakwaene, da aldeia Enawenê-nawê, que habita o noroeste do Mato Grosso, pensa em seus netos e bisnetos quando fala da importância da parceria com o Museu do Ãndio. “Hoje estamos fortes, mas estamos cercados como bois por não indÃgenas, é como uma avalanche. Um dia os jovens vão poder ver os registros e aprender como seus avós faziam”, afirma em sua lÃngua original. A intérprete é a antropóloga Ana Paula Rodgers, que trabalhou ao lado de quatro pesquisadores da tribo para documentar em áudio o ritual Salumã, que abrange um vasto repertório de cantos.
O projeto do museu, inicialmente concentrado nos idiomas mais ameaçados, entra agora em uma nova fase, feita com povos isolados ou recém-contatados, que sofreram menos influências externas e ainda mantêm fortes suas lÃnguas nativas.
A nova etapa, chamada de Projeto Salvaguarda do Patrimônio LinguÃstico e Cultural dos Povos IndÃgenas Transfronteiriços e de Recente Contato na Região Amazônica, teve a sua verba cortada pela metade. O orçamento restante gira em torno de R$ 5 milhões, resultado de um acordo entre Funai, Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores e Unesco.
“A ideia é criar mecanismos de preservação, para que no futuro não tenhamos apenas que documentar. Vamos trabalhar com 12 etnias e produzir material mais focado, como um evento especÃfico, um ritual ou a produção de um utensÃlio importante”, esclarece Levinho.
Apesar das iniciativas para revitalizar as lÃnguas indÃgenas, especialistas afirmam que falta uma polÃtica governamental sobre a questão. “O estado não instrumentaliza a escola para conservar a cultura indÃgena. Por que devo abrir mão do patrimônio cultural dos xavantes e manter o patrimônio dos fazendeiros de café do Vale do ParaÃba? Por que devo acabar com o estilo arquitetônico dos povos Jê e manter o estilo arquitetônico dos donos de terra do século passado?”, questiona Levinho.

Sensacional a Matéria, “LÃnguas indÃgenas correm o risco de desaparecer”.
Eu conheço esse projeto e gostei muito de ver ele publicado para que as pessoas entendam um pouco da riqueza de nosso patrimônio linguÃstico e o risco que se tem de tudo ir por água abaixo. Além de mostrar que os povos originários não são “Ãndios genéricos”, e que existe sim uma pluralidade enorme no que diz repeito a cultural material e imaterial.
Parabéns ao Colabora e ao Museu do Ãndio
Sou jornalista. Trabalho em uma TV. Estou amando o trabalho de vocês!! Parabéns