Dos incontáveis movimentos de protesto surgidos nos últimos anos no Brasil, este é provavelmente o mais harmônico. Literalmente. Não só pelo ineditismo de juntar músicos de orquestras do Rio de Janeiro, como pelo estilo sereno dos manifestantes. Durante a manifestação, não há profusão de cartazes, punhos cerrados no ar, palavras de ordem beligerantes. Há música de qualidade, alguns momentos de âfora Temerâ e os arcos dos instrumentos trançando o ar ao final de âCarmina Buranaâ, não por acaso escolhido como o hino do movimento Música pela Democracia.
[g1_quote author_name=”Pedro Mielli” author_description=”Violinista da Orquestra do Teatro Municipal” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Esse movimento começou de maneira espontânea…a manifestação é apartidária, se posiciona contra um governo ilegÃtimo e emocionou desde o primeiro concerto, na praça São Salvador.
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Veja o que já enviamos Originária do latim, âCarmina Buranaâ significa âCanções do mosteiro Benediktbeuernâ, com poemas e textos escritos por eruditos errantes e monges copistas por volta do século XIII. Estes últimos eram chamados de clerici vagantes ou goliardos, e costumavam deslocar-se pelas universidades europeias nascentes, assimilando-lhes o espÃrito mais concreto e terreno.
 Eles produziram textos destinados ao canto, em latim e em alemão medieval, com temas como a exaltação ao jogo, ao erotismo e a condenação à Cúria Romana, que consideravam voltada apenas à busca do poder. Como diz o âcarmeâ n°. 10: âA morte agora reina sobre os prelados que não querem administrar os sacramentos sem obter recompensas (…) São ladrões, não apóstolos, e destroem a lei do Senhorâ. E o carme n°. 11: âSobre a terra nestes tempos, o dinheiro é rei absoluto (…) A venal cúria papal é cada vez mais ávida dele. Ele impera nas celas dos abades e a multidão de priores, com as suas capas negras, só a ele louvaâ.
 O compositor alemão Carl Orff musicou vários dos Carmina Burana com o subtÃtulo de “Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae”. A obra pode ser definida como uma espécie de ópera sem história ou uma âcantata cênicaâ. Estreou em junho de 1937, em Frankfurt, em pleno nazismo, representada pela roda da Fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. Tornou-se uma música popular, sobreviveu como rara peça de arte da Alemanha nazista a continuar prestigiada e eternizou os textos âprofanosâ, reformistas, de manuscritos da Antiguidade.
 âO Fortuna, velut Luna, statu variabilis, semper crescis aut decrescisâ. (O Sorte, és como a Lua, mutável, sempre aumentas ou diminuis). Assim no Século XIII como no Brasil de 2016. Ao encamparem versos como esses, músicos oriundos de seis orquestras do Rio de Janeiro tornam-se uma espécie de novos clerici vagantes: em pouco mais de dois meses, realizam o terceiro concerto-manifestação âpela volta da democracia, a recondução da presidente afastada ao cargo e a restituição dos direitos fundamentais de um Estado democráticoâ, como diz um dos organizadores, o contrabaixista Cláudio Alves.
Afinando a viola, pouco antes do inÃcio do ato na Cinelândia, na última sexta-feira, Tina Werneck, integrante da Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), estava feliz com a participação dos colegas. âEsse movimento começou de maneira espontânea e marcou um golaço ao ser exibido nas televisões europeias e até na Al Jazzeraâ, diz, com a disposição de comparecer âaos próximosâ. Pedro Mielli, 35 anos, violinista da Orquestra do Teatro Municipal, diz que âa manifestação é apartidária, se posiciona contra um governo ilegÃtimo e emocionou desde o primeiro concerto, na praça São Salvadorâ.
E, assim, na maior calma, os músicos vindos de diversos lugares do Rio se reúnem na escadaria da Câmara Municipal, na Cinelândia, para afinar os instrumentos. O concerto está prestes a começar, numa paz inimaginável em outras manifestações recentes, no paÃs. O público espera o concerto no mesmo estado de espÃrito.
InÃcio do ato. Um dos organizadores sobe ao alto da escadaria e anuncia o programa da noite: âCarmina Buranaâ, âApesar de vocêâ (Chico Buarque), âPra não dizer que não falei de floresâ (Geraldo Vandré), âRoda vivaâ (Chico Buarque) e âMourãoâ (Guerra Peixe). O público vibra quando o coro de Carmina Burana entra em ação, sob a batuta do maestro Rafael Barros Castro, da Orquestra dos Solistas do Rio de Janeiro. Músicos, cantores e público na mesma sintonia.
Entre algumas composições, os músicos puxam o coro contra o Governo interino. Uma violonista toca com um adesivo de âFora Temerâ grudado no arco de seu instrumento e chama a atenção de fotógrafos, amadores e profissionais. Um morador de rua assume um microfone e acompanha o coro do âFora Temerâ como pode, já que é mudo. Está completamente à vontade entre os manifestantes. Tudo, absolutamente tudo nesta manifestação, é low profile.
Antes da última composição â que se tornou o hino do Música pela Democracia -, um dos organizadores faz o público aplaudir com entusiasmo ao dizer: âQuem define a nossa âtemporadaâ é o Temer. Enquanto ele não sair, nós estaremos resistindo, lutando com a nossa músicaâ.
E volta Carmina Burana. A Cinelândia é a própria Roda da Fortuna.
| O Fortuna, | Ã Sorte, |
| Velut Luna | Ãs como a Lua |
| Statu variabilis, | Mutável, |
| Semper crescis | Sempre aumentas |
| Aut decrescis; | Ou diminuis; |
| Vita detestabilis | A detestável vida |
| Nunc obdurat | Ora oprime |
| Et tunc curat | E ora cura |
| Ludo mentis aciem, | Para brincar com a mente; |
| Egestatem, | Miséria, |
| Potestatem | Poder, |
| Dissolvit ut glaciem. | Ela os funde como gelo. |
| Sors immanis | Sorte imensa |
| Et inanis, | E vazia, |
| Rota tu volubilis | Tu, roda volúvel |
| Status malus, | Ãs má, |
| Vana salus | Vã é a felicidade |
| Semper dissolubilis, | Sempre dissolúvel, |
| Obumbrata | Nebulosa |
| Et velata | E velada |
| Michi quoque niteris; | Também a mim contagias; |
| Nunc per ludum | Agora por brincadeira |
| Dorsum nudum | O dorso nu |
| Fero tui sceleris. |
Entrego à tua perversidade. |
| Sors salutis | A sorte na saúde |
| Et virtutis | E virtude |
| Michi nunc contraria | Agora me é contrária. |
| Est affectus | Dá |
| Et defectus |
E tira |
| Semper in angaria. | Mantendo sempre escravizado |
| Hac in hora | Nesta hora |
| Sine mora | Sem demora |
| Corde pulsum tangite; | Tange a corda vibrante; |
| Quod per sortem | Porque a sorte |
| Sternit fortem, | Abate o forte, |
| Mecum omnes plangite! |
Chorai todos comigo! |
