O eterno retorno de Frankenstein

    A criatura de Frankenstein vivida pelo ator Rory Kinnear na série “Penny Dreadful”. Foto de divulgação

    A concepção da saga do médico e de sua criatura completa 200 anos

    Por André Machado | ODS 9 • Publicada em 28 de agosto de 2016 - 10:16 • Atualizada em 28 de agosto de 2016 - 18:16

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    A criatura de Frankenstein vivida pelo ator Rory Kinnear na série “Penny Dreadful”. Foto de divulgação
    A criatura de Frankenstein foi vivida pelo ator Rory Kinnear na série “Penny Dreadful”. Foto de Divulgação

    É sintomático que, nestes tempos de afirmação feminina, tenha voltado à tona uma das histórias mais fascinantes da literatura, escrita justamente por uma mulher, Mary Wollstonecraft Shelley. Falo da aventura do dr. Victor Frankenstein e sua criatura, jamais nomeada e sempre confundida com seu criador. Em produções televisivas recentes, como “Penny Dreadful” – que acabou de se encerrar na terceira temporada – e “The Frankenstein Chronicles”, a saga do monstro é abordada de formas distintas – na primeira, tanto o médico quanto a criatura aparecem e se reencontram; na segunda, um detetive da polícia londrina investiga misteriosos sumiços de corpos na capital britânica, e até a própria Mary Shelley surge na trama.

    Com os olhos fechados, mas a vista aguçada, observei o pálido estudante de artes profanas ajoelhado ao lado da coisa que havia montado. Vi o medonho fantasma de um homem deitado, e então, com o trabalho de algum poderoso engenho, mostrando sinais de vida (…). Assustador ele devia ser; pois supremamente assustador seria o efeito de qualquer tentativa humana de imitar o estupendo mecanismo do Criador do mundo. O sucesso de sua obra iria horrorizar o artista, e ele fugiria para longe (…). Esperaria que a faísca de vida que transmitira fenecesse; que a coisa (…) tornasse a ser matéria morta. Ele [o estudante] dorme, mas é despertado e contempla a coisa horrível em pé ao lado da cama, olhando-o com olhos amarelos, aquosos, mas especulativos.

    Embora o livro “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” tenha sido publicado em 1818, sua concepção é de dois anos antes — mais precisamente, de junho de 1816, tendo acabado de completar 200 anos. Mary tinha apenas 18 anos quando começou a escrevê-lo. Filha de dois intelectuais britânicos (o filósofo político William Godwin e a escritora e pioneira do feminismo Mary Wollstonecraft), desde a mais tenra idade ela gostava de rascunhar nas horas vagas e se perdia em devaneios nos terrenos da residência dos pais na Escócia, sob árvores ou nas encostas de morros perto de Dundee.

    Tendo se tornado mais tarde amante do poeta romântico Percy Shelley, a quem desposaria, Mary foi incentivada por ele a se dedicar mais à escrita, buscando um lugar ao sol na literatura. Logo passou a conviver com amigos de Shelley como Lord Byron, e foi justamente na companhia deste que se deu a gênese da história de Frankenstein e seu monstro.

    No verão de 1816, Shelley, Mary e o médico e escritor John Polidori estavam visitando Byron em sua mansão na Suíça, a Villa Diodati, perto do Lago Léman. Inicialmente, como a própria Mary relembrou na introdução à edição de 1831 de seu livro, eles passeavam pelas margens do lago, mas logo uma chuva insistente os obrigou a ficar dentro de casa por dias. Ali, começaram a ler alguns livros com histórias de fantasmas alemãs traduzidas para o francês — uma delas falava de um espectro gigantesco vestido de armadura como o fantasma da peça “Hamlet”, de Shakespeare, que sorrateiramente entrava nas casas de seu povo para levar a morte a adolescentes.

    A certa altura, Byron sugeriu que cada um dos quatro convivas escrevesse uma história de fantasma original. Algumas foram iniciadas, mas logo descartadas. Mary ficou aflita, pois nada lhe vinha à mente. Até que um dia assistiu a uma longa conversa de Byron com Shelley sobre a natureza da fagulha da vida, do princípio que a gerava. Os dois poetas filosofavam sobre a possibilidade de descoberta de tal fagulha pelo homem e se ela poderia ser retransmitida de alguma forma, cientificamente.

    O papo foi até alta madrugada, mas, ao pousar a cabeça em seu travesseiro, Mary não conseguiu dormir. Sua imaginação fora excitada, e ela teve uma visão. Em suas próprias palavras: “Com os olhos fechados, mas a vista aguçada, observei o pálido estudante de artes profanas ajoelhado ao lado da coisa que havia montado. Vi o medonho fantasma de um homem deitado, e então, com o trabalho de algum poderoso engenho, mostrando sinais de vida (…). Assustador ele devia ser; pois supremamente assustador seria o efeito de qualquer tentativa humana de imitar o estupendo mecanismo do Criador do mundo. O sucesso de sua obra iria horrorizar o artista, e ele fugiria para longe (…). Esperaria que a faísca de vida que transmitira fenecesse; que a coisa (…) tornasse a ser matéria morta. Ele [o estudante] dorme, mas é despertado e contempla a coisa horrível em pé ao lado da cama, olhando-o com olhos amarelos, aquosos, mas especulativos.”

    Mary Shelley em pintura de Richard Rothwell: obra começou a ser escrita aos 18 anos. Divulgação

    A própria Mary, a essa altura, sentou-se na cama, petrificada, buscando na normalidade do quarto e dos móveis que a cercavam a segurança da vida real. Mas logo percebeu que encontrara sua história de fantasma. “Eu a havia achado! O que me aterrorizou aterrorizará outros! Só preciso descrever o espectro que me arrepiou em meu travesseiro.” Na manhã seguinte, ela começou a botar no papel o que seria inicialmente um conto, mas virou romance a conselho de Shelley, que compôs o prefácio da primeira edição.

    “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno” permanece até hoje um alerta sobre as fronteiras do conhecimento humano, se pensamos no torturante conflito do jovem médico ao arrogar para si o papel da Criação, como bem nota a própria Mary em suas lembranças. Também é uma fábula moral que nos faz pensar em como a humanidade trata tudo o que lhe é diferente, como se pode observar na narração que o próprio monstro faz de suas tribulações. Pois a criatura original da escritora é instruída e bem-falante, em nada parecida com a imagem eternizada por Boris Karloff no cinema, e filosofa sobre suas vicissitudes com uma triste eloquência, o que não a livra de cometer atos malévolos. O retrato que o ator Rory Kinnear faz dela em “Penny Dreadful” é bem mais condizente com o do livro.

    André Machado

    Jornalista há mais de três décadas, trabalhou em locais como a Rádio Fluminense FM, o Grupo Manchete e o jornal O Globo, onde cobriu tecnologia no caderno Informática Etc e na editoria Digital & Mídia. Publicou livros sobre o tema e também de ficção ("Daniela e outras histórias", contos, Multifoco, 2012).

    Nota da Redação: André Machado morreu em 2021, vítima da covid-19.

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    Um comentário em “O eterno retorno de Frankenstein

    1. lara disse:

      Eu sou apaixonada pelo personagem do Frankenstein, tanto nos livros quanto filmes e na série. Creio que quem melhor o encarnou até hoje foi o Rory Kinnear. Ele sempre nos fascina nos seus papeis e neste não parece ser diferente. Achei muito inusitado utilizarem um assunto tão atual para fazerem uma produção. Creio que o filme brexit deva ser bem revelador e intrigante devido sua história, parece não ser mais um filme enfadonho de política, mas que pelo cotrário, tem um ritmo legal e bem conduzido, sem ser tão previsível quanto os demais da categoria.

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