Passar do silêncio forçado da ditadura para o alegre barulho da democracia é como música para os ouvidos (menos, claro, para robôs digitais e zumbis do Whatsapp). Guardadas as devidas proporções, Brasil e Espanha tiveram a mesma sensação entre o fim dos anos 1970 e o começo dos anos 1980 durante os seus processos de redemocratização â o primeiro emergindo de um regime militar que durou 21 anos (e que resultou na Nova República, que agora, com a eleição de Jair Bolsonaro, parece ter chegado ao fim); o segundo libertando-se da mão de ferro de Francisco Franco após 36 anos. Se por aqui, a trilha-sonora dessa virada passou pelo rock e pela new wave de artistas como Blitz, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Ritchie e Titãs, no paÃs ibérico o fundo musical foi parecido, mas teve desdobramentos particulares, como mostra a coletânea âLa contra olaâ, lançada pelo selo independente Bongo Joe.
[g1_quote author_name=”Loic Diaz” author_description=”Pesquisador” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Soprava um ar de liberdade no paÃs. Havia muita vontade de viver e de inventar algo que não se parecesse com a Espanha de antes
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Veja o que já enviamosComo indica o sub-tÃtulo âSynth wave and post punk from Spain 1980-1986â, o álbum revela as pioneiras experimentações eletrônicas e a postura libertária de um grupo de artistas â Aviador Dro, La Fura Dels Baus, Esplendor Geométrico, TodoTodo, Oviformia SCI etc – que, sob a influência do punk, surfou as primeiras ondas democráticas na Espanha após o franquismo.  Impulsionada por elas, surgiu a âmovidaâ, um libertário movimento que sacudiu as principais cidades do paÃs, englobando música, moda, artes plásticas, cinema (o diretor Pedro Almodóvar foi um dos seus mais célebres representantes) e festas, muitas festas, até o dia raiar e além. âSoprava um ar de liberdade no paÃs. Havia muita vontade de viver e de inventar algo que não se parecesse com a Espanha de antesâ, conta o pesquisador Loic Diaz, responsável pela coletânea.
Na música, a ansiedade por abraçar qualquer coisa que parecesse nova fez com que diversos grupos surgidos em meio à movida â que teve o apoio entusiasmado de polÃticos como o prefeito de Madri, o socialista Tierno Galvan, o primeiro eleito para o cargo em quarenta anos – fossem, rapidamente, absorvidos pelo mainstream. A maior parte, porém, deixou-se âamaciarâ para poder ocupar os generosos espaços abertos por rádios e programas de televisão.  A âcontra olaâ, expressão cunhada pelo próprio Diaz como contraponto à ânueva olaâ reinante, surge no começo dos anos 80, como uma reação natural ao pop-rock genérico e adestrado que virou a trilha-sonora da renascida Espanha.
âOs meios de comunicação naquela época estavam num processo de renovação que coincidiu com a mudança geracional no paÃs, o que explica por que abriram tanto espaço para as novidadesâ, explica Diaz. âMas essa voracidade acabou gerando um esvaziamento da movida.  Assim, por volta de 1981, 1982, as principais bandas da chamada ânueva olaâ tinham sido neutralizadas ou digeridas pela indústria musical. Em oposição a isso, outros grupos começaram a desenvolver estéticas alternativas, à base de sintetizadores e baterias eletrônicas, em busca de novos caminhos musicaisâ.
Para escoar sua produção, esses rebeldes da movida â chamados de âpunks cientÃficosâ ou âprimitivos industriaisâ – tiveram que recorrer a fanzines e selos independentes como Discos Radioactivos Organizados (DRO) e Grabaciones Accidentales S.A. (GASA), em gravações muitas vezes lançadas apenas em cassete.  Apesar de conseguirem alguma projeção em cidades como Madri e Barcelona, não conseguiram êxito comercial e ainda sofreram repressão da polÃcia, que, amparada em arcaicas leis do perÃodo franquista, reprimia shows e prendia aqueles vestidos de forma extravagante.
âUm marco desse movimento foi o I Simpósito Tecno, realizado em 1981, em Madri, reunindo diversas bandas dessa estética anarco-cibernética, influenciadas por Kraftwerk e Devo. Só que o evento acabou sendo interrompido pela polÃcia, que levou público e artistas presos. Foi o momento em que todos perceberam que ainda havia resquÃcios do franquismo naquela Espanha em transiçãoâ, diz o pesquisador.
Frente a todas essas dificuldades, a maior parte dos artistas da Contra Ola teve vida curta e encerrou suas atividades, com a notável exceção do La Fura Dels Baus, que se reinventou como um transgressor grupo teatral, ativo até hoje. Foi dos escombros dessa cena que Diaz extraiu o material da coletânea, com pérolas como âMoscú está heladoâ (Esplendor Geométrico), âAutogasâ (TodoTodo) , âExtraños juegosâ (Zombies) e âGolpe de amistadâ (Diseno Corbusier).
âFoi uma cena efêmera, um instantâneo de um momento bem particular da música espanhola, no qual alguns artistas atrevidos e desafiadores fizeram suas experiências com sintetizadores antes da chegada dos computadores pessoais. Todos foram muito subestimados naquela época. Por isso, aqueles com quem consegui manter contato para organizar o disco mostraram-se muito surpresos e, claro, felizes com o interesse, ainda que tardio, pelo seu trabalhoâ.
