Dois homens pescam à beira de um rio margeado pela densa floresta amazônica no território indÃgena Paiter SuruÃ, em Rondônia, próximo à fronteira com o Mato Grosso. Longe dos ouvidos de moradores de sua aldeia, eles conversam acomodados sobre galhos parcialmente submersos na água turva: âVocê tem vontade de voltar a ser pajé?â, pergunta o mais jovem.
âNão é possÃvelâ, responde Perpera, que tem mais de 60 anos – a idade é inexata. âDepois que o pastor disse que o pajé é coisa do diabo, ninguém mais falou comigo, viraram o rosto para mim. Só voltaram a falar comigo depois que eu fui para a igrejaâ.
[g1_quote author_name=”Perpera” author_description=”Ex-pajé do povo Paiter SuruÔ author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Gostando do conteúdo? Nossas notÃcias também podem chegar no seu e-mail.
Veja o que já enviamosDepois que o pastor disse que o pajé é coisa do diabo, ninguém mais falou comigo, viraram o rosto para mim. Só voltaram a falar comigo depois que eu fui para a igreja
[/g1_quote]A cena é do documentário âEx-Pajéâ, que estreou na última quinta-feira em cinemas brasileiros e cujo cartaz estampa premiações dos festivais âà Tudo Verdadeâ e de Berlim. Perpera é o personagem central do filme que mostra como a maior entidade indÃgena perdeu sua função milenar e acabou marginalizado após a aldeia Lapetanha converter-se à crença evangélica.
A relação de povos indÃgenas com o cristianismo é conflituosa desde a colonização do Brasil. O que os paiter suruÃs estão agora vivenciando é uma tendência considerada por lideranças indÃgenas como ânovas cruzadas de intolerânciaâ. Na première mundial em Berlim, o diretor do filme, Luiz Bolognesi, leu uma carta manifesto assinada por 28 lideranças e 15 associações indÃgenas denunciando o avanço de missões protestantes sobre as aldeias e pedindo o respeito aos pajés e à s medicinas da floresta.
Séculos de conflitos com a Igreja
Após séculos de catequização, a Igreja Católica ensaiou sua primeira retratação aos povos indÃgenas nos anos 1970. A partir daÃ, papas como João Paulo 2º e Francisco reforçaram o  pedido de desculpas pelas agressões da igreja contra nativos da América Latina. Ultimamente a instituição tem freado sua influência sobre as
aldeias.
No entanto, como o manifesto alerta, âo processo não arrefeceuâ e hoje é encabeçado pelas missões evangélicas. Não é um movimento novo. Há relatos de ações missionárias protestantes desde o inÃcio do século XX. Para se ter ideia, a primeira missão que deu origem à chamada Igreja Evangélica IndÃgena foi em 1912. Nas décadas seguintes, as missões acompanharam a exploração das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.
[g1_quote author_name=”Cristine Takua” author_description=”Filósofa” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Eu tenho dois amigos pajés que estão presos no Acre por lutarem contra o evangelismo em suas aldeias, por usarem os remédios da floresta. Existe uma perseguição da Igreja Evangélica aos pajés
[/g1_quote]Recentemente essa dinâmica vem mudando, segundo a filósofa e representante da comissão Guarani yvy rupa, Cristine Takua, uma das autoras do manifesto. âO momento atual desta entrada dos evangélicos, dos anos 2000 para cá, representa uma segunda cruzadaâ, explica Takua. âà muito, mas muito violento. Tem casas de reza sendo queimadas, pajés sendo presos e mortos. Ninguém sabe disso, mas está acontecendoâ.
Takua é mulher de um pajé na aldeia de Rio Silveira, no litoral paulista, onde as tradições
guaranis são preservadas. Ela conta ter acompanhado casos de conflitos de missões evangélicas espalhadas por aldeias de todo o Brasil. Essas aldeias estão fragmentadas entre aqueles que seguem as tradições indÃgenas e os evangélicos. âEu tenho dois amigos pajés que estão presos no Acre por lutarem contra o evangelismo em suas aldeias, por usarem os remédios da floresta. Existe uma perseguição da Igreja Evangélica aos pajésâ, afirma.
O diretor do filme e antropólogo, Luiz Bolognesi, conversou com o Projeto #Colabora do Acampamento Terra Livre, uma tradicional reunião anual que atrai mais de 100 etnias a BrasÃlia durante uma semana. Ele conta que o filme foi exibido lá e que o assunto ganhou as rodas de debate. âFoi o assunto do dia. Eles contaram como estão enfrentando e expulsando as igrejas, algo que sempre traz conflito por parte da comunidade evangelizadaâ, relata.
Cestas básicas e remédios
A aproximação de evangélicos costuma se dar pela oferta de cestas básicas, remédios e outros presentes à s tribos indÃgenas, muitas delas pobres e relegadas. Passadas décadas do primeiro contato, hoje as lideranças evangélicas nem sempre vêm de fora, há também os caciques pastores. Com isso, além da disputa religiosa, outros temas sofrem impasses com o choque de culturas, como a educação dos jovens ou a promoção de saúde da aldeia.
A Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) representa mais de 40 instituições missionárias evangélicas e tem um departamento para assuntos indÃgenas. A entidade foi contactada, mas até o momento não retornou. Num manifesto de 2009, a associação escreveu que as ações missionárias em aldeias é alvo de preconceito e desinformação na sociedade. E enfatiza que o foco de suas ações é social e que não há imposição religiosa sobre os povos.
No ano passado, um caso suscitou esse debate. Um pastor evangélico publicou no Facebook uma foto em que aparece comemorando o batismo de 38 xavantes do municÃpio de Ãgua Boa, em Mato Grosso, entre eles o cacique do grupo. A imagem viralizou e rendeu uma enxurrada de crÃticas ao pastor Isac Santos, da Igreja Tempo de Semear, que replicou: âOs indÃgenas dizem que podem tomar suas próprias decisões. Eles escolheram a nossa fé. Parece que é crime o fato de eles terem escolhido o cristianismoâ.
Intolerância religiosa e polÃtica
Os conflitos religiosos em aldeias indÃgenas se espalham silenciosamente, longe do debate público. São poucos os dados e estudos sobre a evangelização ou as denúncias dos que sofrem por seguirem os preceitos espirituais da floresta. Em 2016, o Ministério de Direitos Humanos lançou um relatório mapeando as denúncias de intolerância religiosa ocorridas entre 2011 e 2015. SobressaÃram-se os casos contra as religiões de matriz africanas. Já os indÃgenas – muitos sem falar português ou longe dos centros urbanos – são pouco mencionados.
Mas se no relatório eram vagos os dados quantitativos, as denúncias emergiram nas vozes dos indÃgenas, através de entrevistas focais. Nelas, eles confirmam que a educação escolar e religiosa promovida por missionários católicos e evangélicos combate as práticas de pajelança. âOs pajés foram considerados feiticeiros e, muitas vezes, quando alguém morria em uma aldeia, os pastores diziam que os pajés eram os responsáveisâ, escreve o documento com base nos relatos. E acrescenta que, com isso, âa transmissão dos conhecimentos de uma geração a outra foi cortada, e muito dos saberes dos pajés foram perdidosâ.
Cristine Takua e outras lideranças indÃgenas articulam buscar apoio da ONU para a situação, já que não enxergam diálogo com o atual governo, apoiado pelas bancadas ruralista e evangélica, que entram em constante choque com o movimento indÃgena. âHoje há uma configuração no Senado dos ruralistas e evangélicos muito forte. Hoje o evangélico que entra na aldeia para catequizar não é só para levar a cruz, mas também para desarticular politicamente a comunidade, para que ela não consiga lutar pela demarcação de suas terrasâ, diz Takua.
Contato recente com brancos
Numa cena do documentário âEx-Pajéâ, Perpera pergunta a um menino: âVocê sabe como nós, pater suruÃ, vivemos?â. O menino rapidamente responde: âCom medo?â.
âNão… Digo, como vivÃamos antes do contato com os brancosâ, replica Perpera. âQuando eu era pajé, e a grande bola de fogo caÃa do céu, era sinal que uma guerra ia começar. As pessoas me procuravam para pedir conselho e proteção. Quando a bola de fogo caiu do céu era sinal do primeiro contato com o homem branco. Eles atacaram a aldeia e mataram muitos de nós. O nosso povo ficou sem direção, não tÃnhamos aonde irâ.
O primeiro contato dos Paiter Suruà com os brancos foi em 1969. Hoje o território tem energia elétrica, carros e celulares, e enfrenta a constante ameaça de madeireiros. São 19 aldeias que abrigam 1.500 indÃgenas num território demarcado no Estado de Rondônia. Perpera tinha por volta de 20 anos quando os brancos chegaram, mas seguiu sua prática religiosa a até menos de uma década, conta Luiz Bolognesi.
O cineasta passou um mês na aldeia Lapetanha filmando cenas cotidianas do ex-pajé, constrangido, cheio conflitos internos e com medo da reação dos espÃritos da floresta. De lÃder espiritual, passou a zelador da igreja evangélica da aldeia. âà uma humilhação o então centro da comunidade ser relegado dessa formaâ, comenta Bolognesi.
âMas fica claro no filme que, nos momentos de crise, a aldeia evangelizada ainda busca o pajé. Quando a mãe é picada por uma cobra, eles fazem jejum, ou seja, ainda seguem preceitos de sua cultura. Existe este constante conflito entre passado e presenteâ, continua  Bolognesi. âO problema é que o pajé é o grande depositário da cultura indÃgena. Com ele sendo relegado, as tradições morrem mais rápidoâ.

Você poderia listar as fontes usadas ? Obrigado
Esse povo evangelizador é uma praga, um verdadeiro câncer a corromper TUDO!
Eu sou leitora do Jornal Porantim faz anos. Respeito muito as tradições indÃgenas que podem ser um exemplo para a civilização branca.
Respeito todas as religiões, mas tentar convencer que a minha é A RELIGIÃO, isso sim é diabólico. Sou descendente de negro, Ãndio e branco, escolhi ser frequentador de pajelança. DEUS infinitamente bom, misericordioso e pai, não deixará que mais essa catástrofe seja imposta aos Ãndios.
Não vejo problema.
Pergunto, quem além da igreja está ajudando esta tribo?
Eles só precisaram de âajudaâ depois da chegada do homem branco em suas aldeias. Ninguém está âajudandoâ os Ãndios , no máximo estão tentando diminuir o mal que o cristianismo causou a eles.
O que muitos homens brancos querem na verdade, é continuar a trocar espelhos pelas riquezas das “selvas”, afastar as pessoas com boas intenções, para não atrapalhar “seus negócios”, deixando os Ãndios, que são seres humanos iguais a nós , sem direitos; vivendo no século XXI, como se estivessem na pré-história, servindo os deuses pagãos , e não ao “Deus Criador” de todas as coisas; o resto é lúcifer (satanás, diabo, serpente, dragão); e os anjos caÃdos (demônios, entidades, anjos do mal, deuses das mitologias).Acorda Povo!!!
O que muitos homens brancos querem na verdade, é continuar a trocar espelhos pelas riquezas das “selvas”, afastar as pessoas com boas intenções, para não atrapalhar “seus negócios”, deixando os Ãndios, que são seres humanos iguais a nós , sem direitos; vivendo no século XXI, como se estivessem na pré-história, servindo os deuses pagãos , e não ao “Deus Criador” de todas as coisas; o resto é lúcifer (satanás, diabo, serpente, dragão); e os anjos caÃdos (demônios, entidades, anjos do mal, deuses das mitologias).Acorda Povo!!!